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Entre tapas e beijos

*Rubens Perlingeiro

Perlingeiro e seu Gurgel

Meus ancestrais nunca tiveram dom para negócios. Meu avô comprou um circo e o anão cresceu. Meu tio foi dono do único motel que faliu no Rio de Janeiro. Dizem que ele anotava as placas dos carros e mandava cartões de Natal para os clientes. Além disso, minha tia batia nas portas dos quartos para vender cosméticos. Baseado nessa tradição de pouco sucesso empresarial, penso que se eu adquirir uma agência funerária alguém vai inventar o elixir da juventude e irei à falência por falta de defuntos. Essa tendência a fracassos comerciais talvez explique por que tenho um péssimo histórico de más aquisições de carros antigos. Se houvesse um tema musical para acompanhar minha trajetória antigomobilística, seria “Entre tapas e beijos”, gravado pela dupla Leandro e Leonardo.

Dizem que não há inveja positiva, mas é o que sinto quando ouço alguém dizer que conseguiu ganhar dinheiro vendendo um carro antigo. Até hoje, só tive prejuízos. Compro mal e vendo pior ainda. Quando viro a esquina, tenho sempre a impressão de ouvir o vendedor soltar fogos de artifício por ter conseguido se livrar de um carro velho que só eu considerei uma relíquia.

Como bem mencionou o filósofo Sêneca, “ao navegante que não sabe a que porto quer chegar, nenhum vento é favorável”. Parece que ele sabia que, séculos mais tarde, haveria um sujeito que sairia de casa para comprar um pote de requeijão e voltaria com um Puma 1979, para desespero da família. Parafraseando o humorista Groucho Marx, “eu resisto a tudo, menos a uma tentação”.

Minha tragédia com carros antigos começou com uma viagem de trabalho a Sorocaba, em 1994. Lá, em pleno uso de minhas faculdades mentais, adquiri um DKW Sedan 1962 que não funcionava havia 20 anos. Estava caído para a direita no fundo de uma garagem. Depois de uns meses, eu o vendi caído para a esquerda, pela metade do que paguei, depois de haver gastado quase o valor do carro em reparos.

Em um passeio a Tiradentes, quis o destino cruel que eu visitasse uma coleção particular de carros antigos, evento para o qual eu não estava preparado, nem psicologicamente, nem financeiramente. O resultado foi a aquisição de um picape Chevrolet 1956, conhecido no Brasil como “Marta Rocha”. Ao contrário, porém, da homenageada que lhe dá nome, a camionete era horrível. Somente os pneus não estavam amassados, embora fossem carecas. Chegar com a “Marta” a Brasília foi uma epopéia. Bastou ligar o limpador de pára-brisas para que as palhetas fossem lançadas à distância e deixassem o vidro mais arranhado que passado de político. Eu a vendi meses depois, com o prejuízo de sempre, a um sujeito que queria dar um presente à sogra.

Certa vez comprei pela Internet um Karman-Ghia 1968, que estava em Porto Alegre. Só de frete para Brasília gastei mais de dez por cento do valor do carro. O dono me enviara umas fotos mostrando um veículo impecável, descrito como “pronto para receber placa preta”. Depois descobri que isso significava apenas que o suporte da placa não estava podre. O suposto carro parecia uma pizzaria, de tanta massa que carregava. Sob a ameaça de uma ação judicial, o dono concordou em recebê-lo de volta, mas perdi o valor dos fretes. O pilantra deve ter feito uma macumba brava contra mim, pois logo depois eu adquiri, para uso diário, um Daewoo Espero (dizem que é “espero o guincho”). Ao buscar na Internet, descobri que o carro não tinha clube; tinha associação de vítimas. Apesar de tudo, foi o prejuízo ambulante mais confortável que já tive. Seguindo minha sina, acabei vendendo-o a preço de doação, depois de pagar três mil reais para consertar o câmbio automático.

Atualmente, sem ter alcançado a cura para minhas compras intempestivas, tenho um Gurgel Tocantins 1991, cujo apelido é “pastor”, por estar sempre pedindo dinheiro.

Para explicar meu comportamento, recorro à filosofia daquela autoridade do primeiro escalão do governo: “assim como são as pessoas, são os seres humanos”.

