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ENTREVISTA EXCLUSIVA*
Roberto Nasser

“Nós estamos fazendo história, ou brincando de carrinhos?”

Para quem é ligado ao mundo dos veículos antigos e dos automóveis em geral, seu nome dispensa apresentações. É um dos fundadores e ex-presidente (2 mandatos) da Federação Brasileira de Veículos Antigos. Autor de toda a documentação que deu origem à Lei da Placa Preta para veículos de coleção, assunto que gera sempre grandes a acaloradas discussões. Declarado amante dos carros nacionais, é curador do Museu do Automóvel de Brasília, que integra o Centro Cultural Memória dos Transportes. Recentemente apresentou ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio proposta de isenção de impostos para a importação de veículos antigos entre os países do Mercosul. Além disso, deseja ver proibida a exportação de veículos antigos brasileiros. “Antigomobilismo, Antigomobilista?” Estes termos constam no Novo Dicionário Houaiss graças a ele. Carioca, é advogado e jornalista especializado em automóveis. Nosso entrevistado deste mês é Roberto Nasser.

MAXICAR - A indústria automobilistica nacional está completando 50 anos. Qual sua análise sobre a trajetória dos veículos brasileiros – que já foram até chamados de “carroça” por um Presidente da República - neste momento histórico?

NASSER – Nós vivemos uma dicotomia. Por um lado, temos uma estrutura de competência: insumos, instalações, e o mais importante, gente que sabe e pode fazer projetos de automóveis. Nossos designers têm reconhecimento mundial e o Brasil é capaz de fazer e vender projetos para veículos no exterior.

Por outro lado, entretanto, vivemos a situação curiosa de não termos um veículo para as condições nacionais. Todos os que temos são adaptados ao nosso uso.Deveríamos ser mais poderosos mundialmente, mas o automóvel, assim como seu uso, seu emprego no trânsito das cidades ou nas estradas, são considerados como itens independentes, periféricos. Daí, não merecer uma política nem participar de um projeto de expansão nacional.

MAXICAR - Os encontros de veículos antigos são relativamente recentes no Brasil. Coisa de 20 anos. O que se vê hoje é a multiplicação dos encontros por todo o país, festas cada vez mais grandiosas e profissionalmente organizadas... E o sucesso é sempre muito grande. O Senhor acredita que o grande público está finalmente descobrindo o antigomobilismo, como uma forma de lazer e cultura?

NASSER – Permita-me a correção. Os encontros de automóveis antigos no Brasil existem há mais de 30 anos. Ocorria entretanto serem pontuais, com participantes apenas locais. Explicação simples: como não havia a individualização dos automóveis antigos, todos que passavam pelas estradas, sem portar os equipamentos que os guardas entendiam obrigatórios, eram apreendidos.

A expansão do antigomobilismo e o turismo antigomobilístico são conseqüentes à caracterização dos veículos antigos como coleção, e sua isenção ao uso de equipamentos que as autoridades entendiam como obrigatórios.

MAXICAR - O Senhor é declaradamente apaixonado pelos antigos nacionais, sendo inclusive curador de um museu especializado e realizador de um evento anual exclusivo para esta categoria. Os veículos antigos nacionais já conquistaram seu merecido lugar em termos de participação em eventos, valorização como bem histórico e até mesmo comercialmente?

NASSER – Se eu mereço algum rótulo é o de ter orgulho nacional. Daí ter iniciado uma coleção de nacionais à época em que estes veículos eram desprezados. Entretanto, esta mudança de status se deu quando presidente da FBVA propus aos meus pares elevar os carros brasileiros ao nível de premiação que antes apenas atingia aos importados.

Evento mais importante do país, o Encontro Nacional permeou o conceito e se difundiu. Minha idéia com a proposta era um pouco mais ampla: valorizar o nacional, democratizar o antigomobilismo, e instigar o surgimento de pequenos empreendimentos de reprodução de peças, acessórios, literatura. Isto está mais lento que imaginava.

