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ROBERTO NASSER— “Quando os clubes se mostrarem úteis socialmente, o movimento se expandirá”

ROBERTO NASSER— “Quando os clubes se mostrarem úteis socialmente, o movimento se expandirá”

Antigomobilismo. Palavra usada corriqueiramente por quem se dedica a preservar e curtir os automóveis “daquele tempo”. Mas pouca gente sabe: é dele a proposta de torna-la parte oficial de nosso idioma, incluído-a em nossos dicionários.
Porém, isso é mero detalhe diante de tudo o que já fez. O jornalista e advogado José Roberto Nasser é o responsável por muito do que temos em termos de legislação voltada para automóveis antigos. Quer exemplos? Foi ele que propôs as portarias da famosa Placa Preta, da importação de veículos com mais de 30 anos e da isenção do pagamento de IPVA para automóveis com mais de 20 anos. Fundador e primeiro presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos — cargo que ocupou por dois mandatos — Nasser é o curador da Fundação Memória dos Transportes (Museu do Automóvel de Brasília-DF), além de prestigiado consultor e colunista especializado em diversos órgãos de imprensa.
Nesta edição de Roda de Amigos, este grande pioneiro do movimento antigomobilista brasileiro conversa sobre museus, inspeção veicular, legislação, clubes e traz de volta deliciosas lembranças.


Og Pozzoli – Colecionador, ex-presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos – São Paulo, SP

Você foi o primeiro presidente da FBVA. Sempre defendeu e incentivou a preservação dos veículos motorizados que reduziram as distancias entre Norte, Sul, Leste e Oeste do Brasil. Tem alguma idéia ou sugestão, para que o Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, do saudoso Roberto Lee (Caçapava-SP), não se perca totalmente e suas peças possam ser recuperadas? Ele tem sido vítima de constantes furtos e roubos em suas peças principais, além de faróis, radiadores, rodas, acessórios, etc., já que não possui esquema de vigia e segurança. Além do mais, os armazéns têm sofrido inundações de águas pluviais, já que o seu telhado está totalmente comprometido, permitindo que os carros e seus componentes, sofram forte corrosão, além de apodrecerem as madeiras e tecidos dos automóveis. Não seria o caso do museu, ou seus responsáveis, procurarem devolver os carros aos seus doadores, para que os mesmos se encarregassem de restaura-los? Temos conhecimento de que há muito interesse, de várias pessoas neste sentido. De pessoas que entregaram seus veículos de família à guarda de Roberto Lee, na esperança de que fossem preservados e mantidos com toda a segurança no museu que o Roberto Lee iria montar em São Paulo. Qual a sua opinião?

O que restou do Museu Paulista de Antiguidades mecânicas

ROBERTO NASSER – Velho amigo, entendo a sua preocupação como um dos pais do antigomobilismo brasileiro, e pela visita em que me acompanhou ao Museu do Lee para a retirada dos veículos da Ford. Foi um espetáculo triste, em especial porque você foi uma das ferramentas para a montagem e incremento do Museu. Vê-lo desabando, esvaziado e com veículos saqueados doeu à nossa alma de preservadores.

Tenho a mesma opinião que você. Para re-engatar o Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, entendo faltar interesses e providências. Creio, se a municipalidade desejasse, poderia montar ou apoiar um projeto de conservação dos poucos veículos remanescentes em bom estado, e a restauração dos outros. Já sugeri à herdeira a devolução dos veículos de terceiros, cedidos em comodato, e a cessão de alguns veículos remanescentes a coleções abertas ao público ou museus, por comodato, para que houvesse a preservação e lhes garantisse a sobrevivência. Mas, creio, não me fiz entender.

Marcelo Vianna – Colecionador, restaurador e mantenedor do site www.simca.com.br – Belo Horizonte, MG

Nasser, quais sugestões você daria aos atuais museus e colecionadores de veículos antigos para que seus acervos não tenham o mesmo destino da coleção do Roberto Lee?

