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Fanático por antigo

Fanático por antigo

*Acrisio Mota

Falar sobre carros antigos, pra mim, sempre foi uma tarefa fácil. Resgato muitas lembranças, volto à minha infância, onde passei boa parte dela passeando em um Gol BX 1984, cinza. Também me lembro da Variant azul do meu tio, ano 72, com o assoalho esburacado. Ouvia muitas histórias do meu pai, como por exemplo, quando conseguiu comprar seu primeiro carro, um Fusca (não me lembro o ano), em 1970 e colocou quem pôde dentro e desceu a estrada velha de Santos, rumo ao litoral para comemorar, e outras várias histórias.

Quando vejo um outro carro antigo, fico pensando nos momentos que ele passou, como foi desejado, como foi importante na vida de uma pessoa, quantas alegrias e choros ele viu e ouviu e nada pôde fazer.

Agora, explicar como começou esse fascínio por carros antigos, que também se estendeu para objetos antigos e por uma época que não vivi, é simples: começou com uma foto. Uma foto Polaroid do meu pai em um Ford Maverick, em uma viagem a trabalho para os Estados Unidos nos anos 70.

Ele sempre falava desse carro. Dizia que era lindo, robusto, confortável, motor forte, um “carrão”. Mas quando assumiu o volante desse legítimo V8, em uma autoestrada americana, se assustou com a potência e passou a direção a um amigo que estava com ele na época.

Passávamos várias horas falando a respeito dessa máquina e fazendo planos de um dia comprar uma. Chegamos perto uma vez, um Maverick GT 1979, amarelo, mas como o restauro seria grande e o dinheiro era curto, desistimos. Mas o sonho de consumo persistia. Em uma das conversas ele me disse: “Tenho um dinheiro para receber da Vasp. Quando cair na conta, compraremos um”.

Só que dinheiro nunca caiu na conta. E, infelizmente, ele se foi em 2012.
Mas eu não desisti do Maverick V8 302, somente adiei os planos. E com certeza, um dia fará parte da minha coleção.

No meio dessa história, outra começou. Em 2010, realizei meu sonho de ter um carro antigo. Comprei um Fusca 1972, o famoso Fuscão, verde abacate, com o dinheiro que recebi da rescisão da TV Bandeirantes, onde trabalhava na época. Houve muitas controvérsias. Meus pais e minha namorada não aceitavam a ideia. Tentaram me convencer de todas as maneiras, mas foi em vão. Mesmo não agradando a maioria, bati o martelo e fui buscá-lo em Ribeirão Pires, cidade da Grande São Paulo.

O meu pai sempre dizia: “quer comprar algo, tem o dinheiro, não vai atrapalhar as prioridades, compre”. Pronto. O negócio estava feito.

Ele não gostou muito, ainda mais que usei o conselho para justificar a compra. Mas quando o carro chegou, e meu pai bateu o olho, foi paixão à primeira vista. Analisou o motor, os bancos, o volante, sentiu aquele cheiro típico de Fusca — que não tem como descrever, talvez um cheiro meio de gasolina com banco de couro — não sei. Lembrou-se da época que teve um Fusca, aquele que encheu de gente e foi pra Santos… era a milésima vez que ouvia aquela história, mas era uma delícia ouvir as mesmas histórias um milhão de vezes.

Quero ouvir pessoas comuns que assim como eu, têm um carro, objetos ou moto antigos ou ainda qualquer outra coisa antiga, que traga uma relação de carinho entre eles.

Certa vez, lendo um texto no Blog do Flávio Gomes, uma frase me chamou a atenção “Carro antigo tem história, tem vida.”

Desde então, comecei a encarar meu Fusca de maneira diferente, via que tinha algo a mais ali. Pra mim, meu Fuscão tem vida, tem muita coisa pra contar que nem imagino. Quando vejo um outro carro antigo, fico pensando nos momentos que ele passou, como foi desejado, como foi importante na vida de uma pessoa, quantas alegrias e choros ele viu e ouviu e nada pôde fazer. Mas ele estava ali, sempre ouvindo, acompanhando, pronto pra tudo.

Pensando nesse significado, tirei do papel outro desejo antigo. Documentar e compartilhar essas histórias.

Junto com um casal de amigos, desenvolvemos o projeto “Fanáticos por Antigos”. Aqui, vamos documentar e compartilhar essas histórias. Quero ouvir pessoas comuns que assim como eu, têm um carro, objetos ou moto antigos ou ainda qualquer outra coisa antiga, que traga uma relação de carinho entre eles. Sempre acreditei que tudo que tem história, tem vida. Então, já que eles não podem falar, nada melhor que o dono registre essa cumplicidade.

Acompanhem nosso projeto e nos ajudem a compartilhar a paixão de tantos colecionadores anônimos espalhados pelo mundo a fora.

facebook.com/fanaticosporantigos
youtube.com/fanaticosporantigos
www.fanaticosporantigos.com.br

 

credito.jpg*Acrisio Mota é formado em Rádio e TV e com MBA em gestão de projetos. Já trabalhou no SBT, BAND e atualmente está na TV Record como editor de pós-produção do núcleo de reportagens especiais. No Senac foi professor de edição não linear.
Nas horas vagas, coleciona miniaturas de carros e participa do Rally de Regularidade no Autódromo de Interlagos. Como projeto de piloto, tenta, na categoria de antigos, correr a bordo do seu Fuscão bala abacate 1972.

 

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