Assim, em vez dos pequenos industriais, temos pessoas que compram velhos estoques a preço de tonelada, e os revendem como gramas de jóias preciosas. Isto eleva desnecessariamente os custos, espanta os colecionadores, limita a expansão.

Os nacionais ocuparam espaço vago. Para conquistar seu lugar devem privilegiar a autenticidade e a originalidade. Hoje há muitas restaurações próximas às reformas, e tentativas de dar cunho pessoal às restaurações. E isto é andar para trás.

MAXICAR - Um tema polêmico: para muitos o primeiro veículo nacional é o Romi-Isetta, lançado em 5 de setembro de 1956. Para outros, é a DKW Vemaguet, que começou a ser produzida cerca de dois meses depois. A alegação é a de que o Romi-Isetta não pode ser considerado um automóvel, por possuir apenas uma porta. Qual a sua opinião a respeito?

NASSER – Meu mau hábito de advogado é acreditar nas provas – e plantar dúvidas ... Na verdade não sei o que significa ser o primeiro carro nacional. O que caracteriza isto? a montagem em terras brasileiras ? o índice de nacionalização ? um projeto inteiramente nacional ? Vocês vêm que, a cada conceito, há um veículo diferente.

Na década de ’50, havia montagem de várias marcas, incluindo caminhões FNM e os Jeep Willys. Não seriam estes os primeiros nacionais?

A dúvida entre o Romi e os Vemag não existe. O pequeno Romi foi lançado formalmente no 5 de setembro de 1 956 e o utilitário F 91 Universal, pela Vemag, aos 19 de novembro, dois e meio meses após.

A dúvida que volta e meia se situa diz respeito ao apregoar do Vemag como primeiro. Mas é confusão. Primeiro, pioneiro, o Romi. O Vemag é confundido porque possuía a Autorização número 1 do Geia – até porque o pequeno Isetta não estava enquadrado em sua tipificação como veículo passível de incentivos. Mas o Romi antecedeu à legislação do GEIA.

MAXICAR - Atualmente há uma forte tendência das grandes montadoras em lançar automóveis com linhas retrô ou mesmo reeditar antigos modelos, como é o caso do Camaro, do Mustang, do Challenger... O Senhor vê isso como apenas um modismo passageiro ou um novo conceito de design para os próximos anos?

NASSER – Creio que a semelhança de linhas ainda experimentará um pique e depois passará. O problema é que o mercado mundial de automóveis está saturado. Nos países de maior motorização é necessário que um octogenário faleça e que um jovem faça 18 anos para que se venda uma unidade. Os carros nunca estiveram tão bons, tão seguros, tão duráveis quanto os produzidos atualmente. Assim, não se pode pensar em carro novo como forma de substituir as dores de cabeça com o carro velho. A solução, então, é criar novas formas e aplicativos para que o veículo seja trocado porque caiu de moda. A moda é o SUV, é o crossover, o monovolume...

A identificação com as linhas antigas é forma de atração e diferenciação. Afinal, os maiores concorrentes das montadoras tradicionais, japoneses e coreanos, não tem história antiga. O retro integra um apelo por história, tradição, o que traduz segurança quanto à marca, garantia, seriedade de trato. E esta identificação os concorrentes não podem apresentar.

MAXICAR - É de sua autoria o documento que deu origem à Lei que regula a Placa Preta para veículos antigos. Qual foi sua intenção ao apresentar este requerimento?

NASSER – Não apenas um documento. Ele demarrou todo um processo, com acompanhamento, relatórios, esclarecimentos, juntada de documentos, muitas conversas, duas exposições orais no Contran, e todos os passos administrativos para colocar a proposta nas mãos e na boa vontade do presidente Itamar Franco. Mantê-la no atual Código demandou trabalho idêntico.

