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Vamos passear?

Vamos passear?
Carangas vividas

*Marcelo Senteio

Simplesmente esqueço de tudo, quando ligo o seu motor. Fico esperando você chegar na temperatura ideal para sair, dar aquela volta, aquele role, sexta-feira, meia noite, ligo o som, James Brown canta vivo, e eu ali, prestando atenção no balançar do seu motor, praticamente uma dança, ainda em ponto morto, neutro, e eu no neutro também, apenas curtindo. Eu e você, sozinhos e entrando em transe, coloco a primeira, drive, neste momento nos tornamos um, sinto você feliz, percebo que você também sabe como me sinto.

Saímos devagar, braço pra fora, todos os vidros abertos, seu ronco original, porém imponente, nada se iguala, carrinhos nos ultrapassam, olhando, pessoas a pé, nos olhando, no farol fechado sabemos que nos observam, admiram e até nos invejam.

Eu e você, livres, vamos para onde quisermos, onde bem entendermos, arrebentando o vento, abrindo caminho, limpando as avenidas, todos ficam pra trás, são meros comedores de poeira, nós não, somos preparadores de tal prato para os econoboxes.

Na sua cabine, me sinto como se estivesse no sofá de casa, e através do pára-brisa assisto, como a uma televisão, um programa lindo, eu sempre em primeiro, sempre a frente, sozinhos, eu e você, alguns até por um curto pedaço de tempo, nos acompanham, olham do lado, mas a tendência é sempre olhar-nos pelo pára-choque traseiro, não leve a mal, mas a máquina aqui trabalha.

São oito belos pistões explodindo petróleo, cantando bonito, e eu um privilegiado ouvinte desta canção que me cura os ouvidos, assisto tudo pela tv do seu pára-brisa.

Num dos faróis que se fecham, olho do lado e vejo um econobox com dois na frente, apertados, três atrás, mais apertados ainda e eu sozinho na longa poltrona, um braço pra fora e o outro esticado descansando na cabeça do sofá, mas por mais que eu estique não passa da metade do banco, eles olham aquela cena, que por si já se torna um deboche e falam algo, abaixo um pouco o James que maravilha toda a cena e ouço:
— Aí mano, beleza essa caranga.
Apenas balanço a cabeça em sinal de sim, ameaço aumentar o som novamente, e vem outra frase.
— Bebe pra caramba, né não?
Sem responder e desviando o olhar pro rádio, aumento o som e o sinal abre. Qualquer “veoiteiro” se irrita com tais perguntas, chulas por sinal.

Sexta à noite, V8 nas mãos, sonho e realidade quando adolescente, realidade até agora, enquanto homem formado.

Eu e você somos uma única peça, único ser — pistões e ossos, sangue e gasolina! Nas minhas veias corre ferrugem, nas suas circulam óleo dos bons. Na cabeça nada, meio sorriso no rosto, nos nossos corações — emoções inexplicáveis.

Precisa gostar disso, precisa viver isso pra poder entender o que digo.

Vamos criando fantasias, ouvindo frases “de baixo calão”, pelo menos pra nós, donos de “carangas vividas”, sempre em frente, sempre à frente.

Bom apetite ecônos… Poeira pra vocês!

Boa noite sexta-feira, bom dia sábado, meia noite e quarenta e três…

*Marcelo Senteio é amante da história nacional, sócio do Galaxie Clube do Brasil, preserva e mantém a história automobilística nacional cuidando de um Ford 1929, um Opala SS 1973, uma Chevrolet C14, um Miura 1979, e, claro, o Imperador que é um Galaxie Landau 1979. Filatélico e numismata na área nacional. Coleciona também brinquedos, relógios e outros itens antigos. Nas horas vagas escreve para sites e revistas, cria miniaturas em papel dentre outros diversos hobbys.

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