Repórter Maxicar

Acredite! Esse Karmann Ghia Conversível é inteirinho em fibra de vidro

Carroceria foi fabricada na década de 1980, no Rio. Apenas três haviam sido produzidas, quando um incêndio destruiu completamente a fábrica

Em meados dos anos 1980 Vicente Eustáquio dos Santos era proprietário de uma pequena fábrica de artefatos de fibra de vidro, no subúrbio carioca de Osvaldo Cruz. Começou produzindo acessórios para automóveis, como aerofólios e saias. Fabricava também parachoques envolventes para os VWs Gol, Voyage, Saveiro e Parati, que na época saiam de fábrica com os cromados de lâmina única.

Sua incursão no mundo das carrocerias completas começou com a fracassada tentativa de produzir uma versão modernizada do Karmann Ghia.
Tentei fazer um Karmann Ghia que agradasse os filhos dos fãs do modelo, mas também eles preferiam a versão clássica — nos contou Vicente.


ALBUM DE IMAGENS — Antes, durante e depois


Depois veio o projeto de um esportivo que juntava os estilos do VW SP2 e Miura, em versão mais moderna, algo que também não foi adiante.

Na época, Vicente era proprietário de um Karmann Ghia Coupê e decidiu então partir para algo tradicional, usando o carro como molde para a fabricação das formas. Fabricou uma carroceria completa em fibra de vidro e a pôs em exposição no famoso Barra Shopping, na Barra da Tijuca. Mais uma vez as coisas não aconteceram como esperado. O Karmann Ghia Coupê não era raro e valorizado como hoje em dia. Assim, as encomendas não vieram. Era mais fácil comprar um carro original, pronto.

Os irmãos André (e) e Miguel Valente

O mesmo não acontecia com a versão Conversível do esportivo brasileiro. Sua produção foi limitadíssima — apenas 177 unidades — e àquela altura já eram bem caros e já estavam nas mãos dos colecionadores, tornando a compra bastante difícil. Bingo! Estava aí uma boa oportunidade de negócio. O empresário então pegou emprestado o Conversível de um amigo para fazer novos moldes. E a produção não tardou a começar.

Procurei fazer uma carroceria de qualidade. A fibra de vidro foi bem reforçada, com três camadas. Para compensar a falta do teto, fiz o assoalho integrado ao restante do conjunto. Assim, evitava o excesso de torção — nos detalhou.

O primeiro carro foi vendido a um empresário do ramo de confecções. Ele recebeu o carro semi-pronto, com chassi, carroceria já pintada e interior. O segundo foi comprado por um militar da Aeronáutica. Esse recebeu apenas a carroceria e se encarregou ele mesmo de finalizar o carro. O terceiro carro foi vendido também semi-pronto a um psicólogo de Ipanema.

Os negócios iam bem, até que numa noite de 1987 Vicente foi acordado com a notícia de que sua fábrica estava pegando fogo. Ao chegar ao local não era possível fazer mais nada. Tudo estava destruído: maquinário, formas, carrocerias em produção e até seu Karmann Ghia original, que costumava ficar guardado ali.

Hoje Vicente é empresário do ramo de autopeças. Sua loja em Nova Iguaçu trabalha também no segmento de automóveis antigos e se chama Veusautos — cujas quatro primeiras letras fazem referência a seu nome: Vicente Eustáquio dos Santos.

E o ‘nosso’ Karmann Ghia?

Avancemos agora 19 anos no tempo. Em 2006 o restaurador André Valente passeava por Teresópolis, cidade da Região Serrana Fluminense, vizinha à Petrópolis, onde tem sua oficina especializada na restauração de foras-de-série — a AMV Restaurações — da qual já tivemos a oportunidade de falar. Ao passar por uma estrada vicinal, avistou em um posto de combustíveis um Karmann Ghia Conversível um tanto judiado com placa de “Vende-se”. Anotou o número de telefone e ao chegar em casa ligou para seu irmão Miguel, um fã de Karmann Ghias e esportivos em geral. Julgando tratar-se de um Coupê que teve o teto removido, colocaram dinheiro no bolso e partiram novamente para Teresópolis. Tinham à disposição um teto original que havia sido retirado de outro Karmann Ghia. Então, concluíram que não seria complicado trazer de volta a originalidade do carro a venda.