 

Conheça outras divertidas colaborações de Rubens Perlingeiro ao Portal Maxicar


*Rubens Perlingeiro Filho é oficial da reserva da Marinha. É aficcionado por carros antigos, com os quais tem uma relação de amor e ódio, pois suas aquisições têm lhe proporcionado tanto prazer quanto prejuízo.
É vice-presidente da "Associação das Vítimas de Carros Antigos" (AVICA), cujo estatuto está publicado neste site.

 

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COMENTÁRIOS PARA ESTA MATÉRIA


Data: 12/8/2010
Nome: Davide Margelli
Email: davide_vcb@hotmail.com
Mensagem: Muito bom, ja passei por situaçoes semelhantes e tenho bons amigos que me acompanham ate hoje nessa epopeias.
Alias deveriamos criar um texto tao bem escrito quanto este, sobre os "amigos" que aprarecem durante a procura, compra, "consertaçao" e venda das maiores reliquias de nossa vida !


Data: 12/8/2010
Nome: Barata
Email: barata51@yahoo.com.br
Mensagem: Conheço o Rubens, pessoa maravilhosa, mas os maus negocios o perseguem , ou seria ele que persegue os maus negocios, outro dia tive que segura-lo para não comprar mais uma tralha a preço absurdo, depois de um bom papo consegui convence-lo a não comprar. Tenho fé que um dia ele vai fazer uma boa compra. Abraços


Data: 13/8/2010
Nome: Paul Gregson
Email: pwg@terra.com.br
Mensagem: Amigo Rubens, se solidariedade lhe confortar, solidário sou! Comecei meus passos com um Galaxie 1967, que sem saber como consertar, foi em troca por uma Mercedes 230S 1963 (que veio de Sorocaba também.....) cujo conserto do freio seria o preço da aquisição. Aprendi a só comprar o que entendo...o que não me deixa muita escolha!! rs Achei que estava curado, e após a recente compra de um XEF por puro impulso, foi vendido tendo como parte de pagamento um Gol com muitos segredos inenarráveis.....relaxe aproveite os momentos e se conseguir, ouça os amigos! abs, Paul


Data: 13/8/2010
Nome: Alvaro Manso
Email: af.manso@uol.com.br
Mensagem: Caro Rubens Perlingeiro, realmente parece que os carros antigos nunca lhe trouxeram muitas alegrias, pelas histórias que conta foram sim tragédias irreparáveis. No entanto uma coisa é certa meu caro Rubens, se você se especializar em contador de histórias e causos de tragédias com antigomobilistas, você terá muito mais sucesso do que adquirir estas preciosidades antigas, achei todas as suas matérias o máximo, parabéns pela criatividade e pela ótima forma de escrever. Um grande abraço, Álvaro
OBS- As 10 desculpas.....foi sensacional!!


Data: 14/8/2010
Nome: Claudio Raulino
Email: raulino.claudio@gmail.com
Mensagem: O chefe Rubens é meu amigo e já viajamos juntos! É uma pessoa extramamente honesta e amiga, não merecia tudo isso.


Data: 14/8/2010
Nome: Roberto Nasser
Email: rnasser@rnasser.com.br
Mensagem: este perlingeiro é fantástico com suas observações bem humoradas e um texto do mesmo nível. é o sociiólogo light que o movimento precisava.

quanto a perder, duvido. carro antigo não é ativo, mas cultura e diversão. permite conhecer novas pessoas, fazer amizades, desfaze-las, classificar o grupamento humano, arranjar terapia alternativa. como disse um ex-presidente da fbva, o médico mandou arranjar um hobby e ele se tornou antigomobilista. ou seja, assumidamente o hobby se transformou em terapia.

perder ? depende da moeda. nos negócios com este produto que na prática é muito maior que sua conformação, medidas ou peso. creio que passado o traço, o resultado abaixo sempre será positivo.

alguém quer comprar um chevrolet de luxe 1951, terceiro dono, engarajado e suspenso há 33 anos, com todos os itens originais, rádio, relógio, cromados do estofamento, 6v, além de composto, alinhado ?

precisa do usual lanternageem, pintura, estofamento.
em coerencia ao artigo do comandante perlingeiro vendo pela metade do que paguei em 1977, um karmann-ghia 1972 corrigido para ser quardado como exemplar de coleção...


