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VW Tipo 147 – Fridolin

Hoje os Fridolins ou são peças de museu, como este do AutoMuseum Volkswagen de Wolfsburg, Alemanha, ou estão nas mãos de colecionadores

VW Tipo 147 – Fridolin

Coração de Fusca e um jeitão de Mini-Kombi, com muita história para contar

A “Deutsche Bundespost“, ou seja o Correio Federal da Alemanha, procurava há muito tempo por um veículo econômico, especialmente adequado ao serviço nas cidades para recolher o correio das caixas postais e para a entrega rápida de correspondências. A “Deutsche Bundespost” desde cedo foi um dos maiores clientes estatais da Volkswagen. Usava Fuscas adaptados que não eram a melhor solução, pois a carga e descarga da correspondência não era fácil; o mesmo se aplicava às repetitivas entradas e saídas dos carteiros dos carros. Também eram usadas Kombis tipo furgão que igualmente não atendiam às necessidades, pois eram muito grandes. Faltava um veículo especializado para a entrega de correios nas cidades alemãs.

ÁLBUM DE IMAGENS

Em 1956, o Correio Alemão encomendou uma frota de VW Fuscas para uso em serviços de correio.

Um dos Fuscas que serviram ao Correio Alemão pintado na cor amarela, característica usada no pós-guerra. Os Fuscas eram mecanicamente bons. Mas pecavam pela acessibilidade das correspondências e dos respectivos motoristas

Na época, a Volkswagen se ofereceu para produzir um veículo especial para a “Deutsche Bundespost”, um de seus clientes estatais mais importantes, e chegou a encarregar a empresa independente Wilhelm Karmann GmbH, de Osnabruck, Alemanha, para construir um protótipo. Este veículo foi baseado no Fusca Cabriolé montado pela Karmann (Tipo 151) que ficou pronto em abril de 1956. Na foto fica claro que o resultado foi uma versão utilitária do Cabriolé, aproveitando o seu piso reforçado e moldura do pára-brisa, bem como as portas. Infelizmente, esse projeto não deu em nada e apenas um veículo foi construído.

Versão Karmann para o veículo especial para os Correios Alemães, baseado no Fusca Cabriolé – a parte dianteira ficou igual, incluindo portas e plataforma reforçada.

Aprofundando-se nas pesquisas, foi encontrada a foto de outro protótipo que, ao que tudo indica, foi construído pela empresa Franz Knöbel und Sohn KG – a Westfalia. Também usando peças do Fusca, mas com diferenças nas laterais dianteiras, no pára-brisa e nas portas.

protótipo possivelmente fabricado pela Franz Knöbel und Sohn KG

Para a Volkswagen, um projeto como este, por ser uma construção especial e dado o número reduzido de peças a serem produzidas, não significava um grande negócio, mas para empresas prestadoras de serviços como a Karmann e a Franz Knöbel und Sohn KG, um pedido destes era vital e, portanto, valia à pena investir nele.

Na época o Correio Alemão também precisava de um furgão de entrega pequeno para substituir o veículo Tempo 400 de 3 rodas, cuja produção havia sido encerrada. Este tipo de veículo era usado pelos correios alemães desde o tempo do III Reich, como mostrado na fotografia.

Um triciclo Tempo 400, na versão de furgão para uso do Correio do III Reich que usava a cor vermelha. A insígnia pode der vista na lateral do veículo, se bem que a Suástica no centro do círculo foi retirada

Nesta busca de um veículo “adequado por um preço conveniente”, foi feito um teste em grande escala do furgãozinho “Goggomobil Transporter”. Este veículo foi desenvolvido também com vistas a atender as especificações da “Deutsche Bundespost”. O teste contou com 2000 unidades de uma produção total de apenas 3.665 furgõezinhos entre 1957 e 1965. Seu motor de dois cilindros a dois tempos, produzido pela Fábrica Glas de Dingolfing, Alemanha, rapidamente alcançou os seus limites devido ao estresse pesado causado pelo “para e anda” do serviço de curta distância que é o uso postal típico.

À esquerda, dois furgõezinhos Goggomobil em plena atividade como carros de entrega dos Correios Alemães. À direita, um dos Gogomobils de uso particular restaurados fazendo parte de uma coleção

Foi somente em 1963, após ter falhado a experiência com o “Goggomobil Transporter”, que a “Deutsche Bundespost” finalmente solicitou à Volkswagen a produção de furgão pequeno para a coleta e entrega de correspondências, com baixo custo, resistência para o serviço de correios e boa ergonomia; o que em alemão se chama de “Kleinlieferwagen”. Depois de testar alguns protótipos em 1962 e 1963, foi acordado que outra empresa independente, a Franz Knobel und Sohn KG, iria fabricar o furgão postal em sua fábrica em Wiedenbrück no estado alemão da Westfalia, na Alemanha Ocidental. Esta empresa já estava associada com a Volkswagen, pois era a fabricante oficialmente aprovada de Kombis para acampamentos, as agora famosas e bem-feitas “Campers Westfalia”. Tamanho foi o sucesso destas adaptações que a empresa passou a ser conhecida posteriormente por Westfalia.

