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Entre tapas e beijos

Entre tapas e beijos

*Rubens Perlingeiro

Meus ancestrais nunca tiveram dom para negócios. Meu avô comprou um circo e o anão cresceu. Meu tio foi dono do único motel que faliu no Rio de Janeiro. Dizem que ele anotava as placas dos carros e mandava cartões de Natal para os clientes. Além disso, minha tia batia nas portas dos quartos para vender cosméticos. Baseado nessa tradição de pouco sucesso empresarial, penso que se eu adquirir uma agência funerária alguém vai inventar o elixir da juventude e irei à falência por falta de defuntos. Essa tendência a fracassos comerciais talvez explique por que tenho um péssimo histórico de más aquisições de carros antigos. Se houvesse um tema musical para acompanhar minha trajetória antigomobilística, seria “Entre tapas e beijos”, gravado pela dupla Leandro e Leonardo.

Minha tragédia com carros antigos começou com uma viagem de trabalho a Sorocaba, em 1994. Lá, em pleno uso de minhas faculdades mentais, adquiri um DKW Sedan 1962 que não funcionava havia 20 anos. Estava caído para a direita no fundo de uma garagem.

Dizem que não há inveja positiva, mas é o que sinto quando ouço alguém dizer que conseguiu ganhar dinheiro vendendo um carro antigo. Até hoje, só tive prejuízos. Compro mal e vendo pior ainda. Quando viro a esquina, tenho sempre a impressão de ouvir o vendedor soltar fogos de artifício por ter conseguido se livrar de um carro velho que só eu considerei uma relíquia.

Como bem mencionou o filósofo Sêneca, “ao navegante que não sabe a que porto quer chegar, nenhum vento é favorável”. Parece que ele sabia que, séculos mais tarde, haveria um sujeito que sairia de casa para comprar um pote de requeijão e voltaria com um Puma 1979, para desespero da família. Parafraseando o humorista Groucho Marx, “eu resisto a tudo, menos a uma tentação”.

Minha tragédia com carros antigos começou com uma viagem de trabalho a Sorocaba, em 1994. Lá, em pleno uso de minhas faculdades mentais, adquiri um DKW Sedan 1962 que não funcionava havia 20 anos. Estava caído para a direita no fundo de uma garagem. Depois de uns meses, eu o vendi caído para a esquerda, pela metade do que paguei, depois de haver gastado quase o valor do carro em reparos.

O dono me enviara umas fotos mostrando um veículo impecável, descrito como “pronto para receber placa preta”. Depois descobri que isso significava apenas que o suporte da placa não estava podre.

Em um passeio a Tiradentes, quis o destino cruel que eu visitasse uma coleção particular de carros antigos, evento para o qual eu não estava preparado, nem psicologicamente, nem financeiramente. O resultado foi a aquisição de um picape Chevrolet 1956, conhecido no Brasil como “Marta Rocha”. Ao contrário, porém, da homenageada que lhe dá nome, a camionete era horrível. Somente os pneus não estavam amassados, embora fossem carecas. Chegar com a “Marta” a Brasília foi uma epopéia. Bastou ligar o limpador de pára-brisas para que as palhetas fossem lançadas à distância e deixassem o vidro mais arranhado que passado de político. Eu a vendi meses depois, com o prejuízo de sempre, a um sujeito que queria dar um presente à sogra.

Certa vez comprei pela Internet um Karman-Ghia 1968, que estava em Porto Alegre. Só de frete para Brasília gastei mais de dez por cento do valor do carro. O dono me enviara umas fotos mostrando um veículo impecável, descrito como “pronto para receber placa preta”. Depois descobri que isso significava apenas que o suporte da placa não estava podre. O suposto carro parecia uma pizzaria, de tanta massa que carregava. Sob a ameaça de uma ação judicial, o dono concordou em recebê-lo de volta, mas perdi o valor dos fretes. O pilantra deve ter feito uma macumba brava contra mim, pois logo depois eu adquiri, para uso diário, um Daewoo Espero (dizem que é “espero o guincho”). Ao buscar na Internet, descobri que o carro não tinha clube; tinha associação de vítimas. Apesar de tudo, foi o prejuízo ambulante mais confortável que já tive. Seguindo minha sina, acabei vendendo-o a preço de doação, depois de pagar três mil reais para consertar o câmbio automático.

Atualmente, sem ter alcançado a cura para minhas compras intempestivas, tenho um Gurgel Tocantins 1991, cujo apelido é “pastor”, por estar sempre pedindo dinheiro.

Para explicar meu comportamento, recorro à filosofia daquela autoridade do primeiro escalão do governo: “assim como são as pessoas, são os seres humanos”.

 

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*Rubens Perlingeiro Filho
é oficial da reserva da Marinha. É aficcionado por carros antigos, com os quais tem uma relação de amor e ódio, pois suas aquisições têm lhe proporcionado tanto prazer quanto prejuízo.

 

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