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Sim. Santo de casa faz milagres!

Temos que ter a noção de que nossas atitudes influenciam outras pessoas a descobrirem seus talentos, a espantarem seus fantasmas. De mero observador, a região do Grande ABC paulista, berço do automóvel no Brasil, passou a ser protagonista no movimento pela preservação da história do automóvel no País. Mas a “peleja” está apenas começando.

*André Gomide

Momento da edição 2010 do ABC Old Car & Parts

Desde que decidi concentrar parte do meu foco jornalístico na região do Grande ABC, onde estou residindo há mais de 40 anos (26 como jornalista especializado), tenho me deparado com inúmeros desafios. O Grande ABC é uma região curiosa e possui algumas características passíveis de estudos científicos. Temos aqui um enorme complexo industrial, grande concentração de riquezas, Santo André e São Bernardo estão entre as cinco cidades brasileiras em concentração de milionários, e mesmo depois do êxodo industrial, gerado pela atuação dos sindicatos, ainda possui a maior concentração de montadoras do País e, conseqüentemente, da América latina. Apesar de tantas credenciais positivas, havia (ainda existe um pouco) de um sentimento que alguns classificam de Complexo de Peter Pan. Sim, apesar de grande e cheio de poderes, sente-se pequeno. Não consegue enxergar seu verdadeiro valor e potencial, seja econômico, seja histórico.

Um termo que criei e hoje é usado largamente, sugere que o Grande ABC é a Detroit brasileira, fazendo uma comparação de importância e concentração de montadoras de automóveis com a famosa cidade norte-americana onde está o comando central de algumas das principais marcas que exploram o mercado nacional. Mas existe um enorme abismo de prioridades entre o que as matrizes planejam para seus países sedes e os lugares onde estão instaladas suas filiais. E isso se entende para o que vem também do solo europeu. O fato é um só. A matriz cuida social e culturalmente do seu quintal, enquanto cobra das filiais resultados financeiros. Isso pode parecer simplista, mas é o epicentro da falta de envolvimento cultural e histórico das marcas instaladas aqui com a nossa história. O Brasil está festejando 50 anos de atividades indústrias e da chegada das linhas de montagem, e não existe nada que exponha publicamente essa história. As filiais sequer possuem acervo histórico.

As explicações para esse panorama são tantas que só caberiam mesmo em um livro. Uma delas está relacionada à condição dos executivos brasileiros de meros subalternos, de colonizados. Isso os impede de avançar e ocupar posições de destaque na cúpula que comanda a tomada de decisões da empresa para todo globo terrestre. As exceções são raras. Em minhas andanças pelos ambientes das montadoras ao logo desses 26 anos, notei que o quinto elemento da sala do escritório de um vice presidente em Detroit, tem mais chance de se tornar um novo presidente da filial brasileira do que um executivo tupiniquim de grande expressão. Quando ocorrem as exceções, a conquista da promoção sempre ocorre porque o executivo tem pensamento alinhado com os desejos da matriz: ampliar o faturamento. Não se tem notícias de um executivo em cujo plano de ações tenha incluído alguma medida cultural e de comprometimento real com o País. Aliás, conheci um, que se demitiu por não concordar com as pressões da matriz cujo discurso sustenta a máxima: à matriz os lucros. A filial, o trabalho!

As explanações acima ajudam a entender o comportamento das montadoras quando o assunto é automóvel antigo. Muitos cobram, e eu particularmente faço isso a mais de duas décadas, um endereço no Grande ABC que possa expressar sua vocação para o automóvel. Somos uma sociedade que respira carro e em todas as casas das sete cidades que compõem a região tem alguém que esta envolvida com o mundo dos automóveis. O primeiro Shopping de venda de carros usados do Brasil nasceu sem Santo André. Mas, infelizmente, tudo que se faz geralmente tem cunho financeiro. Até 2007, a região sequer tinha um encontro de carros antigos que estivesse à sua altura. Existiam ações tímidas, completamente inseridas no conceito do Complexo de Peter Pan, onde uma meia dúzia de amigos se encontrava para desfrutar do prazer da conversa, da companhia. Não existia nada de expressão nacional que estivesse voltado para a história que faz parte da vida de quase toda a população local. Era um dos exemplos que expressavam o famoso ditado popular: “Santo de casa não faz Milagres”.

