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Você venderia seu filho?

Você venderia seu filho?

*Marcelo Senteio

 

Não sei se peco, não sei dizer, apenas sinto que ele andou por todos esses anos em lugares que nunca descobrirei, fez pessoas felizes, famílias inteiras ele carregou, os levou e os trouxe, no conforto de seus imensos bancos, crianças dormindo no banco traseiro, e ele lá, com os seus quatro olhos atentos na estrada, na escuridão da noite, cortando o silêncio com a orquestra que compõe seu motor.

O casal no banco da frente se olha, sem expressar um som, apenas conversam trocando olhares, para não quebrar a magia da viagem, os filhos sonham sob o estofamento que já foi palco de grandes pensamentos, mudanças de rumo nos negócios, desvios na vida de alguém que um dia também já foi dono daquele incrível automóvel.

Ele vem, imenso, quebrando a escuridão e deixando todos pra trás, assim como alguém que cresce na vida, estuda, vence, e curte suas vitórias olhando pra baixo, não pisando em ninguém, apenas se posicionando no lugar que deve realmente estar. Assim é ele, um imenso sonho. Foi o sonho de alguém. Quando visto pela primeira vez, a pessoa imagina dirigindo-o, levando sua namorada na faculdade, parando no farol e percebendo o fervor dos olhares que percorre a lataria daquele sonho, desde o pára-choque traseiro a sua mira dianteira. Deitado em sua cama, antes de dormir, ele sonha em um dia ter aquele maravilhoso sonho sobre rodas.

Mas isso foi apenas sonho de centenas de milhares de pessoas, assim como foi o meu um dia. Garoto humilde, cheio de sonhos e esperanças, caminhando para um futuro incerto e cheio de imprevistos.

Um dia, há treze anos, ele passou e me olhou.

Um dia senti a sensação de pilotar o maior veículo já fabricado no meu país.

Um dia parei no farol e pude ouvi-lo dizer que queria ser meu filho, para que eu pudesse cuidar e alimentá-lo, afinal sua fome é imensa.

Saí de tudo que poderia ser pensamentos e sonhos e senti a realidade, fui firme e decidi adotá-lo, ariano como eu sou, percebi o quanto insistente foi para que isso acontecesse. Com o ex-dono, morria e falhava, comigo seu motor era “redondo” e forte, enfim pude ter o que de sonhos antigos, deitado na cama, antes do sono vir, ficar viajando em pensamentos no volante de um Ford Galaxie.

Hoje ele aqui, nas minhas mãos, passeando comigo, viajando. E neste momento quem conversa trocando olhares com minha esposa sou eu, meu filho e sua namoradinha num cochilo no banco de trás, sinto uma alegria emergir na alma, recebo um sorriso e percebo que eu já estava sorrindo antes, como num reflexo do espírito.

Farol vermelho, paro e sinto os motoristas observando-me, olhando o Imperador, meus olhos fixos à frente, mas percebendo tudo. Ouço apenas o perfeito som do motor quando toda a magia do momento é quebrada por uma pergunta do motorista do carro ao lado:

— Boa noite amigo!
— Boa noite!
— Parabéns pelo ‘dojão’!
— Obrigado!
— Quer vendê-lo?
— Meu caro, escute atentamente, te responderei com outra pergunta:

VOCÊ VENDERIA SEU FILHO?

O farol se abre, acelero a máquina dos sonhos e vejo minha esposa sorrindo e assim continuamos o caminho em paz e segurança.

*Marcelo Senteio é amante da história nacional, sócio do Galaxie Clube do Brasil, preserva e mantém a história automobilística nacional cuidando de um Ford 1929, um Opala SS 1973, uma Chevrolet C14, um Miura 1979, e, claro, o Imperador que é um Galaxie Landau 1979. Filatélico e numismata na área nacional. Coleciona também brinquedos, relógios e outros itens antigos. Nas horas vagas escreve para sites e revistas, cria miniaturas em papel dentre outros diversos hobbys.

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