Em meados de l972, eu ainda jovem, porém já apaixonado
por autos antigos, era o feliz proprietário de um
SIMCA-CHAMBORD l962 saia e blusa, coral e marfim. Numa noite
quente (coisa rara em São Paulo) desfilava eu pelas
ruas do bairro da Mooca — bairro onde nasci — quando
de repente cruzo com uma verdadeira jóia rara dos
anos 50: nada mais, nada menos, que um CHEVROLET BEL AIR
1956 CONVERSÍVEL vermelho, capota e interior pretos,
estava com a capota arriada, desfilando e esbanjando todo
o charme e elegância que somente os importados dos
anos 50 possuem. Não mais que imediatamente, fiz meia-volta
e sai em perseguição do meu sonho de consumo.
Após um ou dois quilômetros de perseguição,
o jovem que o dirigia acompanhado de uma garota, estacionou
em frente a uma lanchonete que era point da rapaziada que
curtia automóveis e “meia-de-seda” (batida
famosa na época, confeccionada com leite condensado).
Estacionei o SIMCA ao lado do CHEVROLET, saltei e disse ao
seu proprietário: — Que belo carro você tem!
—Você esta de gozação?, disse-me ele rindo.
—Não, não estou! Porque?
—Você chega com uma "tremenda Simca" zerada e me diz que
eu tenho um belo carro? (Naquela época o Simca era ainda carro cobiçado
por sua beleza).
— Você gosta tanto assim da SIMCA?, perguntei.
—Se eu tivesse condições trocava contigo agora, retrucou
ele.
Joguei os documentos e as chaves da Simca no capô do Bel Air e disse-lhe: —o
negócio está feito. Meia hora depois, sai com o Bel Air, todo
feliz e sorridente.
Passei a curtir o conversível, e a toda hora alguém
fazia ofertas que eu evidentemente recusava. Porém
um rapaz passou a fazer-me ofertas quase todos os dias. Era
mais jovem que eu e morava nas proximidades. Um belo dia,
não sei como nem porque, acabei cedendo e entreguei-lhe
o carro e, pasmem, sem receber valor algum no ato da venda
(alias não lembro do valor). Obviamente o sujeito,
sumiu com o veiculo. Após algumas investigações
particulares e meio que sem querer, descobri, através
de um amigo taxista, que o Conversível encontrava-se
estacionado no quintal de uma residência a apenas uns
oito quilômetros de minha casa.
Depois de pensar muito bem, e ter o apoio de dois cunhados
e um amigo, apanhei meu Corcel l972 - quase zero - e rumei
para o referido local. Na verdade, fui lá antes, sozinho
e, depois de alguns minutos de conversa com a dona da propriedade,
descobri que o jovem que havia "comprado" o carro
era parceiro do marido da referida senhora e os dois, juntos,
faziam-se passar por pai e filho para aplicar golpes. Por
volta de l9 e 30, chegamos à residência do sexagenário.
Ele esta tomando "alguns goles", somente para abrir
o apetite, é claro! Eu já tinha tido a informação
que esse era seu costume: apreciar a "pura". Passamos,
então, à execução do plano.
Dissemos que gostaríamos muito de comprar o Bel air.
Em seguida, um dos meus cunhados — que por sinal era
muito bom de papo — começou, sem muito trabalho,
a embebedar ainda mais aquele senhor: sentados à mesa
da cozinha, em frente ao litro da "branquinha".
Enquanto isso, eu e outro cunhado, colocávamos no
carro silenciosamente, uma bateria com carga total, que havíamos
levado de casa e também dávamos um jato de
gasolina (com o famoso tubo de desodorante) no carburador.
Ao meu sinal, o quarto homem da operação que
era um amigo, abriu o portão da garagem e em seguida
dirigiu-se ao Corcel que estava estacionado bem próximo.
Para nossa sorte a capota estava arriada e, o ronco do V8
foi a senha para que o cunhado que embebedava o senhor saísse
feito um pé de vento, atirando-se por sobre a mala
do Bel Air até alcançar o banco traseiro. Nessas
alturas o senhor saiu com uma espingarda l2 nas mãos,
mas para nossa sorte estava muito "alto" e não
conseguiu atirar, e o velho e bom V8, roncando alto ganhava
a avenida — que por sinal (sorte nossa) era bem escura — com
faróis apagados já alcançando os 80
quilômetros por hora, e com cobertura do valente Corcelzinho.
Após alguns meses, fiquei sabendo que o jovem que
havia "comprado" o Bel Air, era um marginal (saiu
manchete nos jornais) e na tentativa de assaltar um depósito
de bebidas foi metralhado por policiais.
Tenho certeza absoluta que hoje jamais eu teria coragem
de tal aventura, porém naquela época, com apenas
27 anos, movido pela paixão pelo carro, arrependimento
por ter "vendido" e raiva por não ter recebido...
não
tive duvidas e... ROUBEI MEU PRÓPRIO CARRO!
Antônio
Carlos Piperno,
é presidente do Clube Carioca de Autos Antigos
- Rio de Janeiro, RJ