Repórter Maxicar

Os campeões do passado estão de volta, em réplicas para autorama

Ricardo Bifulco recria com enorme riqueza de detalhes os grandes bólidos do automobilismo brasileiro em escala 1/32

Oautorama chegou à vida do paulistano Ricardo Bifulco aos 6 anos. Naqueles longínquos anos 1970 o brinquedo era o sonho de consumo da esmagadora maioria dos garotos, assim como são os videogames hoje. Emerson Fittipaldi era nosso ídolo da Fórmula 1 e a Estrela a grande fabricante, aliás a empresa ainda hoje é a detentora da marca “Autorama”.

O tempo passou e o que era uma brincadeira de criança, na década de 1990 se tornou uma paixão e um hobby que vai muito além de um simples divertimento com carrinhos elétricos que correm em pistas de madeira com fendas. Profissionalmente um especialista em contratos internacionais na área de pesquisa clínica, Bifulco dedica muitas horas de seu tempo livre à recriação de réplicas dos automóveis de corrida que no passado encantaram os brasileiros, e que nos deixou ídolos inesquecíveis como Chico Land, Bird Clemente, José Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno, os irmãos Fittipaldi e tantos outros.

São verdadeiras obras de arte em escala 1/32 com uma riqueza de detalhes que impressiona até quem viveu aquela época. Um resgate da memória desses heróis, que sem recursos e equipamentos, mas com imensa garra e determinação fizeram a história do automobilismo nacional.


Qual foi a sua primeira criação?

O primeiro carro construído desde o chassi foi um Cooper-Ford escala 1/32, com uma carroceria “bolha” da Pactra em butirato, da década de 1960. O carrinho ficou uma graça, pois utilizei peças vintage e reproduzi a versão da equipe Shelby. Porém, curti pouco, pois logo que levei à pista para a estreia, o proprietário não me deixou sair de lá com o carro e acabei vendendo… (risos).

FittiFusca 1600 1968 e os irmãos Fittipaldi

Porque carrinhos de autorama e não miniaturas convencionais?

As miniaturas convencionais são maravilhosas, porém, são carros estáticos. Depois de finalizados ficarão sempre na estante.

Já o autorama, no formato atual que convencionamos chamar de “réplicas” aqui no Brasil, permite ao colecionador não somente expor, mas também levar às pistas suas criações sempre que quiser para um “sunday drive”, haja visto que os modelos atuais são extremamente detalhados e esteticamente não deixam nada a desejar para as miniaturas estáticas.

Cabe aqui lembrar que hoje em dia, vários modelistas têm se aproximado do autorama, basicamente pelos motivos que citei acima.

Fale um pouco sobre sua paixão pelas corridas e pilotos brasileiros do passado?

Minha família de certa forma, sempre foi muito ligada ao automobilismo e acabei absorvendo isto de meu pai e irmãos mais velhos, desde criança. Meus irmãos tinham várias revistas Quatro Rodas, Auto Esporte, Grand Prix, além da Enciclopédia do Automóvel, entre outras publicações. Eu passava horas debruçado em cima de cada uma e sonhava em conhecer os pilotos que lá estavam, como por exemplo, o Luizinho Pereira Bueno.

Eu tenho um enorme respeito, carinho e admiração pelos pilotos e construtores da época de ouro de nosso automobilismo. Além de abrirem as portas para as gerações futuras, estes senhores são o retrato do verdadeiro brasileiro; aquele indivíduo criativo, apaixonado e capaz de realizar grandes feitos, ainda que com recursos limitados. Basta lembrarmos das carreteras, que até a metade da década de 1960 ainda andavam na frente de muitos carros mais modernos.

Tivemos máquinas incríveis como o Bino (Mark I e II), Fitti-Porsche, Fúria, KG-Porsche, DKW Malzoni, Simca-Tempestade, AC, enfim, uma lista enorme de criações que marcaram época. Eu passaria horas a falar sobre estes heróis e ainda assim, não conseguiria parar…

Karmann Ghia Porsche da Equipe Dacon

Como é o processo de criação das réplicas?

Cada modelo envolve um grande trabalho de pesquisa, desde seu histórico nas corridas, cores utilizadas, decoração, etc.  Sempre procuro entrar em contato com o piloto, construtor ou preparador do carro que estou reproduzindo, para obter informações que de outra forma não estariam disponíveis.

Por exemplo, não existem (até onde sabemos) fotos coloridas de época da carretera do Chico Landi-José Gimenez Lopes. Para construir a versão das Mil Milhas de 1957, entrei em contato na época com o Paulo Trevisan, o qual sugeriu conversar com o Toni Bianco, pois, na década de 1950 ele trabalhou nos carros da Tubularte e portanto, saberia informar quais eram as cores que eu deveria aplicar, e funcionou!

