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Antigomobilismo vs obsolescência programada

Antigomobilismo VS obsolescência programada

*Matheus Marques

No meio antigomobilista, existe uma infinidade de comportamentos dos proprietários em relação aos seus possantes, desde os mais ciumentos, que evitam o uso frequente, até os mais desapegados, que põem os antigos na pista e pé-na-tábua. Nesse meio do caminho, um sem-número de variações de todas as sortes. Todos em nome da preservação do carro antigo, seja voluntariamente ou não. A verdade é que é essa classe, sobretudo, que mantém vivos e palpáveis a história do automóvel e seus protagonistas.

Com essas trocas cada vez mais constantes, acabam se perdendo esses laços de companheirismo entre o sujeito e o objeto, que costumavam se estender por dezenas de anos. Porém, não por acaso, essas relações não foram nem serão completamente disseminadas. Ainda se vêem bastantes casos antiquíssimos desse gênero.

O que isso tem a ver com o meio antigomobilista, citado acima, afinal? Simples. Esse meio acaba sendo uma tentativa de resgate desse passado. Nele, a valorização não se dá pelo enaltecimento do conceito de “novo” e “novidade”, mas pela capacidade de cuidado, dedicação e, por que não, amor pelo objeto. Com essas trocas cada vez mais constantes, acabam se perdendo esses laços de companheirismo entre o sujeito e o objeto, que costumavam se estender por dezenas de anos. Porém, não por acaso, essas relações não foram nem serão completamente disseminadas. Ainda se vêem bastantes casos antiquíssimos desse gênero. Os carros eram planejados para cruzarem décadas, ora.Acontece que, conforme os últimos anos vão passando, tem sido cada vez mais fácil um indivíduo ter acesso a um carro zero quilômetro. Esse fator faz com que aumente o número de consumidores e futuramente faz com que eles contraiam uma vontade incontrolável de se desfazer do bem o mais rápido possível para que possam adquirir o mais moderno e se sentirem sempre atualizados, nem que seja pra impressionar somente o vizinho. Isso se torna um ciclo sem fim, e é aí que mora o problema. Essa prática tem acabado com boa parte dos “casos de amor” tão duradouros de antigamente entre o dono e seu carro.

Será que os carros hoje novos serão admirados e paparicados em 2063, da mesma forma como os de 1963 hoje são? Que postura terão os “antigomobilistas” quando essa época chegar? Qual será o impacto dessa “obsolescência programada” nessa cultura, futuramente?

Mas, afinal, o que é esse tal “meio antigomobilista”? Em uma interpretação pessoal, não é necessariamente aquele grupo de frequentadores de eventos, encontros, passeios e carreatas. A área de abrangência á maior. Todo aquele que preserva seu “antigomóvel” é, pois, um “antigomobilista”. E aí estão incluídos aqueles que têm o veículo simplesmente por se adequarem melhor aos antigos, seja por trazer boas lembranças, por questões financeiras, por hábito ou por mera questão de preferência. E tem os casos mais fascinantes, que são aqueles senhores e senhoras que compraram o carro quando era novo e vêm usando no dia-a-dia desde então, sem nenhum holofote, tapete vermelho, troféus, nem qualquer mise-en-scène ao seu redor. Todos estes pertencem a essa mesma categoria. Se pararmos pra pensar, constataremos que o que difere é apenas uma questão de abordagem. O ponto a ser ressaltado é a linha tênue que há entre os que levantam a bandeira da preservação em nome da história do automobilismo e os que foram nada mais que compradores comuns de um carro novo décadas atrás e que cuidaram muito bem e se mantiveram fiéis a ele até hoje: todos nos brindam hoje com verdadeiras jóias, cada um da sua forma.

O que será que o futuro tem pra nos oferecer? Em um passado não muito distante, os veículos eram bens produzidos para durar. Houve épocas em que não se abria mão da qualidade e da consequente durabilidade. Hoje, o foco é na quantidade e na redução de custos, acima de tudo. De acordo com inúmeros estudos difundidos em vários meios de comunicação, os automóveis mais modernos se mostram mais seguros que os de outros tempos. Mas será que o importante progresso em termos de segurança implica obrigatoriamente em um retrocesso no padrão de qualidade e até mesmo no esmero, dedicação e amor durante todas as etapas de criação e produção de um automóvel? Honestamente, acredito que não. Será que os carros hoje novos serão admirados e paparicados em 2063, da mesma forma como os de 1963 hoje são? Que postura terão os “antigomobilistas” quando essa época chegar? Qual será o impacto dessa “obsolescência programada” nessa cultura, futuramente? São casos a se pensar e analisar com carinho. Mas a resposta, só o tempo irá nos dar. Nos resta torcer para que sejamos positivamente surpreendidos em algum lugar do futuro.

 

matheus_credito*Matheus Marques – Este jovem professor, morador do Rio de Janeiro, curte e entende de automóveis desde que era criança. Atualmente mantém com muito sucesso o blog Registros Automotivos do Cotidiano.

 

 

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