Quando iniciamos o planejamento para realizar no Grande ABC alguns eventos que tivessem o automóvel no centro das atenções, encontramos uma fileira de obstáculos. Começaram desde indireto pedido de “propina”, algo que minha ética de jornalista não fornece nem que seja R$ 1 centavo, a pessoas enciumadas que fizeram grandes esforços para derrubar a iniciativa da empreitada. Sabíamos há tempos que o Grande ABC é um dos mais importantes celeiros de colecionadores de automóveis antigos do Brasil e são os responsáveis por movimentar grandes eventos do interior do estado de São Paulo e do Brasil. Restava convencê-los de que tínhamos potencial e credencial para acomodar uma exposição que colocasse o Grande ABC no cenário nacional. Curiosamente foi uma das tarefas mais difíceis de todo o projeto. O fato é que ninguém, ou poucos, valorizam o que é de casa. Ainda hoje empresas regionais viajam centenas de quilômetros para expor seus produtos para públicos que não têm nem 10% do potencial de compra da rica região do Grande ABC. O mais curioso ainda é que colecionadores e empresas de outras regiões estão vindo explorar, e faturar, esse mercado que cresce a cada ano.

  O ABC Old Car & Parts acontece no Instituto Mauá de Tecnologia

Mas, como diz um dos sábios provérbios da rica cultura chinesa, “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Fazendo uma análise dos últimos seis anos, podemos afirmar com convicção, que no cenário específico dos automóveis antigos aconteceu uma grandiosa evolução no comportamento das pessoas no Grande ABC. Desde o embrião dessa revolução comportamental, o I ABC Old Car & Parts, realizado no charmoso Parque Chico Mendes, em São Caetano do Sul, cidade modelo e campeã nacional em renda percapita, as pessoas passaram a pensar grande e empresas regionais de expressão nacional começaram a valorizar o movimento pelo estudo e manutenção da história dos automóveis. Uma das mais conceituadas instituições de ensino do País, o Instituto Mauá de Tecnologia, que este ano completa 50 anos de atividade acadêmica, abraçou a causa em 2008 e desde então compartilha esse projeto de levar o movimento dos antigomobilistas a outros patamares, conquistando e formando outros admiradores.

O reflexo disso é que algumas empresas que constroem veículos especiais já planejam se instalar aqui, pois já reconhecem, pela percepção da mídia e da opinião pública, a região como excelência na atividade de fabricar veículos dentro do conceito de Reprodução do Original. Em poucos anos, a região passou da condição extrema na falta de atividade em torno do automóvel antigo, a oferecer acontecimentos em todas as periodicidades possíveis e para todos os gostos. Não há uma semana e que o Grande ABC não ofereça algum evento envolvendo os automóveis antigos. Olhar para trás e perceber isso gera um enorme prazer, pois é o mesmo que ver uma semente plantada no deserto do Atacama tonar-se o embrião de uma enorme floresta tropical. As pessoas possuem o dom da transformação. Precisam apenas acreditarem nisso e deixarem que o tempo cuide de eliminar as ervas daninhas que, afinal, existem em toda floresta. Para perseverar, é preciso isolar quem rema contra.

Mas posso dizer que o processo de revolução regional em torno do automóvel está apenas no começo. O objetivo a médio e longo prazo é tocar e atrair, pela força do movimento e do interesse do público, a atenção das montadoras que ainda não valorizam a paixão das pessoas em torno dos seus produtos. Curiosamente, e acho até absurdo, as marcas geralmente desdenham, não dedicam nenhuma atenção às pessoas que já conquistaram. Ou será que os marketeiros não consideram como potencial cliente para seus modelos “0 km” alguém que possui e mantém um Volkswagen antigo, ou um Chevrolet da década de 60, ou um Ford da década de vinte? Só mesmo um cego não percebe isso. É tão obvio que chega a ser irritante. Eu imagino que uma montadora teria grande sucesso se mostrasse seus novos produtos ao lado daqueles que são testemunhos históricos da sua trajetória no País em um grande evento.