A idéia não se restringiu a resolver casos pontuais, mas a colocar a atividade do automóvel antigo sob o abrigo de um conceito contido num instrumento legal poderoso, como foi o Decreto de Itamar e a Lei do Código. Era trazer o antigomobilismo para a área da cultura, da história, da preservação. Colocar o ato de preservar o veículo antigo como um ato cultural e não como um trabalho de recuperação mecânica.

MAXICAR - Após quase 10 anos da promulgação da Lei, como o Senhor analisa o cenário da aplicação da Placa Preta?

NASSER – Tudo que é novidade tem percalços. Ainda é assim. Há gente que critica porque entende haver um cerceamento para circulação... ( ? ). Outros não a requerem porque acham que a fiscalização não sabe do que se trata e fará a apreensão do veículo... Outros sabem que não devem pretende-la porque não restauraram os veículos à originalidade, fazendo reforma personalizada. E sabendo que não a conseguirão, preferem não correr o risco. E os que contestam por contestar. Faz parte do gênero humano – ou da falta de qualidade do ser humano.

MAXICAR - A Lei da Placa Preta existe somente no Brasil ou outros países também já adotaram?

NASSER – Outros países a adotam e foi neles que busquei os parâmetros para desviar dos erros alheiros, simplificar, e sugerir a normatização brasileira. Nossa legislação é considerada a mais clara e prática do mundo, e vem sendo vertida para outros países. A caracterização é simples – idade e originalidade. O processo, idem. Quem atesta originalidade são entidades credenciadas pelo organismo central de trânsito, o Denatran. Mantém-se a originalidade, sem obrigação de apor novas lanternas, como nos EUA e na Europa.

MAXICAR - Tem sido comum encontrar, sobretudo nos encontros de veículos antigos, automóveis totalmente descaracterizados ou em mal estado de conservação, portando Placa Preta. O que o Senhor acredita que possa ser feito para impedir que isso aconteça?

NASSER – Apenas consciência. No dia em que o colecionador se enxergar como um ente cultural, como um preservador da história, como o responsável pela conservação de um pedaço histórico de seu país, com a missão de conserva-lo para entregar a seus sucessores, filhos ou netos, tudo isto acaba e entra nos trilhos. Automóvel antigo é como um relógio Patek Phillip. Mais que um marcador de horas, uma referência de qualidade construtiva. Você preserva, cuida, e ao final transfere a posse.

Sobre as imperfeições, simples resolver. Basta que qualquer antigomobilista oficie ao clube que reconheceu a originalidade, indicando a impropriedade, e pedindo correção e providências. Não o fazendo, deve denunciar ao Denatran e solicitar apreensão do veículo por não estar de acordo com as características.

MAXICAR - Estaria havendo um despreparo dos avaliadores oficiais dos clubes, desleixo na avaliação ou má fé?

NASSER – Se há desleixo ou má fé, ocorrem em reduzidíssimo percentual. Não acredito em despreparo. Creio que há a mistura de conhecimento informal – como saber se o VW 1300 de 1976 possuía maçaneta cromada e manivela preta, sem ter literatura de época à mão ? – com um pouco de leniência – o fulano é nosso amigo ...
A postura deve ser mais profissional. É a única solução.

MAXICAR - O número de clubes credenciados para a vistoria de Placa Preta tem se multiplicado. Alguns destes clubes não são filiados a Federação Brasileira de Veículos Antigos e o credenciamento se dá diretamente pelo CONTRAN. O Senhor acha que isso tem contribuido para o aumento do número de Placas Pretas irregulares?

NASSER – Não penso assim. Sem modéstia, porém me atendo aos fatos documentados, além de ter mudado a caracterização do veículo antigo preservado, também fui o autor da proposta que desobrigava os clubes de ser filiados à Federação para ter a outorga que habilita e emitir o Certificado de Originalidade.