Vale lembrar que este tipo de pesquisa era muito difícil no começo, uma vez que além das revistas, não havia um grande material fotográfico a disposição, algo que mudou radicalmente há aproximadamente 15 anos, quando  começou de fato, um resgate à memória do automobilismo brasileiro, seja em eventos, blogs especializados, publicações, material de historiadores e entusiastas.

Em média quanto tempo demora a conclusão de um trabalho?

O tempo de execução de cada carro depende do projeto, podendo variar de três meses a até mesmo um ano, em alguns casos. Um carro como o Simca Chambord, que foi um projeto executado inteiramente por mim, desde a matriz da carroceria, projeto das peças em metal (foto-corrosão em aço) levou ao todo mais de um ano.

A Maserati 300S do Celso Lara Barberis, embora seja uma carroceria de resina fornecida em kit, possui um chassi inteiramente construído em metal por mim, com motor dianteiro e tração traseira via cardã roletado. Foi um dos projetos mais interessantes que executei.

Maserati

Qual o material usado nas carrocerias?

O material das carrocerias normalmente é o plástico estireno (semelhante aos kits estáticos antigos), plástico ABS (um plástico mais maleável muito utilizado hoje no autorama e também nos kits estáticos), resina poliuretano utilizada em prototipagem, ou a fibra de vidro, este último ainda muito em uso na Alemanha.

Nos fale sobre a nova experiência de trabalhar com a impressora 3D na produção de carrocerias.

Inegavelmente, a impressão 3D proporcionou um ganho de tempo considerável, pois, possibilita a construção de qualquer modelo, porém, tem gerado opiniões divididas. Os puristas, principalmente na Europa, têm reclamado que esta tecnologia poderá vulgarizar o trabalho futuro de um artesão; guardadas as devidas proporções, é mais ou menos o que ouvimos quando surgiu a câmera digital.

Veja que na Inglaterra, vários construtores ainda partem de moldes esculpidos em madeira balsa, tal qual como nos anos 1950. É um trabalho admirável, porém, a minha opinião é que devemos utilizar a tecnologia a nosso favor, sempre.  A ferramenta pode ser outra, porém, nunca deixará de ser necessário o “olho clínico” do especialista.

Eu coloco da seguinte forma: não adianta uma impressão 3D, caso o projetista execute um render incorreto, desproporcional, ou ainda, sem capturar a essência, as reais linhas do carro. Em resumo, há espaço para todas as formas de arte.

Frequentemente você vai em busca dos autógrafos dos pilotos em suas réplicas. Como eles reagem quando conhecem o seu trabalho?

É um carrossel de emoções, literalmente… A história por trás de cada autógrafo, cada carro, daria um livro! A experiência de conversar com os meus ídolos de infância, os quais conhecia somente pelas revistas e ainda  ter a assinatura de cada um em meus carros, é algo indescritível. Cada vez que um destes senhores segura a réplica nas mãos, é visível que está passando todo o filme de sua trajetória nas pistas naquele momento. As reações são as mais imprevisíveis.

O senhor Breno Fornari nos recebeu na casa dele em Porto Alegre em 2005 e passamos a tarde conversando, como se nos conhecêssemos há anos. Segurei o troféu das Mil Milhas de 1956 nas mãos! Ainda em Porto Alegre, visitamos o Luís Fernando Andreatta e fomos muito bem recebidos.

O Luizinho Pereira Bueno quando autografou a Carretera-Gordini, mal conseguia segurar a emoção para assinar o carro, imagine eu então… (e temos isto registrado em vídeo!)

O grande Chiquinho Lameirão ao autografar o Karmann-Ghia Porsche falava do modelo como se estivesse se referindo ao carro de verdade (e ele não é o único que fez isto!)

O Bird Clemente me recebeu na casa dele para autografar a Berlineta  em 2005 e desde então ficamos amigos. Tenho quase todos os carros dele em autorama, devidamente autografados.  Nem preciso comentar aqui quanto carinho que tenho por ele.

Com Emerson, no Velocult 2013

O Emerson e o Wilsinho foram um caso à parte, principalmente porque  o Emerson começou no autorama e ao autografar o Fitti-Volks,  fez várias perguntas a respeito da mecânica, como o carro andava, e por aí afora. O Wilsinho, juntamente com o Bird, autografou a outra carretera-Gordini.

A educação, gentileza e simpatia com a qual sou recebido por estes senhores é bárbara.  Jan Balder, Walter Hahn Jr, Chiquinho Lameirão, Paulo Gomes, a lista é longa!

Você faz esse trabalho comercialmente ou apenas como hobby?

Desde o início sempre foi um hobby. Esta é a maneira que encontrei para ajudar a preservar a história de nosso automobilismo e homenagear os pilotos brasileiros.