Como em um circulo, voltamos novamente à questão dos reais interessas das diferentes marcas que exploram nosso mercado e o motivo pelos quais não se envolvem no processo histórico. Montadora vive de vender carros novos, ter faturamento, lucros, para que o colonizado daqui ligue no final do dia, ou passe um e-mail pela intranet, informando os resultados das vendas e, assim, possa deixar o cacique na matriz mais feliz. Isso, caro leitor, não é fantasioso. É real. Mesmo em época de vacas gordas, como foram os dois últimos anos e este 2011 promete ser igual, se um executivo ousar sugerir à matriz o investimento em Museu, ou coisa do gênero, terá valor reduzido e será, com certeza plena, motivo de chacota no alto escalão. O máximo que uma montadora brasileira conseguiu veio através da Chevrolet, que chegou a divulgar a construção de um Museu em São Caetano do Sul, em parceria com a cidade. Soube do próprio prefeito, hoje falecido que a montadora desistiu no meio do caminho.

A Ford, cujo presidente atual é um brasileiro treinado sob os olhares de Detroit, sequer sabe que a poucos metros da sede da empresa, em São Caetano, aconteceu um grande evento festejando os 100 Anos do Ford Modelo T, o veículo que foi a base da história de sucesso da empresa norte-americana. E, muito menos, tem conhecimento de que existe no País um Clube (do Fordinho) que possui uma grande organização em torno do modelo e que é exemplo para outras agremiações que se aglutinam em torno de alguma marca. O trabalho e a dedicação dessas pessoas à suas marcas de paixão, seriam considerados ao extremo e recebidas com tapete vermelho se estivessem no países de origem da montadora. Aqui é como se não existissem. Por essa razão, o acervo nacional não está em Museus público ou das montadoras que já acumulam meio século de história no País. A história dos automóveis no Brasil está nas mãos de pessoas comuns que dedicam tempo e dinheiro para restaurar os automóveis por puro prazer e paixão. Talvez por essa razão existam tantos encontros de carros antigos, no Brasil.

 

Palestra de Bird Clemente: sucesso total

Mas é preciso ir além das manifestações públicas, expressadas através dos eventos espalhados pelo País. É necessário fazer justiça e destacar e enaltecer as pessoas que se dedicam ao processo de restauração dos automóveis antigos. Costumo dizer que por traz de um belo exemplar reconstruído, está uma pessoa cujo valor é dez vezes maior. Por esse motivo, dedicamos uma atenção muito especial na exposição que organizamos anualmente para que as pessoas sejam os centros das atenções. O ABC Old Car, que agora passou a ser realizado no início do ano com o propósito de abrir a temporada anual, possui um conceito um pouco diferente do padrão nacional. São ministradas palestras sob diferentes temas e os alunos da Universidade se envolvem cada vez mais com o assunto, funcionando no como um processo de oxigenação de interesses e idéias em torno do automóvel.

Mas o que talvez expresse melhor a preocupação do ABC Old Car em colocar as pessoas em primeiro plano são as eleições de Antigomobilista do Ano, Clube de Carro Antigo do Ano e Jovem Antigomobilista do Ano. Os prêmios de reconhecimento, apurados através de votação, passaram ser realizados a partir de 2010 e conta com um grande corpo de jurados, com participação dos presidentes do clubes, jornalistas e reconhecidas autoridades no assunto. Não se trata de uma comparação entre desempenhos, mas de reconhecimento dos seus pares pelo trabalho dedicado ao movimento do antigomobilismo. Como no Oscar, existem vários concorrentes, mas é revelado apenas o vencedor da temporada. Ninguém fica em segundo, pois na verdade estão todos em primeiro.


