Alexander Gromow

BREAKING NEWS: Fusca 68 segue para a Copa da Rússia de navio

O Fusca ano 1968, fabricado em São Bernardo do Campo, já cruzou sete países da América do Sul desde 2012 – decorrência da opção de vida de Nauro Júnior, filósofo, jornalista, fotógrafo e professor que decidiu dar seu grito de liberdade e sair pelo mundo a bordo de seu “Fuqui”.

A Expedição Fuscamérica em uma de suas incursões pelos Andes (1)

Agora o destino do Segundinho, como o carro foi apelidado, é um pouco mais ousado: a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. E a bordo do carro mais popular do mundo, os gaúchos de Pelotas Nauro Júnior e Caio Passos querem mostrar “o lado B” de um dos maiores eventos esportivos do mundo.

Segundo o Nauro: “Fusca e futebol têm a mesma essência, são do povo, e isso faz com que a nossa aproximação com as pessoas seja facilitada”.

A ideia é rodar cerca de 20 mil quilômetros entre os meses de junho e julho, acompanhando os bastidores dos jogos. Segundo o Nauro: “Queremos mostrar o lado B da Copa, os torcedores de todos os cantos, a mistura de idiomas, e os bastidores que as transmissões internacionais não mostram”.

Nenhum dos dois Fusconautas fala russo, um fala espanhol, outro “se vira” em inglês, e o resto é a coragem de enfrentar as adversidades, baseados na comunicação interpessoal através de gestos e símbolos. Eles acreditam numa linguagem mundial que é a simplicidade e creem no fato de que o Fusca, com seu forte valor afetivo, possa ajudar até nisto. Certamente os tradutores eletrônicos e aplicativos de smartphone vão fazer a sua parte.

Caio Passos é o copiloto oficial da Expedição Fuscamérica e forma um time bem entrosado com o Nauro Júnior, que foi o idealizador desta arrojada aventura. Certamente chimarrão é que não vai faltar para estes intrépidos viajantes gaúchos ao percorrerem as longas estradas russas.

À esquerda o Caio Passos e ao volante do Segundinho o Nauro Júnior, tomando seu chimarrão. Agora piloto e copiloto vão mudar de cenário (1)

Numa interessante e longa conversa por telefone com o Nauro, na noitinha do dia 23/05/2018, deu para perceber que a vida dele está ligada a Fuscas desde os seus 3 anos, quando seu pai comprou o primeiro carro – um Fusca, que era o único carro da localidade onde moravam. O Fusca virou o carro de todos, levava mulheres grávidas para dar a luz, doentes para o hospital, pessoas para passear…

No dia 14/05/2018, o Nauro enquanto garimpava seus arquivos encontrou esta foto do primeiro Fusca da sua vida. É do Fusca azul 1964, de placas BM 4567, que seu pai comprou e no qual ele chegou a pensar em ir para a Argentina assistir a Copa do Mundo de 1978.

Foto do primeiro carro do pai do Nauro, um Fusca 1964, resgatada do acervo do Nauro (1)

O menino também gostava de Futebol e na Copa de 1978, na Argentina, ele pediu ao pai que o levasse com o Fusca para Buenos Aires para assistir a um jogo da Copa. E quando seu pai disse que seria impossível fazer a viagem em tempo com o Fusca deles, além da primeira desilusão com seu ídolo que era seu pai, o menino desenvolveu a vontade de desafiar o impossível, coisa que vige até hoje e que certamente deve ter influenciado na decisão de enfrentar esta aventura na Rússia.

Nesta citação, escrita numa lousa, o Nauro colocou uma de suas diretrizes de vida (1)

O carro já foi embarcado para São Petersburgo no dia 19 de abril de 2018, no Porto de Rio Grande, no navio especializado no transporte de veículos, tipo RoRo, Torrens, dos armadores noruegueses Wallenius Wilhelmsen, com chegada “prevista para por volta do dia 12 de junho”. O Nauro já estará lá, já que embarca de avião para São Petersburgo no dia 10 de junho. O Caio, que atualmente mora em Portugal, vai completar o time em São Petersburgo. Abaixo um breve vídeo com cenas deste embarque:

Eles não têm entradas para os jogos, mas esperam que o Fusca “também abra os portões dos estádios” para eles. Numa iniciativa bem humorada, eles levam na mala uma carta assinada pela mãe do Tite, Dona Ivone Bachi, uma “Procuração Futebolística”, dando a eles a responsabilidade de cuidar do filho famoso. Eles esperam poder entregar esta carta ao Tite. Para ajudar nisto eles contam com a TV Russa que já esteve filmando com eles no Rio Grande do Sul e estará esperando por eles em São Petersburgo. Até agora a cobertura de imprensa desta aventura já abrangeu, no mínimo, quinze países.