Impossível distinguir a réplica do original (vermelho)

Só quando chegaram ao posto e conversaram com o vendedor descobriram tratar-se de um misterioso Karmann Ghia com carroceria em fibra de vidro. O valor inicial era de R$ 10 mil e o negócio acabou sendo fechado por R$ 8 mil a vista.

Fizeram a viagem de volta rodando. Mas não foi fácil. O motor — todo pintado de dourado — estava muito fraquinho, tornando difícil vencer as subidas da Serra. A carroceria era até bem alinhada. Mas faltava muita coisa em termos de detalhes e acabamento. A capota parecia mais uma tenda improvisada. O interior teria que ser refeito por inteiro. O marcador de gasolina, por exemplo, ficava no lugar do rádio. E havia ainda uma espécie de console quadrado sobre o túnel do chassi, que tornava tudo muito estranho. Era o tal assoalho integrado em fibra de vidro que comentamos antes. Externamente, um pequeno detalhe denunciava que havia algo estranho: o ‘nariz’ de placa  — que nos KGs originais é aparafusado ao capô e com uma borracha de acabamento —, na réplica era unida à tampa, sem emenda.

Nos documentos, “Karmann Ghia 1970”, algo que a princípio deixou intrigados os irmãos Valente. Como podia uma réplica em fibra de vidro ser cadastrada no Detran como um carro original? Mas depois viu-se que a explicação era simples: lembra que o Vicente no contou que o carro era montado sobre chassi de Karmann Ghia original? Para o Detran é o que conta. No documento falta apenas a palavra ‘Conversível’.

Casa de ferreiro…

A restauração se deu de forma lenta. Precisamente, 12 anos. É que durante boa parte desse tempo, o carro ficou ‘hibernando’, à espera de uma oportunidade para dar prosseguimento ao trabalho. Afinal, a AMV tinha que priorizar as restaurações de seus clientes.

Um Conversível original serviu de modelo para a capota

Para tirar o molde da capota foi utilizado um Karmann Ghia Conversível original, emprestado do amigo e cliente Mário Marinho. O carro foi trazido de caminhão prancha da cidade de Paty do Alferes exclusivamente para essa finalidade. É aí que entra na história outro Vicente. O pai dos Irmãos Valente, já falecido, se encarregou de pacientemente tirar todas medidas e demais detalhes. A capota ficou perfeita, como a do carro original. Aliás, a réplica acabou ficando idêntica ao carro-modelo de Marinho, já que foi escolhida a mesma cor: a Branco Lotus de 1970.

O ‘nariz’ de placa denunciava a réplica

O carro ganhou um verdadeiro banho de loja. A carroceria foi retirada do chassi e este todo restaurado. Toda a carroceria foi realinhada e tratada antes da pintura. Optou-se por retirar o fundo integrado e usar um de metal, como no projeto original do carro. A decisão se mostrou acertada, pois o carro ficou com ótima dirigibilidade, mesmo em pisos de paralelepípedo. O tal ‘nariz’ de placa integrado também foi eliminado. Em seu lugar um original do Karmann Ghia. Aliás, é a única parte da carroceria que não é de fibra de vidro.

O assoalho em fibra de vidro parecia um console. O marcador de combustível ficava no centro do painel

Recebeu um motor 1600 totalmente novo, além de suspensão, escapamento, rodas e calotas. Parachoques originais, borrachas e outros detalhes de acabamento.

No interior novos bancos, volante, instrumentos do painel, tapeçaria e demais detalhes. A forração padrão ‘jacarandá’ do painel foi resgatada. Para tanto foi escolhido o sistema de adesivagem, com excelente resultado. Até rádio de época o Conversível tem agora.

E por onde andarão os outros dois Karmann Ghias fabricados por Vicente? Será que ainda existem?


ALBUM DE IMAGENS — Antes, durante e depois


Texto e edição: Fernando Barenco
Fotos: Fernando Barenco e AMV Restaurações 

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