Data: 15/8/2010
Nome: odilon
Email: odilonx@yahoo.com.br
Mensagem: hehehe, caro comandante Rubens, nao poderia deixar de lembra-lo de uma feliz aquisiçao que lamento na época que vendeu nao ter tido condiçoes de adquirir,mas hoje esta em boas maos.PUMA GTS 79 BRANCO,carinhosamente chamado de Cauby Peixoto, se nao me engano.Abraços.


Data: 19/8/2010
Nome: Tulio Lazarini
Email: tulio.lazarini@gmail.com
Mensagem: Rubens, que texto hilário, hehe! É coisa de se rir para não chorar! O pessoal da Maxicar precisa contratá-lo para fazer colunas mensais por aqui, viu? Forte abraço, e parabéns pela narrativa!


Data: 20/8/2010
Nome: Soares
Email: Soares19663@hotmail.com
Mensagem: Eu acho que para ser um comprador de veiculos tanto antigo como novo deve-se ter conhecimento se isso não é possivel , pedir ajuda a quem tem experiência pois dessa maneira o prazer vira um pesadelo....e essa não é a intenção de se ter um carro antigo...boa sorte..!!!


Data: 23/8/2010
Nome: Miguel Pinheiro
Email: vwboxerbrasilia@gmail.com
Mensagem: Rubens é um Amigo sensacional, essa coluna foi direitinho como ele é, tem assunto pra dar de metro e comico...Fabuloso.
Muito Bom.



Data: 26/8/2010
Nome: Cazuza Joseilson cavalcante
Email: cazuzapassat@gmail.com
Mensagem: Seu Rubens, como falo sempre em casa, paixão não se exlica, simplesmente se vivencia. Eu também passei por poucas e boas na nossa querida arte do antigomobilismo.
Lá pelo início dos anos 90, ao ler os classificados sentado no trono e prestando sólidos esclarecimentos ao nosso amigo 'bocão', me deparei com uma raridade; Passat Surf 78 com forros de porta xadrez originais.
O vendedor fez questão em informar que o veículo seria vendido no 'estado que se encontra'. Chegando lá, estava bem pior do que imaginava. Nem pensei muito. Paguei o carro e levei para casa. Minha mãe ficou chocada e ficou uma semana sem me dirigir a palavra. Meu pai me olhava atravessado como se eu tivesse 'catado' a empregada. Neste Passat até o DUT estava empenado. Eu brincava que pagava 2 ipva's porque ele ocupava duas faixas ao mesmo tempo.kkkkkkkkk

Felizmente apareceu um louco( sim, sempre aparece um melhor ou pior que você), me pagou uma merreca, e, com o que sobrou, comprei uma bicicleta que os malandros de Brasília tomaram emprestado e até hoje não devolveram.

Então, como "A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer." (Mark Twain), prefiro continuar errando, o menos possível, e continuar a apanhar da mãe e da namorada quando chego em casa com mais uma 'peça reserva' para um dos meus Passats.

E você, seu Rubens, é um cara de extremo bom gosto e cordialidade. Não é à toa que organiza um dos melhores encontros de carros antigos de Brasília, lá no Clube Naval. Um abraço!


Data: 28/8/2010
Nome: Carlos Zarur
Email: carlos@zarur.com.br
Mensagem: Gostei muito do seu artigo sobre suas desditas antigomobilísticas. O negócio é continuar tentando, sem grandes exageros, até a sorte grande bater na porta. A história do Karmann Ghia foi de amargar. Acho que é uma espécie de compulsão predatória que deve ser tratada com o acerto na próxima compra.
Ótima crônica!
abs
Carlos Zarur


Data: 27/12/2010
Nome: Beth
Email: bethaliguima@gmail.com
Mensagem: Querido compadre Rubens Perlingeiro,
Seu texto é sensacional, depois da faculdade de história faça faculdade de jornalismo. Você não só fala muito bem como escreve maravilhosamente bem, com muito bom humor. Eu
sei que se conselho fosse bom não se dava, vendia-se, mas
como só quero seu bem, acho que agora está indo para um caminho certo, a escrita, com o bom humor que sempre teve.
Tem como exemplo a sua queridíssima esposa Malu que demorou a descobrir o dom da pintura, e tornousse uma grande pintora famosa e mundialmente conhecida.



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