O que ocorreu é que a Federação, sem trabalho, entendeu possuir um verdadeiro cartório nas mãos, e passou a obrigar aos clubes a se filiar, cobrando adicionalmente para autoriza-los a examinar os veículos que queriam ser classificados como “de coleção”. A situação expunha uma violência contra o colecionador pois, por conta disto acabava onerado: era obrigado a se filiar a um clube e ainda pagar taxa de vistoria.
Pensando bem, se o clube valesse a pena, o antigomobilista já seria seu sócio. Obrigá-lo a associar-se e aos custos elevados da vistoria porque uma parte seria repassada à Federação, penalizava, exatamente, quem deveria ser reverenciado, o colecionador.

Mostrei ao Denatran que este contrasenso expunha a administração pública por um protecionismo indevido e dirigido contra o cidadão, e a legislação foi mudada. Qualquer clube pode se dirigir e credenciar diretamente.

Quanto às imperfeições para a concessão do uso da Placa Preta, não creio ser privilégio dos não-federados. Os conceitos que situei acima infelizmente há em todos os grupos – e devem ser combatidos em todos os grupos.

MAXICAR - Baseado na Portaria 370 e na legislação do Mercosul, o Senhor apresentou recentemente ao Ministério do Desenvolvimento, Industria e Comércio uma proposição solicitando isenção de impostos para a importação de veículos antigos oriundos dos países filiados. Como andam os estudos do Governo Federal sobre o assunto?

NASSER – Vai melhor que eu imaginava. Brasil e Argentina aceitaram de pronto. Atualmente a Argentina busca estabelecer um parâmetro próprio de idade ou valores mínimos. Faz parte das negociações internacionais. Há dias produzi um novo documento esclarecedor a respeito, buscando dirimir umas colocações dos negociadores argentinos.

O importante é que a delegação brasileira, especialmente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior entendem e defendem a proposta. São executivos públicos da melhor qualidade.

MAXICAR - Existe a chamada Lei do Usucapião de Bens Móveis. Segundo consta, é possível legalizar veículos abandonados e sem documentos, bastando para isso provar a posse do veículo por mais de 5 anos, sem que neste período haja um reclamante. O Senhor tem notícias de que na prática esta lei tem funcionado?

NASSER – É possível tal resolução através de uma Escritura Declaratória. É processo mais simples, desde que a certidão seja aceita pela autoridade de trânsito. Sugeriria indagar antecipadamente e, em caso positivo – o que deve ocorrer – é mais fácil, rápido e barato lavrar a escritura que tentar o processo por via judicial.

MAXICAR - Nos meios antigomobilistas comenta-se, à boca pequena, que colecionadores inescrupulosos têm se aproveitado desta legislação para trazer ilegalmente veículos do Uruguai e Paraguai e depois os legalizando no Brasil. O Senhor tem conhecimento de que isso realmente aconteça?

NASSER – Quem souber de um ilícito e não denunciá-lo, será tão culpado quanto o transgressor. Não sei indicar caso concreto, mas ouve-se volta-e-meia conversas vagas a este respeito. A meu ver uma bobagem que não vale o risco. Os veículos dos países vizinhos são tão baratos, que o pagamento das taxas devidas não inviabilizam negócios e dispensa caminhos tortuosos - e caros – para posteriores pseudo-regularização. Creio a estas pessoas deve caber um atenuante pois, afinal, estão enriquecendo o patrimônio antigomobilístico do país.

MAXICAR - É também de sua autoria uma proposta para que seja proibida a exportação de veículos antigos do Brasil. Caso seja promulgada, qual será a importância desta lei para o antigomobilismo brasileiro?

NASSER – O que tenho feito é buscar a re-edição do espírito de legislação existente ao tempo da Cacex – extinta pelo governo Collor – vedando a exportação de veículos com mais de 40 anos. É um ato administrativo, portaria ou resolução, que vedaria a exportação de veículos antigos em geral.

Na verdade os exportadores não apenas vendem carros velhos. Eles levam embora os poucos representantes de um período sem repetição. Vendem por trocados um pedaço da nossa história. São uns lesa-pátria e deveriam ser repelidos pelos verdadeiros antigomobilistas.