ROBERTO NASSER – Meu líder Simquista, poderia arriscar uma interpretação sociológica para dizer que o Brasil não forma tradição, e por isto, empresas, empreendimentos, idéias, patrimônios, raramente sobrevivem à segunda geração. A realidade é parecida, mas não é esta. A evidência é que este tipo de hobby, de colecionar automóveis, livros, porcelanas … – a relação é ampla – normalmente está atrelado a uma pessoa. Usualmente a família concede em participar, e poucas são as pessoas que conseguem transmitir este ânimo aos descendentes.

Se formos pensar em soluções jurídicas, existirão. Mas somente se você fizesse uma fundação – que não recomendo -, uma oscip, um instituto, e, principal, garantisse as verbas perenes para manutenção, e nomeasse um colegiado sério para geri-lo, aí seria tentativa solução.

Minha visão aos parâmetros e formação nacionais, é que o colecionador, antes do ocaso pessoal, deve separar os veículos por grupos, marcas, tipos, em suma blocos com integrantes que costurem uma história, e os repasse a outros colecionadores, ou museus, para convívio de algumas décadas – até que o novo ciclo se encerre. Vender todos a uma pessoa será correr o risco de encarcerá-los, impedindo que cumpram a obrigação social de difundir conhecimento.

Minha identificação com esta dúvida remete ao um ótimo anúncio dos relógios Patek Phillippe: “você não é dono, apenas cuida para a próxima geração.”

Paul William Gregson – Diretor do Clube do Ford V8 do Brasil, mantenedor do site www.museumaverick.com.br. Escritor. Colunista do Portal Maxicar – São Paulo, SP

Caro Nasser, uma alegria poder participar como “perguntador oficial” e assim conseguir um pouco mais de conhecimento. Falemos de museu de autos antigos: é fato que um museu com um acervo interessante mantém a história viva (a quem interessar possa) e que no caso dos automóveis, podemos usufruir e interagir com estas obras eventualmente em passeios. Contudo, fora do âmbito dos colecionadores e afins, não se observa interesse em outros potenciais mercados, como órgãos de educação (como escolas e faculdades), órgãos de fomento ao turismo (nos 3 níveis) e há um pouco de apoio oriundo da iniciativa privada, mas em momentos pontuais. Como conseguir fazer com que um museu deixe de ser uma garagem interessante de vez em quando para se tornar um atrativo permanente, capaz de gerar fluxo constante e assim conseguir sua sustentabilidade?
Grande abraço com admiração pelo belo trabalho realizado.

Parte do acervo do Museu do Automóvel de Brasília. Em primeiro plano o FNM Onça

ROBERTO NASSER – Caro “Mr V8”, feliz em sabe-lo por aqui. Paul, minha experiência ao implantar o Museu do Automóvel tem-me ensinado haver apenas um caminho: trabalho, trabalho e trabalho. E, para descansar, trabalho.
É esforço diuturno, onde você se torna um doador de atenções à sociedade. Não sei se o problema está na estrutura política, onde na esmagadora maioria das vezes os gestores são nomeados pela carteirinha de partido político, e por isto sem o menor conhecimento de seus temas, sem entender a proposta de um museu que se oferece como tema para trabalhos, para visitas, ou se os educadores estão sem entusiasmo para educar. A vivência tem-me oferecido a certeza que, qualquer museu de automóveis, pelo fato de ser particular, não-público, é visto com pouco interesse e por isto, para contar com as visitas de estudantes, deve, mandatoriamente, ir ao mercado e se apresentar, oferece-lo para visitas, trabalhos, palestras.

Minha visão é que o colecionador deva ir à sociedade, mostrar a importância da preservação da história, deixar de ficar encastelado. Para fazer isto não é necessária uma coleção portentosa. Qualquer coleção de um veículo só pode gerar esta iniciativa.

Para atingir o ideal traçado por você creio, o primeiro passo seja conseguir patrocínio cultural para estruturar-se, montar exposições com temas variados, para apresentar-se, ser lembrado e tornar-se hábito. Isto, sem esquecer, para funcionar, precisará de muito trabalho. Muito.

