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Um João na História do Automóvel Brasileiro

Um João na História do Automóvel Brasileiro
Homenagem a Gurgel

*Tiago Songa

Talvez ele seria apenas mais um João como tantos outros no mundo.

Minha inveja por esse tal de João é daquelas sadias que me serve de exemplo em te-lo também como herói, afinal, é meu conterrâneo, nasceu em 1926 na mesma cidade que eu também nasci, em Franca/SP.

Em 1949, no último ano da escola Politécnica, em São Paulo, seu trabalho de final de curso era ter projetado um Guindaste, mas foi além… …apresentou um projeto de um carro pequeno de dois cilindros e ainda o batizou como “Tião” !!!

Isso em 1949. Quase foi reprovado do curso e ainda teve que engolir o comentário de um professor que disse: “Gurgel, carro não se fabrica, carro se compra!!!”

E nós, ainda achamos que determinados “não” que recebemos são suficientes para desistirmos.

Mas… …ele não seria apenas um João, e realmente não foi.

Aos 82 anos, a história do automóvel brasileiro perdeu um João, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel. Um francano, assim como eu, predestinado a realizar um sonho, de peito aberto para conquistar o mundo… …e ainda no Brasil seus sonhos iam ficando cada vez difíceis de serem realizados.

Em suma, a Gurgel foi fundada nos anos 60 e fechou em 1994 como sendo a única fabricante de automóveis com capital 100% brasileiro. Uma atitude de coragem que governo nenhum se dispôs a ajudar. Hoje, as grandes fabricantes mundiais estão com dificuldades e o mundo econômico se une para ajudar na recuperação. Aqui no Brasil, quando o João Brasileiro precisou, deram as costas pra ele.Em 2008, a GM anunciou o Chevrolet Volt, um veículo elétrico capaz de fazer 64km com 8 horas de recarga. Um sucesso, uma revolução!!! Nos anos 70, Gurgel apresentou o Itaipú, um veículo também elétrico que fazia 60km com as mesmas 8 horas de recarga. Só que o Itaipú foi um fracasso!!! Como sempre, o mundo só acorda para a realidade depois que alguém fracassou tentando prever o futuro 30 anos antes…

30 de janeiro de 2009, o Brasil perdeu o mais corajoso João que viveu neste país. Já Franca, nossa cidade natal, perdeu seu filho mais dedicado na luta de um produto brasileiro. Quanto a nós, antigomobilistas, perdemos mais um herói.

…e a nossa “Sala da Justiça tupiniquim” vai ficando com as paredes cheias de quadros e com as cadeiras cada vez mais vazias.

Vai em Paz meu conterrâneo, quanto ao seu legado, não vamos te decepcionar.

 

*Tiago Songa é jornalista especializado em história do automóvel, diretor da Federação Brasileira de Veículos Antigos, membro da ABIAUTO (Associação Brasileira de Imprensa Automotiva), editor-chefe da Revista A BIELA, editor e apresentador do programa A BIELA de televisão para a região de Ribeirão Preto e colaborador da revista Classic Show e de demais sites especializados em antigomobilismo.

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