Reprodução da tal “Procuração Futebolística”, uma brincadeira alegre que eles pretendem entregar ao Tite, aliás Adenor Leonardo Bacchi, ou Ade para os íntimos (1)

O roteiro da viagem está em estágio de previsão e as rotas que serão efetivamente percorridas serão definidas em conformidade com as condições que eles encontrarem por lá; a estimativa é que eles irão percorrer uns 20.000 km em solo russo.

Segue uma reportagem do SBT Brasil, do fim de abril de 2018 falando sobre o embarque do Segundinho e sobre a expedição como um todo:

Terminada a Copa o Nauro e o Caio irão até Riga, capital da Letônia; de lá o Caio voltará para Portugal. Em Riga o Nauro encontrará a sua filha Sofia e sua esposa Gabriela, e os três partirão para um tour por sete países da Europa. E no dia 15 de agosto o Segundinho estará embarcando na cidade espanhola de Santander de volta para o Brasil.

Uma das fotos de divulgação da aventura que foi parcialmente financiada por um Crowd-Funding (1)

Esta linda e intrigante foto foi tirada no Salar de Uyuni na Bolívia. É um deserto de sal. Ele tem uma lâmina de água bem fina em cima do sal. Da uma ilusão de ótica de espelhos.


Mas vamos ver a como é que um Fusca e o Nauro Júnior acabaram fazendo esta parceria tão fiel. O relato abaixo, que o Nauro enviou recentemente, mostra o quanto a vida exigiu do Nauro e de sua família, bem como como foram suas lutas e vitórias até se formar filósofo; e o início da Expedição Fuscamérica. É uma verdadeira história dentro da história:

O iPhone que virou Fusca

Passei no vestibular na Universidade Federal de Pelotas em 2004. Por um impulso acertado a Gabi, minha esposa, decidiu trocar História por Filosofia na fila da inscrição.  Achou que era mais a minha cara e chegou com a novidade. Como sempre, acertou.

Comecei as aulas em abril daquele ano, ao mesmo tempo em que descobrimos que estávamos “grávidos”. Não tive dúvida do nome que teria nosso anjo se fosse menina: Sofia, a palavra que traduz sabedoria.

Dois semestres depois de começar os estudos, a Sofia nasceu prematura. Naquele momento nossos olhos estavam voltados para uma incubadora, na UTI do Hospital São Francisco de Paula, em Pelotas. Foram longos três meses de angústia, fé e milagres. Cuidar das minhas meninas naquele momento era o que importava. Em agosto de 2005 tranquei o curso. Em setembro saíamos do hospital e uma maratona de consultas e exames nos aguardava pelos próximos tempos.

A vida seguiu fluindo e em 2010, a Sofia com cinco anos, um dia me questionou o porquê de ela ter aquele nome. Expliquei os motivos, e aqueles olhos curiosos me perguntaram por que eu não terminava a faculdade? Vi que estava na hora de pedir meu reingresso. Mas agora morávamos em um lugar afastado da cidade. Nosso Fiat Uno era a única condução, e não tinha como deixar as gurias sozinhas naquele fim de mundo.

O ônibus mais próximo ficava a 2 quilômetros de caminhada. Nas noites frias de inverno era um suplício. Então pensei que comprando uma bicicleta tudo estaria resolvido. Foram alguns meses pedalando no frio, calor, chuva e eu já pensava até em desistir. Só que agora eu não fazia mais faculdade para mim. Fazia para a Sofia, para a Dane para a Gabi. Para o meu pai e minha mãe, que sempre sonharam em ter um filho formado.

Numa destas noites frias de pedalas cruzei em frente a uma revenda de automóveis chamada Kruzecar.  Lá no fundão, em meio a lustrosos carros novos, avistei um fusquinha azul meio opaco. No dia seguinte fui até lá e falei com o amigo Nelson, dono da empresa, que me deu o contato do dono do VW.

Sem nenhum pila no bolso, liguei para o proprietário do veículo que salvaria a minha vida. Perguntei se ele aceitaria troca no negócio. Ele me disse que sim. Perguntou qual carro entrava na troca. Eu disse que não era carro, e sim um telefone celular.

De início o sujeito se ofendeu, mas logo expliquei que era um iPhone. O objeto de desejo do momento, recém-lançado no Brasil. O aparelho custava quase o mesmo valor do Fusca. Ele ficou tentado, mas mesmo assim disse que precisava de dinheiro.

Como sou cliente fiel da TIM, desde os tempos em que a CTMR lançou a linha de celulares, recebia os aparelhos novos por fidelização. Naquele ano o tal lançamento da Apple era a menina dos olhos. Eu não sabia usá-lo, não tinha a menor intimidade com o visor touch e mantinha a relíquia na caixa – única esperança para conseguir comprar o Fusca.

