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Velho amigo

Velho amigo

*Carlos Zarur


Você já tateou as curvas de um carro antigo? Já sentiu o cheiro do couro rusguento de seus revestimentos? Ou o barulho conversador de seus motores? Se uma dessas respostas for positiva você poderá se sentir um pouco mais feliz.

Mas, sem dúvida, há sensações mais completas. Por exemplo: a de dirigir, ao entardecer, o seu automóvel recém restaurado, tendo, exatamente naquele momento de interação do ser humano com a máquina, o prazer, quase divino, das experiências inesquecíveis.

Há mais, no entanto. No fundo, além do zunido amigo do motor, o rádio valvulado, com sua luz difusa logo ao anoitecer. Um sentimento de proteção que nos domina, plenos naquele pequeno mundo só nosso.

Ao dirigir o velho amigo segurando sua fina e folgada direção pensamos longe. Nos trabalhadores que o construíram, suas vidas operárias, seus anseios – derrotas e vitórias. Imaginamos o seu primeiro dono.

O do conversível 1970, dois lugares, deve ter sido um jovem, como fomos um dia, com cabelos longos e a cabeça cheia de idéias para mudar o mundo ao ritmo dos Beatles. E olhe meu amigo, nós mudamos. Nem mesmo envelhecer nós envelhecemos mais! – a exemplo dos nossos automóveis. O outro, mais antigo, deve ter sido comprado por um caixeiro viajante mineiro ou talvez por um fazendeiro que vendeu bem o seu café, plantado com suor, na década de vinte.

Todos, porém, têm um traço comum: guardam em suas reentrâncias segredos incontáveis de vidas passadas. De risos e choros. Das conversas animadas aos longos silêncios da solidão.

Quem tem um carro antigo, tenho certeza, está compreendendo esta minha prosa longa, pois todo colecionador é dado a este tipo de conversa meio sem pé nem cabeça. Mais para finos pneus e tetos reluzentes do que para o pé no chão do dia a dia difícil da luta pela vida.

Voltando ao papo, lembro todas as vidas que não conheci e que, um dia, tiveram algum relacionamento com os meus carros. Mecânicos milagrosos, motoristas bons e ruins. Mulheres e homens que amaciaram, com suas vidas, os motores imortais que agora conversam comigo, no preciso movimento de suas bielas e seus pistões.

Enquanto penso essas linhas, vou dirigindo, com o prazer dos deuses, o meu conversível. Uma brisa constante despenteia os meus cabelos já pintados de branco, mas no carro da frente uma criança olha atenta pelo vidro de trás e curte, como só as crianças sabem curtir diante de suas infinitas sabedorias, aquele momento junto comigo.

*Carlos Zarur é Jornalista, Sócio do VCC-Brasília, proprietário de um Karmann Ghia Conversível 1970 e um Ford 1929, dentre outros. Crônica publicada orginalmente no site do Clube de Veículos Antigos de Brasília e na revista A Biela. Visite o web site de Carlos Zarur www.carloszarur.com.br

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