Uma das primeiras Kombis convertidas para Camper pela Westfalia, que tinha um acordo operacional com a VW para fazer estas adaptações

A “Deutsche Bundespost” emitiu as especificações para o furgão especial de entrega postal como segue:

– 2 m³ de compartimento de armazenagem
– Carga útil entre 350 e 400 kg
– Comprimento 3,750 milímetros
– Largura 1,440 milímetros
– Altura 1,700 milímetros

Além disso, o veículo deveria ter duas portas deslizantes. A Volkswagen passou a atuar como empreiteiro geral do empreendimento e fabricante de peças. A produção do carro deveria ocorrer na fábrica Franz Knobel und Sohn KG em Wiedenbrück, a Westfalia.

As peças necessárias para a montagem – se não fossem produzidas pela Westfalia em si – deveriam ser entregues pela Volkswagen e pela Karmann de Osnabrück. Essas peças eram componentes dos seguintes modelos VW:

-Tipo 1 (Fusca)
-Tipo 14 (Karmann-Ghia)
-Tipo 2 (Transporter)
-Tipo 3 (VW 1500)

No fim de março de 1962 a Diretoria dos Correios deu luz verde para o projeto. A estimativa de produção girava entre 7000 e 8000 unidades, com 1000 unidades nos 3 primeiros anos para substituir gradativamente os Fuscas que estavam em serviço.

Seguiram-se a confecção de projetos, modelos de plastilina que foram aprovados, tendo sito estipulado um ano para o desenvolvimento do veículo. Em janeiro de 1963 foram fornecidos componentes para a Wesfalia que construiu um modelo em tamanho real que foi aprovado.

O carro recebeu o código de Tipo 147 e tinha o apelido informal de “Fridolin”, pois o nome oficial do carro foi definido como sendo “Sonderfahrzeug – Post”, ou seja, “Carro especial – Correio” sobre chassi VW.

Fridolin de um lado é um nome próprio alemão e de outro é usado para denominar crianças pequenas que estão aprendendo a andar – um apelido carinhoso adequado a um carro pequeno. Oficialmente era “verboten” – proibido – usar o nome Fridolin na fábrica e no Correio Alemão…

frido
Em sentido horário, a partir do alto. 1 – Grandes portas deslizantes. 2 – Fiel e bom motor do Fusca, com filtro de ar adaptado. 3 – Tampa do motor cedida pela Kombi. Olhando de trás parece ser uma mini Kombi, daí o apelido Fridolin – pequena criança que etsá começando a andar. 4 – Era basicamente para um só funcionário, mas tinha um banco de passageiros rebatível. O interior era espartano, com a instrumentação do Fusca

O Fridolin foi produzido entre 1964 e 1974, e acompanhou as evoluções técnicas do Fusca, mantendo-se atualizado, mas não foram feitas atualizações no modelo que permaneceu idêntico durante os anos.

Este é um VW 1500 – Tipo 3 – Sedan. Esta série cedeu os faróis para o Fridolin

Ele era facilmente distinguível de outros veículos postais por sua aparência estranha. Tinha uma carroçaria em aço com duas portas laterais deslizantes, uma porta traseira para o compartimento de armazenagem e outra para o motor, a parte dianteira com uma inclinação bastante acentuada para a frente do carro. A carroçaria, uma construção de peso leve de chapas de metal estampado soldadas, aparafusada ao chassi. Usou o chassi do Karmann Ghia (Tipo 14) com sua estrutura tubular central; eixos, motor, e caixa de câmbio do Fusca.

O Fridolin era equipado com o motor de 1192 cm3 e uma potência de 34 HP a 3600 rpm. Tampa do motor e outras partes vieram da Kombi, faróis e vários componentes do VW 1500 (Tipo 3). O peso vazio do Fridolin era de 935 kg, que era aprox. 200 kg maior que o de um Fusca tipo exportação da época.

Com estas especificações, ele claramente não tinha um temperamento quente, mas isso não era tão importante no caso. Boa acessibilidade, generoso espaço de armazenamento e baixos custos operacionais desempenhavam o papel principal.