Depois de uma semana pensando, vendo que o telefone não tinha o seduzido, dei a cartada final. Sugeri um laptop e mais R$ 500 para fechar o negócio. Fui até a Século’s Informática, e perguntei para Rodrigo se ele aceitava o meu celular por algum laptop da loja. Ele falou que eu podia escolher qualquer um por aquele iPhone. Fizemos o negócio e saí dali motorizado.

O celular era chique, moderno, mas não me levava para a faculdade. Batizei o Fusca de Filó, unindo Filo + Sofia. Assim cumpri todas idas e vindas, até concluir a minha tão sonhada faculdade. Poucas vezes o Fusquinha azul me deixou na mão.

Como presente para nós dois, prometi que assim que tivesse o canudo na mão faríamos uma viagem juntos pela América do Sul. E assim começou a Expedição Fuscamérica, uma saga que em breve desembarca na Rússia!

Esta semana, para minha surpresa, o Rodrigo disse para passarmos na Século’s antes de embarcar. Chegando lá, nos apresentou a velha caixinha de sonhos. Lá dentro, o emblemático iPhone guardado com todo carinho, depois de muito uso.

Vivemos em um mundo líquido, onde o que era desejo de consumo há cinco anos, hoje é um aparelho desfasado. O celular que não tem mais valor de mercado. Hoje volta para Expedição Fuscamérica como símbolo do que realmente importa na bolsa de valores da vida!

Nota: o Fusca Filó foi vítima de uma oficina que não cumpriu o prometido. Enquanto ele estava na oficina o Nauro comprou um Fusca 68 que estava bem baleado, mas que lentamente foi sendo reformado e acabou conquistando a confiança e o coração dele. Como era para ser um carro reserva ele ganhou o apelido de “Segundinho”.

Sobre isto o Nauro comentou: “Acho que o Segundinho tem mais a ver comigo. Apesar de eu ter saudades do Filó. Mas sou um filho de uma família grande de 7 irmãos. Sou o filho do meio. Nem o primogênito nem o caçula. Aquele que ninguém espera muitas coisas. Mas por não esperarem nada de mim, fui lá e fiz um monte de coisas. O Segundinho é coadjuvante assim como eu. A nossa mensagem é que é protagonista.


Também quase no fechamento desta edição veio um novo vídeo, “Segundinho, o fusca que vai para a Rússia”, sobre esta aventura em terras distantes, que apresento abaixo:

 

A expedição Fuscamérica, que percorreu, como já dissemos, sete países da América do Sul passou por toda a extensão da maior praia do mundo, atravessou a fronteira para o Uruguai, subiu as cordilheiras chilenas, deu voltas pela Argentina, chegou até Macchu Picchu, cruzou a Bolívia, conheceu o Paraguai, e foi até parar no continente mais gelado do mundo (no caso o Nauro Júnior foi de avião até a estação brasileira na Antártida, sem o carro, e voltou de navio). Tudo isto sem contar por inúmeras incursões no território nacional. Abaixo estão algumas fotos destes feitos, que foram base para a ideia de desbravar a Rússia durante a Copa do mundo de 2018, aproveitando toda a experiência de estrada colhida até agora.

Esta é realmente uma aventura bastante arrojada e eu desejo aos intrépidos Fusconautas muito sucesso nesta empreitada. Que os russos os adotem, que o Segundinho vença as grandes distâncias nas difíceis estradas russas, e que acabe sendo possível ver os jogos da copa e que se dê um jeito na atual falta de ingressos.

Vamos aguardar os relatos e a volta deles para ouvir as histórias que certamente eles terão para contar. Quem sabe eles trarão a Copa do mundo a bordo deste Fusca 1968?


Créditos & Notas

(1) – Material de autoria do Nauro Júnior

Novamente as informações chegaram até mim através das mídias sociais –  no caso o aplicativo WhatsApp. Foi o Roberto Suga, presidente da FBVA (em fim do segundo mandato) que me enviou a foto da reportagem sobre a Expedição Fuscamérica na Copa do Mundo da Rússia publicada na página 28 da Revista Sobre Rodas (eu só soube que publicação era tempos depois quando o Nauro me enviou um clipping das matérias sobre a expedição).

Como a resolução estava baixa eu pedi ao Suga que me enviasse uma foto melhor, a resposta foi:  “Fale como o Diogo Boos, pois foi ele que me enviou este post”. Entrei em contato com o Diogo que me passou o contato do Nauro. Aí eu entrei em contato com o Nauro e desenrolei a história toda, disto resultando esta matéria. Meus agradecimentos ao Roberto Suga e ao Diogo Boos.

Um agradecimento especial vai para o Nauro Júnior que, apesar de estar “se virando mais do que bolacha em boca de velha” (citação gauchesca que quer dizer muito ocupado com coisas difíceis) dedicou tempo e atenção às minhas perguntas e a nosso telefonema que durou praticamente quarenta minutos.

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Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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