| 
O
primeiro popular
Ford Modelo T faz cem anos
*José Rezende
Mahar

O carro que inventou a relação do homem com
o automóvel cumpriu cem anos de idade no dia 27 de
setembro. Lançado no ano de 1908, em 1913 Henry Ford
conseguiu montar a moderna fabrica de automóveis
com métodos racionais e assim baixar o custo de fabricação
de veículos com seu imortal T, até 1972 o
carro mais fabricado no mundo com mais de 15 milhões
de unidades vendidas de 1908 a 1927.
Nesse ano foi substituído pelo Modelo A, um carro
mais moderno para enfrentar a concorrência dos Chevrolet
e Plymouth.
O T foi um marco porque foi fabricado em quantidades inéditas
e descomunais, tanto que a historia de que você podia
ter qualquer cor desde que fosse preto era porque as lacas
da época não secavam rápido o suficiente
para permitir um ritmo de produção intenso.
Qualquer outra cor implicava em custos adicionais cobrados
ao cliente.
Ele permitiu ao cidadão comum ter um carro de preço
acessível em um mundo onde 90% da humanidade nunca
tinha ido a mais de 30 km de casa. Foi possível ver
o outro lado da montanha com um carro barato e pratico,
de uma simplicidade franciscana. O Modelo T deu muita coisa
à humanidade, inclusive contribuindo intensamente
para o desenvolvimento da moderna transmissão automática
pelas mãos de um inventor brasileiro, José
Braz de Araripe, o qual desenvolveu um sistema utilizando
o mesmo esquema de cambio, mas passando as marchas automaticamente.
| "Ele permitiu
ao cidadão comum ter um carro de preço
acessível em um mundo onde 90% da humanidade
nunca tinha ido a mais de 30 km de casa.". |
Era um carro feito para quem nunca tinha dirigido nada
que não tivesse um cavalo na frente. Logo não
tinha que prestar homenagens aos saber estabelecido na época,
e podia ser bem diferente de comandos. Exemplo fantástico
era o câmbio, controlado por pedais e não por
uma alavanca central que demandava habilidades especiais
para trocar marchas, o famoso câmbio seco ou não
sincronizado. Era só apertar ou soltar um dos três
pedais: o central controlava a marcha a ré, o direito
o freio traseiro, enquanto o pedal esquerdo no piso selecionava
as marchas, estas possíveis de serem trocadas sem
sustos e ruídos embaraçosos, fazendo qualquer
um parecer um ás do volante.
O motor era também de uma simplicidade inacreditável,
e confiável ao extremo. O acelerador ficava em um
dos famosos bigodes ao lado do volante, enquanto o outro
controlava a ignição adiantando ou atrasando,
atitude indispensável para ligar o carro. Dar um
impulso na manivela que fazia o motor girar e pegar sem
atrasar o ponto de ignição era braço
quebrado na certa, pelo coice que ela dava quando o motor
estava adiantado. Mais tarde, por volta de 1920, foi adotado
um motor de partida elétrico, como nos carros modernos,
mas o resto do carro continuou quase o mesmo ao longo dos
19 anos de produção, na maior parte do tempo
vendendo como pão quente.
Qualquer um com um mínimo de simpatia mecânica
era capaz de mantê-lo funcionando. As rodas finas
passavam em qualquer lugar e o baixo peso do carro facilitava
sua mobilidade.
É preciso lembrar que há cem anos não
existia o que se conhece por estrada moderna, revestida
de asfalto e fácil de trafegar. Era preciso ser meio
off-road para viver naqueles tempos. O motor tinha quatro
cilindros e válvulas laterias, tinha 2,9 litros,
e seus 20 cavalos eram mais do que suficientes para mover
o carro por qualquer lugar, tanto que existiram múltiplas
versões até de uso agrícola, com esteiras
de tração e esquis para andar na neve.
Dele foram derivadas varias versões de uso comercial,
criando a primeira picape com caçambas oferecidas
por fabricantes de equipamentos aftermarket a serem adaptados
no chassi original, o que deu origem ao modelo comercial
Ford TT, com capacidade de carregar uma tonelada de carga,
uma revolução para a época.
Mas como a fila tem que andar e os teimosos é que
sofrem nessa situação, Henry insistiu durante
tempo demais em fabricar o mesmo carro, enquanto a concorrência
subia de qualidade e sofisticação. A GM apresentou
um carro Chevrolet mais moderno no final dos anos 20, enquanto
Walter P. Chrysler também marcava presença
com seus Plymouth de baixo preço, e os consumidores
começaram a desejar carros melhores já por
volta de 1925. O grande gênio do mundo do automóvel
então cedeu aos apelos de sua equipe e começou
a planejar um carro mais moderno e convencional, o Modelo
A ou o conhecido Fordinho 28, como foi apelidado no Brasil.
Mas já era tarde, e a liderança estava perdida,
para só ser recuperada brevemente em 57.
Mas o modelo T foi um marco inesquecível na vida
do homem comum, que queira saber de que jeito era o outro
lado da montanha.

|
*Sou José Rezende
Mahar. Jornalista, advogado, promotor esportivo,
ex-cartola de motociclismo, chefe de equipe, inspetor
técnico, publicitário e “street
racer after all these years”... Escrevo
para alguns dos melhores meios de comunicação
do país e ainda divulgo eventos que gosto,
senão não tem alma o trabalho. Tenho
planos em outras midias!
|
Reprodução
autorizada, desde que citada a fonte: www.maxicar.com.br
|