Durante os últimos anos, tem crescido o número de interessados que pedem para ter uma reprodução de meus carros, portanto, estou estudando disponibilizar séries muito restritas, como por exemplo, dez unidades de um determinado modelo que ainda não foi feito, mas é algo que será feito com muito cuidado, explico: cada um destes pilotos sempre me recebeu de portas abertas e eu não quero de forma alguma tirar proveito disto; seria a meu ver, trair a confiança que depositam em meu trabalho, portanto, eu não quero que esta atividade seja caracterizada como “fim comercial”.

Será algo voltado para os reais entusiastas, aqueles que apreciam, entendem, valorizam todo o trabalho por trás de cada modelo e respeitam o automobilismo brasileiro.

Cada réplica é única?

Sim, cada carro é um projeto único e não existe outra peça igual.

E os chassis? São os de padrão do autorama ou você os desenvolve também?

Depende do tipo de modelo que está sendo reproduzido. Alguns projetos mais simples utilizam um chassi-padrão da marca PCS 32, ou da MRRC em plástico. Já outros carros mais complexos, utilizam chassis construídos inteiramente por mim, com chapas de latão, varetas de solda de funileiro, tubos de latão, aço e outros metais diversos.

O chassi do Renault 4CV “rabo quente” de Emerson…

Dentro do possível, procuro manter a mecânica em consistência com a época a qual o carro representa, portanto, existem alguns carros em meu acervo que possuem carroceria, motor, transmissão, rodas, guia, etc. da década de 1950, 60.

Quantas réplicas você tem no momento e qual a sua preferida?

Atualmente, no que diz respeito ao automobilismo brasileiro, eu tenho aproximadamente 50 carros em meu acervo.

… e o carro pronto (em primeiro plano)

Eu tenho um carinho especial por todos, mas o meu xodó do momento é o Renault rabo-quente do Emerson Fittipaldi. Este carro foi construído utilizando uma carroceria de brinquedo da Payá, adquirida pelo amigo Paulo Levi em 1970 na Espanha, ‘zero km’ e que me foi dada de presente! Eu estava garimpando um Renault destes há quase dez anos e durante um evento, o Paulo me disse que tinha esta carroceria guardada desde a época. Parecia que ela estava esperando por mim.

Qual deu mais trabalho para fazer?

A Carretera Chevrolet-Corvette do Camilo  Christófaro, sem dúvida. Acertar os recortes da carroceria daquele Chevrolet 1937 foi um trabalho daqueles, mas valeu a pena.

A carretera de Camilo Cristófaro

Você costuma fazer exposições?

A convite do Paulo Solariz, eu tive a oportunidade de expor alguns carros em uma das edições do Velocult no Conjunto Nacional; foi muito gratificante, mas é algo que eu não faço normalmente, procuro não ficar longe de meus carros…

Exposição no Velocult

Por outro lado, anualmente na pista da Shelby aqui em São Paulo, no primeiro sábado de dezembro é realizado o Revival “Evaldo de Almeida”, sem dúvida, o maior evento do autorama desta categoria no país, onde expomos estes carros.

Este encontro inicialmente criado para resgatar a memória do Autorama no Brasil através do Evaldo de Almeida, tem se diversificado no decorrer dos anos e atualmente incorporou o automobilismo brasileiro, portanto, o público tem tido a oportunidade de ver vários clássicos brasileiros de volta às pistas e é normal vários pilotos desta época comparecerem para ver as reproduções de seus carros.

Você corre também com as réplicas nas pistas de autorama. Nos fale sobre isso. E há diferença de velocidade, estabilidade e desempenho em geral entre eles?

Pista da Shelby, em São Paulo

Sim, todos os carros de meu acervo andam normalmente nas pistas e disputam provas de carros históricos no Revival da Shelby.

Cada carro tem características próprias, como os carros de verdade, eis a prova de que o autorama é o automobilismo em escala.

As carreteras são os carros mais críticos de pilotar. A exemplo das verdadeiras, são estreitas, altas, com pneus finos, motores fortes, pouco freio e um centro de gravidade bem alto, em resumo… o “anti-carro de corrida”, mas é diversão garantida, pode ter certeza!

Quais os próximos projetos?

Atualmente eu estou trabalhando em dois modelos, o Fúria-FNM e o DKW Malzoni, porém, logo em seguida irei construir os Fuscas da Divisão 3 do início da década de 1980.  A Divisão 3 da década de 1970 é bárbara, mas os anos 80 marcaram muito para mim e conheço vários pilotos desta época pelos quais tenho muito carinho. Quero retribuir desta forma.


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Entrevista e edição: Fernando Barenco
Fotos: Ricardo Bifulco

 

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