Na prática, o “Post Sonderfahrzeug” atendeu integralmente às expectativas. Foi utilizado durante mais de uma década, sendo que o VW 147 foi usado como veículo padrão dos carteiros, dos encarregados de esvaziar as caixas de correio e demais servidores de outras áreas da Deutsche Bundespost – e era extraordinariamente popular devido à sua versatilidade. As duas portas deslizantes permitiam entrar e sair confortavelmente, sem prejudicar o tráfego – fator especialmente importante em áreas urbanas.

Uns poucos Fridolins foram entregues a outros clientes, por exemplo, para Lesezirkel-Service (Cooperativa de Leitura de Revistas – que é um empreendimento tipicamente alemão, no qual revistas circulam entre os clientes que pagam uma pequena assinatura mensal, valor bem menor do que os preços de banca das revistas) da cidade de Lippstadt . Fridolins também foram usados como carro de serviço de campo para a companhia aérea alemã “Lufthansa”.

À esquerda, um dos Fridolins que foram para empresas independentes, no caso um “Lesezirkel” cooperativa de leitura de revistas. À direita, outro exemplo de uso fora dos correios – no caso o serviço de pista da Lufthansa em Frankfurt

No total foram produzidos, até 1972, 6139 carros para o mercado alemão; sendo que 85% deles foram destinados para uso pela Deutsche Bundespost. O restante foi vendido para empresas alemãs e autoridades locais, no entanto um importador norueguês levou um Fridolin para Oslo.

Além disso, a Schweizer Bundespost – PTT (Serviço Postal Suíço – onde PTT é a versão em Francês : Postes, Téléphones, Télégraphes) encomendou 1201 carros, embora em uma versão modificada devido a requisitos alterados. Os Fridolins para a Suíça tinham um motor de 1,3 litros 44 PS, freios a disco dianteiros, aquecedor auxiliar da cabine a combustível da Eberspächer, escotilha de ventilação no teto, espelhos retrovisores exteriores adicionais instalados sobre os pára-lamas dianteiros, um interior diferenciado, uma janela maior na tampa do bagageiro e durante os últimos anos de fabricação duas janelas adicionais nos cantos traseiros, para melhorar a visibilidade de dentro do carro. Estas modificações foram necessárias dadas às condições mais severas para atender às cidades nevadas no inverno, passando por tortuosas estradas estreitas de visibilidade mais difícil.

Em 1974, a produção do Fridolin foi encerrada, mas uma pequena reserva de carros novos foi colocado em serviço pela PTT até 1977.

Como veículos usados excedentes do serviço governamental, os Fridolins tornaram-se populares com os jovens na Europa, porque eram como pequenas versões das Kombis Tipo 2. Apesar disto, apenas um pequeno número de “VW Kleinlieferwagen” (pequeno furgão de entregas) sobreviveu até a presente data – precauções anti-ferrugem pobres são a principal razão disto. Nem a Westfalia, nem o primeiro proprietário a Deutsche Bundespost, nem a maioria dos demais proprietários, posteriormente, tiveram algum cuidado com este aspecto – uma pena!

À esquerda, pátio de descarte de veículos imobilizados dos Correios Alemães, fonte de Fridolins para os jovens alemães, depois para os colecionadores. À direita, detalhe da agressão por ferrugem em um Fridolin, exemplo do pouco caso com o carro, aliado à agressão do sal usado nas estradas no inverno europeu

Soluções especiais para carros de correios no resto do mundo?

Ter um veículo específico para uso postal não é uma exclusividade da Alemanha. Nos EUA, país das soluções práticas, existem veículos especiais para os correios também.

Um dos carros de correio americanos produzidos pela Grumman com vida útil de 30 anos! Aqui visto ao lado de um Fusca para que se possa ter uma noção de seu tamanho

Todos os detalhes destes veículos visam fazer o trabalho dos carteiros motorizados o mais fácil e rápido possível. Como as caixas postais das casas americanas costumam ficar perto do meio fio, os carros de correio de lá têm direção do lado direito, assim o carteiro abre a porta de correr e pode retirar ou colocar a correspondência sem mesmo ter que abandonar o carro.

O caminhão Grumman LLV, onde LLV – Long Life Vehicle – que significa veículo de vida longa, é fabricado para durar 30 anos! Os pontos chave de seu projeto são a facilidade de manutenção, a manobrabilidade em áreas confinadas, e operação geral econômica. A carroçaria é montada pela Grumman e o chassi é fornecido pela General Motors, com um motor de 2,5 litros e uma suspensão dianteira baseada na pick-up Chevrolet S-10

 Alexander Gromow – Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto.

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