Alexander Gromow

Causo: Feliz Natal

Relembrando um dos deliciosos causos do meu Livro “EU AMO FUSCA II – Uma coletânea de causos de felizes proprietários de Fusca”. Este, em especial, com pitadas do “mineirês”. Um causo real, relatado pelo Cláudio Manoel das Dores Pinto, de Pirapora/MG, que mais parece um “Conto de Natal” fantástico, onde a tolerância foi regiamente recompensada. Com pitadas de suspense e um final surpreendente, é um dos meus causos preferidos.

 


Feliz Natal

Por Cláudio Manoel das Dores Pinto

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Ilustração original deste causo no livro feita por Elifas Alves

Foi em dezembro de 1966 ou 67, não me lembro exatamente. Pegava bico à noite, um táxi Fusca, pé de boi, humildezinho… Era alta madrugada, caia enorme tempestade, ventos, relâmpagos, granizos e trovões! E eu na rabeira da fila. Ninguém pegava o Fusquinha. De repente, em meio à borrasca, surge uma interessante figura. Um “veim” bem “magrim”, paletó “surradim” de brim “marelo”, botina “veia de oreia marela” no pé, “chapeuzim” cabanado na cabeça, guarda chuva desbotado pelo tempo.

Aproximou‑se do primeiro táxi obtendo a resposta: “Tchum… Sai fora”!  Do segundo “O xente”! Do terceiro: “Rá, ra, rá… ” Do quarto: “Quii…” e assim por diante, as respostas mais zombeteiras até chegar a minha vez: “0i meu fio, tá livre?” “Sim senhor.”É uma viagem grande, topa?” “Perfeitamente.”  “E o preço?” “25, 30 centavos o Km”. Sei lá, faz tanto tempo! O destino era Visconde do Rio Branco‑ MG.

A tempestade caia. Com dificuldade chegamos em Barbacena – MG. Que frio!… 0 “veim” falou: “Ê meu fio, tá danado, vamo tomá um esquenta peito?” Tomamos um conhaque e pegamos novamente a estrada.

Numa baixada uma surpresa. Um rio enchera represando a estrada. Como prosseguir? A chuva não parava e enquanto pensava, ouvi um barulho de cachoeira. Um aterro rompeu e uma tromba d’água vinha em nossa direção. Comecei a entrar em pânico, estávamos ilhados. Íamos morrer afogados. Não tínhamos tempo a perder. Peguei com meu Santo, fechei rápido todo o Fusquinha, engatei uma primeira, acelerei firme, mergulhei por baixo da represa e saímos do outro lado, barreados, encharcados, mas salvos.

Chegando à cidade, vira aqui, vira ali, quando chegamos frente a uma suntuosa mansão. “É aqui, vamos entrando”.  Era Natal e uma grande e linda família, super preocupada, esperava pelo seu chefe, aquele velhinho.

“Entra meu filho, toma um banho rápido e vamos cear, assim como eu, deve estar faminto”. Em clima de muita alegria o velhinho me pergunta: “Gosta de música sertaneja”? “Gosto”. “Então começa a cantar”. Um violão, um cavaquinho e um pandeiro entoaram seus pinhos e a pedidos fui cantando: Noite Feliz, Colcha de Retalhos, Menino da Porteira, Mula Preta, Besta Ruana, Felicidade, Meu Ranchinho e muitas outras.

O sono chegou e me colocaram numa ótima cama. Quando acordei, o bravo Fusquinha estava lavado, abastecido e repleto das mais belas iguarias. Havia um grande envelope com a recomendação: “Só abra quando chegar em casa”. Quando o abri tinha um cheque que cobria mais de dois anos de meus salários, cartões e bilhetinhos de agradecimento de toda a família.

Esta é, pois, uma história incrível, de um final feliz. E hoje, quando entro no meu novo Parati e contemplo toda a evolução da Volkswagen não consigo me esquecer daquele Fusquinha, que, como o “veim” do passado era humilde, mas valoroso e me fez acreditar nas pessoas, no Santo e nesta marca que me acompanha por toda a minha vida.

 


 

Aproveitando o clima desta causo eu desejo a todos Boas Festas e um Feliz 2017!!!

A foto de abertura deste causo é uma foto composição feita por mim a partir de um fotograma do vídeo “Fusca Pantaneiro… Estrada Parque…” postado no YouTube por Junior Duarte. Programas empregados: Photoshop, site “funny.photo” e site “168.lunapic”.

 

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Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

2 Comentários

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  • Tudo bem, Gromow? Linda história! É aquela velha história! Não julgue alguém pela aparência! Tenho um tio, casado com a irmã caçula de minha mãe, que faço uma analogia da simplicidade do Veim!!! Ele tem 3 fazendas, 1 sítio e outro sítio que era de seu pai, o qual comprou a parte de seus irmãos! Tem mais de 1000 cabeças de boi e uns 30 tratores, todos 4×4 com ar-condicionado! Mas tudo isto não muda a simplicidade dele! Quem não o conhece, não imagina o que ele é! Atualmente é o maior plantador de amendoim do Estado de SP! Ele é a tradução fiel do que é simplicidade!
    Voltando! Minha vida, nas épocas de chuvas em SP, sempre foi cheia de emoções em enchentes! Sempre trafegamos pela Av. dos Estados, e Av. Ricardo Jafet, e passar por enchentes, sempre desafiou meu pai e eu, depois de começar a dirigir! Meu maior desafio em enchentes foi em 2008 quando possuía um Fox 2006! Descia pelo viaduto da antiga Ford Ipiranga, para acessar a rua dos Patriotas, próximo às antigas instalações da VW na Rua do Manifesto! Ficamos aguardado a água baixar desde as 18:00 e passamos pela enchente, mais ou menos meia-noite! O Fox foi imbatível, mas confesso que morro de medo em passar em enchentes! Entendo bem a história de nosso amigo!

    Até à próxima!

  • Caro Rogério Oliveira,
    Muito interessante o paralelo que você tração entre o “vein” do causo e o seu tio. Aliás, simplicidade é uma virtude, daquela difíceis de serem alcançadas…
    Andar na chuva em terenos alagados é muito perigoso, eu mesmo tive que empurrar um carro grande (Camry) para fora de uma alagado que se formou muto rapidamente. Tinha gente por perto, mas ninguém se dispôs a ajudar…
    Um grande abraço

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