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Merece um brinde!

Merece um brinde!

*André Grigorevski

Há exatamente 10 anos eu acordei cedo, peguei um ônibus de Niterói até a Central do Brasil e pela primeira vez (e até agora única) peguei um trem. No trajeto, um maluco (ok, sei que é politicamente incorreto falar assim) me mostrou desenhos sem muito sentido que fazia em um caderno, ouvi dois ou três fanáticos religiosos fazendo pregações e comprei um pacote de balas com um vendedor ambulante. Fui parar no bairro de Anchieta, onde dias atrás eu já havia ido. Subi uma rua residencial, de casas grandes e de estilo antigo. Toquei a campainha de uma delas e fui recebido pela Mônica e pela Sra. Marilene, pessoas da maior simpatia e que a partir daquele dia me confiariam um bem muito precioso para elas. Naquele dia 26 de agosto de 2003, eu fecharia a compra de um Passat.

Uma das primeiras fotos após a compra, em 2003

Carro de único dono. O Sr. Miranda, pai da Mônica e marido da Sra. Marilene, havia encomendado um Passat LS branco na Bittig, concessionária VW que já fechou as portas, assim como tantas outras. No dia 7 de janeiro de 1978 ele foi buscar o carro. O gerente da concessionária, meio sem graça, disse que a fábrica não havia enviado o carro. E que se ele não quisesse esperar, venderia um outro Passat que havia chegado. Este Passat havia sido encomendado para o uso do próprio gerente, mas o mesmo disse que não teria problema em vender o carro para o Sr. Miranda porque depois encomendaria outro igual para a fábrica. O Sr. Miranda foi até lá e conheceu aquele Passat diferente. Tinha jeito de TS, mas um comportado motor 1.5 como o LS que ele havia pedido antes. Ele adorou a cor, o interior em tons de marrom, os detalhes… Deixou de lado a vontade por um carro branco e ficou com ele. A Brasilia que ele tinha deu lugar a um Passat 4M. E assim foi a história até que completasse quase 25 anos. Aquele Passat foi o carro de uso diário dele. Viagens, trabalho, inúmeras ofertas de compra recusadas, principalmente nos últimos anos… Além disso, orgulho e ciúmes do carro que possuía, além da consciência de saber que se tratava de uma série rara. Ele sim, foi um “passateiro” de respeito.

O Sr. Miranda foi até lá e conheceu aquele Passat diferente. Tinha jeito de TS, mas um comportado motor 1.5 como o LS que ele havia pedido antes. Ele adorou a cor, o interior em tons de marrom, os detalhes…

Até que no finalzinho de 2002, o Sr. Miranda veio a falecer. O Passat ficou parado na garagem por uns meses e alguns problemas levaram a família a precisar se desfazer dele. Anunciaram na internet, com três fotos pequenas e antigas, além de uma breve descrição. Um amigo mostrou o anúncio na lista de discussão da Home-Page do Passat no Yahoo Grupos. Eu vi, achei interessante e deixei pra lá. Depois de um mês surgiu uma oportunidade e lembrei do anúncio. Pensei que era perda de tempo telefonar, porque depois de tanto tempo já teriam vendido o carro. Arrisquei. Procurei o anúncio, peguei o telefone em um dia de semana qualquer a noite e conversei com a Sra. Marilene. Tímido, perguntei “Boa noite, estou ligando por causa do anúncio de um Passat e gostaria de saber se ele ainda está a venda”, já quase sem esperanças. “Ainda está”, ouvi do outro lado da linha. Combinei de ver o carro no final de semana. Foi a primeira vez que vi um 4M pessoalmente. Eu não conhecia quase nada sobre o modelo, as informações eram quase inexistentes. Devo ter ficado tão surpreso com as características da versão quanto o Sr. Miranda ficou em 1978. Como não havia possibilidades de fechar negócio no final de semana, me comprometi a ficar com o carro e combinamos para a semana seguinte. Junto com esta promessa, prometi também cuidar bem do carro, claro! E voltamos para o início deste texto, quando eu disse que fui buscar o bem material mais precioso da Mônica e da Sra. Marilene. Comprei um carro e acabei sendo guardião também de um sem número de lembranças desta família, o que é, convenhamos, muito mais importante que um bem material.

Já no primeiro dia, entre ida ao Centro da cidade para proceder com a burocracia necessária para a compra de um bem ainda em inventário, a volta para o bairro de Anchieta e depois enfim a ida para Niterói, acabei rodando cerca de 100km. Assim, mal nos conhecendo, eu e o 4M, já o levei a rodar por vias de trânsito pesado e por vezes engarrafado como a Av. Brasil, Av. Presidente Vargas e outras que eu atualmente penso duas vezes antes de enfrentar ao volante de qualquer carro. Chegando em Niterói, guardei o carro em sua vaga e lá só pude voltar dias depois, para enfim poder me divertir. Ao abrir a panela do filtro de ar, pra começar a verificar o que deveria ser trocado para a manutenção de rotina, cadê o filtro? Foi uma das primeiras coisas que precisei providenciar… Aos poucos fui descobrindo o carro, seus problemas, suas qualidades. Era um carro de uso normal, portanto nada mais justo do que ter problemas a resolver, além de algumas poucas coisas fora do padrão original que o tempo e a vida modificam. Aos pouquinhos fui completando algumas peças do quebra-cabeças, um jogo que ainda não terminei. Um pouco da graça de ter um carro antigo está nisso também.