MAXICAR - Esta lei se aplicaria somente a veículos fabricados no Brasil ou a qualquer veículo registrado no Brasil, mesmo que importado?

NASSER – A todos. Afinal compõem o acervo antigomobilístico nacional.

MAXICAR - Como foi acolhida pelas autoridades esta sua proposição?

NASSER – Muito boa, embora seu curso administrativo seja mais cuidado e longo, pois não se trata apenas de um ato num bloco econômico, como o caso da importação dos países do Mercosul. Há que se enquadrar na legislação de comércio internacional. Mas há boa vontade administrativa.

MAXICAR - O Senhor é o fundador e primeiro presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos. Qual a importância da FNVA para o desenvolvimento da cultura antigomobilista no Brasil?

NASSER – A idéia básica que ofereci aos presidentes de clubes num encontro em Poços de Caldas, MG, para a criação de uma entidade, era que unidos saberíamos quantos somos, o que somos, o que queremos. E quais as nossas necessidades, as nossas forças, as nossas fraquezas. Assim, reunir, projetar, resolver. Foi assim durante a minha gestão. Mais recentemente não tenho acompanhado proximamente e talvez por isto não perceba o auxílio que a FBVA pode estar oferecendo aos clubes e em especial aos antigomobilistas, únicos agentes desta cultura. Se a FBVA não auxilia o crescimento, o adensamento, a expansão do antigomobilismo, perde sua razão de existir.

MAXICAR - Fale-nos sobre o Museu do Automóvel de Brasília, seu acervo, sua biblioteca...

NASSER – O Museu é uma das minhas bobagens poéticas. É mais que um Museu destinado a salvar história, veículos e feitos de tecnologia da indústria automobilística nacional. É a demonstração que o automóvel foi um agente muito importante no desenvolvimento econômico, social e tecnológico de nosso país. Por isto deve ser reconhecido. Daí, ser informativo, didático, provocador, longe da idéia de um depósito de carros para quem não tem garagem.

A função do Museu é instigar o surgimento dos futuros antigomobilistas. Se conseguir, terá cumprido sua função. Ao contrário, não haverá novas gerações de antigomobilistas, com perda de interesse, acervo e história. O Museu é uma provocação aos colecionadores com enormes e secretas coleções, que não lhes dá a finalidade social.

O acervo do Museu é formado por alguns veículos que preservei, muitas doações, incluindo protótipos da indústria automobilística e carros de amigos que aderem às exposições temáticas. Pequeno em seus 1.000 m2 de área expositiva, o Museu mantém alguns exemplares preciosos para a história, como os Clássicos Nacionais e até uma das duas unidades de protótipo do VW Transporter feito pela Volks alemã – o outro está em seu museu em Wolfsburg, Alemanha.

A biblioteca é da disfunção de advogado, sempre à procura da referência escrita. Hoje está maior que o espaço que posso destinar. São cinco mil livros em estantes e inúmeras fontes de consulta – folders, manuais, impressos, revistas – a crescer diariamente por aquisição ou doações.

MAXICAR - Como são organizados os Eventos Temáticos do Museu?

NASSER – Para que o Museu não se torne um estático elefante branco, criamos eventos temáticos para celebrar a história do automóvel e as histórias em torno dos automóveis.
É uma forma de obter mídia e criar atrações para que visitantes voltem e saibam que terão novidades algumas vezes ao ano.

MAXICAR - Em seu livro “Democrata: Carro Certo no Tempo Errado” o Senhor afirma: - Não pensava em um livro, mas num registro para a biblioteca do Museu. Mas a Fiat incentivou o lançamento, e abriu um caminho: outros registros virarão outros títulos”. Poderia nos adiantar alguma coisa sobre este projeto editorial? Que lançamentos os antigomobilistas podem esperar?

