Fernando Barenco

Meu primeiro carro

Na foto envelhecida de 1969 eu havia acabado de completar cinco anos. Todo orgulhoso dentro do meu Fusca amarelo que havia ganhado no Natal passado. Morávamos no Valparaíso, bairro de Petrópolis para onde, aliás, acabei voltando, depois de breves mudanças.

O apartamento era antigo, tipo sobrado, com bastante espaço — conforme as construções de antigamente — e que tinha nos fundos um terraço que hoje penso que media uns 5X5 metros, mas que para mim na época tinha pelo 10 vezes esse tamanho. Era um ótimo quintal em se tratando de um apartamento. Mas que nós não chamávamos de terraço, mas simplesmente de ‘área’.

Era simplesmente carrinho de entrar dentro. Estranho, né? As rodas eram de metal, com calotas estilo rococó e pneus de borracha maciça

Meu mini Volkswagen era sólido e bem-acabado, como eram os brinquedos do final dos anos 1960. Tinha um chassi de metal resistente coberto por uma carroceria de plástico duro bem grosso. O plástico era uma novidade nesse tipo de carrinho. A grande maioria ainda era de lata, incluindo os jipinhos, carros de bombeiros e velocípedes.

Foi mais ou menos nessa época que lançaram o Velotrol (da Trol!), esse sim todo de plástico. Tinha um design revolucionário, com uma roda dianteira enorme e o piloto-mirim ficava sentado bem próximo ao chão com os braços esticados para alcançar o guidom, no melhor estilo chopper. No comercial da TV parecia chegar a uns 100 km/h. Sonhava em ter um!

Voltando ao Fusca, não chamávamos de carro de pedal, nem de ‘pedalcar’, como se fala hoje (mania que se tem de colocar nome em Inglês em tudo!). Era simplesmente ‘carrinho de entrar dentro’. Estranho, né? As rodas eram de metal, com calotas estilo meio rococó (na foto ainda resta ao menos uma) e pneus de borracha maciça, com desenho de bandas de rodagem e tudo mais, que foram se desgastando com o tempo. Os parachoques eram de alumínio e se bem me lembro havia no painel dois botões: um para a buzina e outro para os faróis. Mas posso estar ‘viajando’… Tinha também um ‘parabrisa’  feito de arame grosso, que tratei de perder rapidinho. Pensando bem, era cheio de peças perigosas, que jamais passariam num teste do INMETRO hoje. Não tenho ideia da marca, afinal só tinha cinco anos.

Então, espalhava bastante sabão em pó — usávamos da marca Rinso, porque o Omo já era caro naquela época — e com a vassoura chacoalhava bastante

A tal ‘área’ onde eu brincava era toda cimentada e murada e tinha um único ralo. Meu pai então inventou uma brincadeira que para mim era a maior diversão do universo. Depois de tapar bem o tal ralo com uma bucha, ele ia enchendo o espaço com água até ficar com uns dois dedos de altura. Então, espalhava bastante sabão em pó — usávamos da marca Rinso, porque o Omo já era caro naquela época — e com a vassoura chacoalhava bastante, fazendo aquele montão de espuma. Chegavam a subir bolhas pelo ar. O que acontecia então já dá para imaginar. Era um festival de derrapagens e cavalos-de-pau com o valente mini VW. O cimento ficava todo marcado de preto, das ‘queimadas’ dos pneus traseiros. Sensação maravilhosa, que 48 anos depois tenho na memória como se tivesse acontecido ontem.

Aos poucos o Fusquinha foi ficando cada vez mais depenado, ao ponto de, a meu pedido, meu pai fazer uns recortes criativos no plástico, para transforma-lo numa espécie de buggy ou baja, até que acabou restando só mesmo o tal chassi. Mas como o Fusca de verdade, ele era muito resistente e continuou funcionando assim mesmo por mais alguns anos.

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Fernando Barenco

É editor do Portal Maxicar. Emails para essa coluna: fernando@maxicar.com.br

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