O primeiro evento, ainda com pára-choques amassados, grade quebrada, emblema fora do lugar…

Poucos meses depois da compra, fui pela primeira vez como expositor a um encontro de carros antigos. E há 10 anos o Passat ainda não era um carro muito bem aceito nos eventos. Uma coisa de certa forma normal, que aconteceu antes com outros modelos nacionais. Aos poucos essa situação foi mudando, e tenho orgulho de pensar que pelo menos aqui no RJ eu e o 4M fizemos parte de uma pequena legião de sonhadores que ajudou a mudar essa imagem. Por causa deste carro conheci grandes amigos e nele fiz passeios inesquecíveis. Por causa deste carro e destes grandes amigos (e dos carros destes grandes amigos) nasceu o Passat Clube – RJ. Por causa deste carro já acordei às 5:00 pra estar antes de 8:00 em Itaipava, só pra garantir a vaga para o clube em um evento. Por causa dele já rodei concessionárias distantes em busca de peças esquecidas em velhos estoques, gastei manhãs de sábado na Biblioteca Nacional e em sebos buscando as propagandas de época desta versão. Por causa deste carro tive alegrias que não consigo enumerar e algumas poucas tristezas também.

Em 2006, em um dos capítulos mais divertidos da minha história com este carro, fui convidado (pensando bem, eu não fui convidado, o 4M foi!) para participar das gravações de um filme. O 4M virou coadjuvante de cinema. Por alguns dias me sentei ao volante dele, quase sempre em horários não muito convencionais, e fomos a vários bairros da Zona Sul do Rio, participar dos sets de filmagem. Cruzávamos as vias expressas em plena madrugada, ao som do rádio FM e seguindo a iluminação amarelada dos faróis… Ou voltávamos pra casa em pleno horário de rush de uma sexta-feira, enfrentando 3 horas de engarrafamento pra fazer um trajeto curtíssimo entre Ipanema e Niterói. Em um final de expediente mais alternativo e não desejado, voltamos pra casa pela primeira vez em um reboque, depois que o cabo do acelerador, que eu havia trocado há poucos meses, arrebentou no meio de uma cena e não havia tempo hábil pra consertar e nem como arrumar um cabo novo em plena madrugada no bairro de Botafogo.

Selton Mello e Eva Todor em uma das cenas de “Meu nome não é Johnny”, de 2006

Aliás, foi com ele que perdi o medo de mecânica. Não virei um mecânico. Estou longe, bem longe disso. Mas foi no 4M que arrisquei meus primeiros passos pra fazer reparos simples, que antes me pareciam terrivelmente complexos e cujos procedimentos só poderiam ser realizados por especialistas altamente gabaritados. Com este carro aprendi a trocar radiador, bomba d’água, desmontar um carburador, tirar painel, encaixar painel, desmontar acabamentos, ajustar a correia do alternador, trocar platinado, entre outras gambiarras. E ele ainda vai me ensinar mais coisas, eu garanto. Com ele aprendi também a assoprar um giclê. Nada mais gratificante para um dono de carro antigo do que assoprar um giclê e ter todos os problemas solucionados.

Porém, não sou o dono ideal e o 4M sabe disso. Eu também faço minhas maldades, tenho meus desleixos. O último foi ter deixado o 4M parado por 3 anos. Em uma fase de mudanças na minha vida, não tive tempo suficiente pra ele. Fazia uma visita esporádica, deixava o motor ligado um pouco, ficava na vontade de dar uma volta… E nada mais. Como vingança, na primeira voltinha depois de tanto tempo parado, o 4M desfez suas buchas do trambulador em mil pedaços no meio da rua. Foi quase um “Viu o que eu posso fazer se você me esquecer assim de novo?”. E lá fomos nós outra vez passear de reboque.

Passeios a Saquarema-RJ, em 2005 e a Visconde de Mauá-RJ, em 2006

A maioria acha que é apenas um carro. E talvez seja apenas isso mesmo. Só não tente me convencer disso. Sei que não sou o primeiro a completar 10 anos com um carro. Tenho certeza de que não vou entrar pra nenhuma lista de recordes e tenho amigos e conhecidos que me venceriam com facilidade se isso fosse uma competição. Mas estes 10 anos foram especiais pra mim. Aprendi muito, me diverti mais ainda e sofri um bocado também. Obrigado, amigo, por me aturar por tanto tempo sem reclamar muito dos meus cuidados.

 


*André Grigorevski
é microbiologista, nascido em Niterói e presidente do Passat Clube – RJ. Em 1996 criou o site “Home-Page do Passat”, que mantém até os dias de hoje com o objetivo de preservar a história do modelo no Brasil.

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