Por tudo isso o Grande ABC está conquistando seu lugar ao Sol e vem se firmando como um grande pólo gerador de fatos em torno dos automóveis antigos. Porque vocês acham que fui convidado a escrever esse enorme artigo para o Portal Maxicar?

P.S. Logo após o fechamento deste artigo (03/03/2011), aconteceu em São Caetano do Sul a reunião de fundação do Veteran Car Club Brasil – Estado de São Paulo, com a participação de 22 pessoas, entre colecionadores restauradores e jornalistas. A idéia de reviver o Veteran paulista brotou em palestra de José Roberto Nasser na edição de 2008 do ABC Old Car e logo ganhou a adesão de várias pessoas. O Veteran de São Paulo foi muito expressivo no passado mas estava desativado desde a década de 80 e retorna agora com nova proposta, nova diretoria e novo estatuto e tem o colecionador Marcus Vinicius Meduri como seu primeiro presidente. O sede provisória fica na Rua Eng. Rebouças, 43, em São Caetano do Sul.

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*André Gomide é jornalista especializado em Automoveis há 26 anos e possui uma dos currículos mais ecléticos do setor. Foi repórter no Diário do Grande ABC na década de 80, para onde retornou anos depois (2004) para implantar novos produtos, foi assessor de imprensa da Autolatina, critico de automóveis no Jornal O Estado de São Paulo, Gerente de imprensa da Renault do Brasil e da Hyundai/ Subaru do Brasil. Tem as competições de automóveis como paixão, as quais se dedica esporadicamente. Hoje trabalha com consultoria, edita um site especializado e realiza uma vez por ano o ABC Old Car & Parts – Antigos no Campus do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul.

 

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COMENTÁRIOS PARA ESTA MATÉRIA


Data: 8/3/2011
Nome: Bergaro
Email: p.bergaro@saveragroup.com.br
Mensagem: André

Parabéns pela magnífica abordagem nessa sua reportagem. Aproveito também para parabenilá-lo por mais esse evento em SCS.

Um abraço
Bergaro


Data: 10/3/2011
Nome: Helio Herbert
Email: helioherbert@uol.com.br
Mensagem: Belíssima síntese do que já foi mencionado pelas diferentes
correntes do movimento retromobilístico nos últimos anos.
Parabéns também pela excelente ideía de resgatar o Veteran Paulista.
Sucesso.


Data: 15/3/2011
Nome: ervin moretti
Email: ervinmoretti@uol.com.br
Mensagem: é preciso coragem e determinação para que algo triunfe e tenha o sucesso merecido. Parabens pela visão e pioneirismo. Conte com este seu admirador e amigo. Ervin


Data: 17/3/2011
Nome: Francisco José Pellegrino
Email: jacarepai@ig.com.br
Mensagem: Grande André, jornalista, piloto, grande amigo...esgotou o assunto ! parabéns.


Data: 29/3/2011
Nome: Antonio C. Kaio Castro
Email: kaiolafontaine@primeiroclubedoonibusantigo.com
Mensagem: André Gomide, parabéns pela belíssima explanação. Felizmente no nosso caso "VVR - Exposição de Ônibus e Caminhões Antigos", a Mercedes-Benz do Brasil foge à regra. Tem nos prestigiado, um exemplo realmente a ser seguido pelas demais.
Kaio Castro - Presidente
Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro


Data: 1/4/2011
Nome: EDI
Email: FUCAABC@UOL.COM.BR
Mensagem: PARABENS ....

REALMENTE A REGIÃO DO GRANDE ABC TEM UM GRANDE POTENCIAL QUE AOS POUCOS VAMOS EXPLORANDO E CONQUISTANDO ....

PARABENS POR INVESTIR EM NOSSA REGIÃO UM EVENTO TÃO GRANDIOSO COMO O ABC OLD CAR...

EDI
FUSCA CLUB ABC


Data: 30/1/2012
Nome: Paulo Eduardo
Email: gremel@gremel.com.br
Mensagem: Sou o unico dono de um Chevette modelo Pais Tropical de 1976 e desejo restaura-lo portanto gostaria que vcs me informasse quem faz esse tipo de serviço.Grato



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