Flávio Gomes – Jornalista, escritor e piloto – São Paulo, SP

A maior preocupação dos antigomobilistas e colecionadores, agora, é a inspeção veicular que vai se tornar obrigatória em todo o Brasil. O que fazer com carros de coleção estáticas? Deixar de documentá-los? Colocar placa preta em todos? Mas como, se alguns não rodam? O que pode ser feito no meio antigomobilista para “proteger” os grandes colecionadores e também os pequenos, cujos carros, em uso, nem sempre atendem às exigências de emissão de poluentes?

ROBERTO NASSER – FG, meu bloguista preferido. Quando propus o desenho final da classificação de veículo de coleção, incluí a isenção da inspeção de segurança veicular. Foi aprovado assim, vista como mais uma maluquice de advogado simpático, criando uma vantagem sobre fato inexistente. Á época, 25 anos, poucos imaginavam que a ISV viria um dia. Mas veio.
Assim, uma parte está resolvida: veículos licenciados como “De Coleção”, estão isentos da submissão ao exame.

Se o veículo é licenciado, enquadrável como “De Coleção”, e apto a receber o sinal visual desta classificação, a Placa Preta, não vejo razão para buscar outra solução: o caminho é este.
Se a Federação Brasileira de Veículos Antigos estivesse mais preocupada com o movimento antigomobilístico, e menos com seu faturamento e o dos clubes, teria tomado alguma providência. Mas, ao que se sabe, não o fez.

Jorge Levi Mendes Coelho – Colecionador. Presidente da Associação de Veículos Antigos de Juiz de Fora – Juiz de Fora, MG

Tem causado preocupação entre os antigomobilistas a questão das rigorosas inspeções veiculares com teste de emissão de poluentes, realizadas pelos Detrans de vários estados do Brasil. Você, como responsável por muito do que existe hoje no país em termos de legislação para automóveis antigos (inclusive a portaria da placa preta), o que acha que pode ser feito para resolver este problema, já que na minha opinião, a entidade que existe para defender os interesses dos antigomobilistas nada tem feito a respeito do assunto?

ROBERTO NASSER – Meu caríssimo Borboleta, a inspeção veio e se implantará nacionalmente. Se o órgão ao qual você se refere, a FBVA, tivesse agido com o interesse que seu estatuto obriga, teria acompanhado a normalização, defendendo os antigos. Como isto não ocorreu, há controvérsias e imperfeições jurídicas na legislação paulista – primeira a ser baixada, tendente a ser copiada para outros estados.

Cabe a nós antigomobilistas que gostam de automóveis antigos e deles não se utilizam para fazer política, agir individualmente ou como clubes e associações formadas legalmente, mostrar às autoridades que há exceções. Não apenas para os veículos classificados como “De Coleção”, mas também para os que não o são, e que devem ser respeitados por suas limitações tecnológicas, quando comparados com as exigências atuais.

Arnaldo Keller – Jornalista automobilístico e escritor – São Paulo, SP

Nasser, faça o favor de nos contar sobre sua participação na Mille Miglia a convite da Mercedes. Em que carro foram, como ele se portou, como é o rali atualmente. E afinal, você bateu ou não bateu o recorde do Moss?

millemiglia
Roberto Nasser participou da famosa Mille Miglia, na Itália

ROBERTO NASSER – Arnaldo, curiosamente foi consequência de ter sido convidado pelos organizadores para dirigir na London to Brighton, mais antiga e tradicional das provas com antigos. Nunca um brasileiro havia sido convidado e, ao saber disto o pessoal da área de clássicos da Mercedes-Benz – eles levam o assunto a sério e tem, até, um diretor de clássicos – achou que a dupla brasileira preenchia o figurino institucional-midiático que é a Mille Miglia. Aí, convidou-me e ao Boris Feldman.