NASSER – Eu assumo meus erros. Um deles é o perfecionismo. Não fosse, e um bom livro sobre Simca poderia estar publicado. De tanto que pesquisei, aferi, conferi, cruzei informações, acabei sendo surpreendido por outra publicação com o mesmo tema. Assim, suspendi temporariamente o do Simca. O Sérgio Berezovski, editor de 4 Rodas, conhecedor da história, me sugeriu lançar outro que está pronto e bem completo, sobre a história do Brasinca. O texto foi submetido ao professor Rigoberto Soler, autor do projeto. Ele nos deixou, mas a marca de seu brilho se mantém.

Tenho uma obra quase pronta sobre conselhos a antigomobilistas, e uma ampla e encadeada pesquisa sobre a feitura dos automóveis no Brasil. Eu escrevo uma hora/dia sobre história da indústria em nosso país. Assim, há material.

Sobre o perfecionismo, afirmo com orgulho que não cometi erro crasso no livro sobre o Democrata. Das fontes consultadas e de todos os leitores, nada ouvi sobre imperfeições, equívocos, erros ou omissões. É um bom sinal. Quem escreve um livro não juntou simploriamente alguns fatos e deu-lhes seqüência. Mais que isto, assumiu a responsabilidade, o compromisso de ajudar a escrever a história, em fazer uma referência para o futuro, em ser honesto, oferecendo informação, dados e raciocínios corretos a quem investiu dinheiro e tempo para adquiri-lo e ler. Se correta, a história sairá certa. Se errada, tomará rumo diverso e levará leitores a caminho errado.
Há pouco tempo dei uma olhada num livro de marca e o fechei após o centésimo – centésimo! – erro de informação.

MAXICAR – O Senhor gostaria de acrescentar algo mais sobre os assuntos aqui tratados ou deixar alguma mensagem aos antigomobilistas que prestigiam o Portal Maxicar?

NASSER – Sim. Ao agradecer a lembrança e a oportunidade gostaria de convidar os interessados nesta atrativa atividade a um raciocínio. “- Nós estamos fazendo história, ou brincando de carrinhos?”

A diferença é enorme. Quem faz história preserva a originalidade, restaura veículos com paixão e dedicação. Faz o melhor, o mais próximo possível do que o veículo foi à época de produção. Quem brinca de carrinho não percebe a responsabilidade social que transporta junto com seu veículo. Ele é o exemplo, o parâmetro, a referência. E será o provocador de novos seguidores – ou apenas os espantará ou os induzirá a erro.

Fazer história tem melhores resultados – inclusive econômicos. Restaurar um veículo ou cometer uma reforma tem custos aproximados. Mas à hora da premiação, da troca ou da venda, haverá satisfações e valores que a mera recuperação, a improviso, os 12 volts que dão menos trabalho, as rodas em medidas diferentes, os enxertos justificados como série especial ... jamais conseguirão.

Faça história. Brincar de carrinho é para meninos! E seja útil à sua coletividade. Tens uma pequena coleção? Receba estudantes para explicar a eles o caminho da mobilidade do homem. Tem apenas um ou dois ? Leve-os às escolas com a mesma finalidade.

Lamentavelmente a democratização da posse do automóvel permitirá a troca desta atratividade pelo uso descartável. Está nas mãos dos colecionadores formar novas gerações de antigomobilistas!

MAXICAR – O Portal Maxicar agradece a oportunidade de poder esclarecer aos amantes de veículos antigos de todo o Brasil, temas sempre discutidos em rodas de conversas — sejam elas ao vivo ou pela Internet — e que sempre deixam pelo menos uma pontinha de dúvida... Muito obrigado, Roberto Nasser!

*Agradecemos a Romeu Nardini, diretor do Clube MP Lafer Brasil, pela colaboração na realização desta entrevista.

Fernando Barenco é administrador do Portal Maxicar.
E-mails para esta coluna: fernando@maxicar.com.br

Reprodução autorizada, desde que citada a fonte: www.maxicar.com.br

 

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