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Antigomobilista sofre!

Sempre ouvimos dizer que o Brasil, é um país sem memória.
Ou que o brasileiro não tem memória, não preserva sua história.

Temos que admitir que as dificuldades em se conseguir resgatar qualquer coisa que se relacione com o passado, recente ou não, são muitas e os obstáculos enormes.

Em se tratando da memória da indústria automobilística brasileira então, nem se fale. Tudo é difícil.

As fábricas/montadoras nunca se preocuparam em documentar suas histórias com dados, informações, fotos, ou até a conservação de exemplares de carros de sua fabricação, para servir de referencia, ou para testemunhar uma época, ou geração.

Talvez a GM (General Motors do Brasil) seja uma exceção, mais em função de ter tido como presidentes alguns apaixonados por história e antiguidades como André Beer por exemplo, do que por preocupação em contar e preservar a sua própria história.

Hoje, o simples mortal que se dignar a restaurar um carro nacional, tem que penar muito, atrás de pesquisas, informações, dados técnicos, e principalmente detalhes de acabamento importantes para ter um serviço de restauração respeitado e reconhecido como original.

E onde conseguir isso tudo? Nas fábricas/montadoras é que não é.
A omissão é total. Essas já lavaram as mãos, já que descontinuaram a produção dos carros, se eximem da obrigação de fabricar peças, e também não estão preocupadas, em colaborar de algum modo a minimizar as dificuldades de quem resolveu colocar na rua “brilhando e tinindo” como novo, aquela “velharia”.

São nos clubes de carros antigos e seus sites, ou são os abnegados/ apaixonados por determinada marca ou modelo de carro, que disponibilizam seus arquivos, seus amarelados recortes de jornais e revistas, ou seus “baús” cheios de “preciosas raridades” (para nós) e taxados de “amontoado de lixo” por parte de seus familiares (esposa, pai, mãe ou filhos).

Um ou outro mais fanático, monta um banco de dados, cadastrando desde fabricantes de peças, a fornecedores, profissionais especializados, prestadores de serviços, mecânicos, ferros velhos, desmanches etc.

Essas são as únicas armas a disposição dos corajosos antigomobilistas dispostos a enfrentar uma restauração.

Bem, tudo isso serve para contar uma breve/longa historinha acontecida comigo recentemente. Precisando fazer uma revisão de motor (VW a ar) em meu carro, eliminar vazamentos etc... optei por trocar a caixa que cobre a ventoinha, (também conhecida por “capela”) por um modelo utilizado nas Kombis, para melhorar a refrigeração, seguindo os conselhos dos “doutores” especializados nesse tipo de motor.

Como esse motor foi descontinuado recentemente (fins de novembro 2005) achei que não teria dificuldades em comprá-lo em uma concessionária da marca. Mas após consultar uma concessionária próxima de minha casa, cujo vendedor me disse que eu teria dificuldades para encontrar peças de Kombi, porque muitas concessionárias nem trabalhavam com esse tipo de carro, consegui dele pelo menos o número da peça original, com o qual poderia consultar on line, outras autorizadas VW. Mas para minha surpresa, a peça não existia em nenhuma loja VW do Brasil.

Mas como sou brasileeeeeeeiro e não desisto nunca, entrei em contato com uma concessionária que nos áureos tempos (60/70) foi uma das maiores vendedoras dos produtos VW, e que embora tivesse nova razão social, permanece majestosamente localizada próxima ao centro da cidade (lembrem-se, estou em Sampa, capital).

O vendedor muito solícito, apesar de não ter a peça em estoque, se prontificou a pedir na fabrica, e em 3 (três) dias no máximo me entregar juntamente com as outras peças (que também estavam em falta). Passaram-se os 3 dias, mais um final de semana, mais alguns dias, e nada de respostas.

No 7º dia (parece missa, mas não é) eis que chega a resposta da fabrica: essa peça é conhecida pela fabrica pelo código BO (não é mais fabricada). Que beleza!

Bem, de posse da minha sacolinha com os outros itens conseguidos, (ufa!) fui confortado pelo vendedor com o famoso conselho: O jeito é procurar nos desmanches.

E lá fui eu no dia seguinte, peregrinar pelos diversos desmanches em busca da tão “rara” peça, de tão “raro” motor, produzido por quase 50 anos, e descontinuado há pouco mais de 90 dias...

Felizmente no final da tarde, consegui chegar à oficina onde havia deixado meu amado e idolatrado carrinho, orgulhosamente portando embaixo do braço, aquele precioso pedaço de lata preta. Finalmente o carro foi montado, seus problemas resolvidos e passa muito bem.

O que me revoltou mais, ao acordar na manhã seguinte foi ter notado dois fios de cabelos brancos, junto à orelha esquerda.
Não sei se os conservo, (afinal, não é para qualquer um ter cabelos brancos patrocinados pela VW), ou os arranco e guardo como lembrança em uma caixinha de “Peça Original Volkswagen”.

Abraços a todos.

Romeu Nardini é comerciante, apaixonado por autómóveis, grande entusiasta dos carros antigos, e diretor do Clube MP Lafer - Brasil."

Reprodução autorizada, desde que citada a fonte: www.maxicar.com.br/old


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