Não andamos – aliás, andei, porque o Boris se lembrou ser engenheiro e resolveu ganhar através dos cálculos dele …. imagine, cálculos nanonuméricos num carro com velocímetro cujo odômetro marcava por km. Andei, pois das Mil Milhas deve ter conduzido 98%. Aprendi muito com o Moss – respeitava horários, o carro – o famoso 722. E posso dizer que, apesar de dirigir um lento 180D, sedan diesel, vencedor na classe em 1954, ninguém nos passou na descida de uma serra apertada. Lembrei-me da maneira de dirigir do Bird Clemente e fazia o Mercedes soltar a traseira para corrigir a derrapagem. Moral da história, faltava espaço para as ultrapassagens … Grande experiência.

Bird Clemente – Piloto – São Paulo, SP

Caro Nasser. Anos dourados…Que saudades…  Quando nós poderíamos imaginar naqueles tempos em que nascia a indústria de automóvel no Brasil, atualmente uma das maiores do mundo e que viabilizou o desdobramento do automobilismo tupiniquim, que com aqueles JK, Simca, DKW, Berlinetes e etc., revelariam de forma tão amplificada para o mundo os pilotos brasileiros. Como você se sente sendo um dos tutores desta memória?
Parabéns pelo seu trabalho! Do amigo de sempre, Bird Clemente.

A valorização dos nacionais como veículos de coleção

ROBERTO NASSER – Meu ídolo de four-wheel-drift – para quem não associou nome à ação, é aquela maluquice de atravessar o automóvel numa curva, descrevendo-a derrapando, com as rodas viradas em direção oposta para administrar a derrapagem, manobra do Bird com as Berlinettes Interlagos, que o tornou referencia mundial.

Quanto à sua pergunta, velho Amigo, obrigado pelo elogio, mas passo longe de ser um dos tutores desta memória. Ocorreu que, tão envolvido com o tema, automóveis preparados, mecânicos dos próprios, escrevendo sobre o tema, advogado no setor, antevi a sombra do retrato: fazíamos coisas importantes; produzíramos carros superados; fizemo-los melhores que na origem; criamos modelos próprios. E a nossa mentalidade tendia a festejar somente o importado, abandonando os nacionais.
Tive a sorte de propor, como primeiro presidente da FBVA, o reconhecimento dos nacionais e a capacidade de concorrer em concursos. Creio, esta ação pequena, ajudou a dar consciência da importância, e a procura pelos nacionais permitiu salvar boas unidades. Tenho certeza, não houvesse o reconhecimento – criticado à época – restariam poucos sobreviventes daqueles, como você chama com carinho e clareza, Anos Dourados.

Calculava, a providência auxiliaria salvar o acervo nacional, em fazer reconhecida sua história. Acho, acertei no caso. Mas errei numa projeção: imaginara houvesse o surgimento de pequenas indústrias de reprodução de itens de decoração, peças de manutenção, literatura. Mas isto está em velocidade baixa. Os comerciantes estão mais preocupados em comprar estoques antigos pagando por tonelada e vendendo em gramas, com lucros despropositais, sem incentivar a pequena industrialização, a indústria na garagem. Espero que isto ocorra.

Carlos Zarur – Jornalista e Membro do Veteran Car Club de Brasília – Brasília, DF

Caro Zé Roberto,
Além de termos sido vizinhos, nós vivemos muitas coisas boas – corremos de carro juntos e, sob sua influência, tornei-me um aficionado por automóveis antigos.
Fizemos a famosa viagem de São Paulo a Brasília pilotando nossos fordinhos e muito mais. Velho amigo, gostaria de saber qual seria um passo importante, no campo legal, a exemplo da placa preta, para incentivar ainda mais os colecionadores?

ROBERTO NASSER – Zarur, briminha querido, tempo passa, camarada. Eu penso, será a mudança de mentalidade clubística, deixando de ser reuniões de enclave, dentro das cercas e muros, para sair e demonstrar utilidade nas ruas, para a sociedade. Hoje o Brasil exibe um triste recorde: o movimento antigomobilista é duas vezes e meia maior fora dos clubes e agremiações, que dentro delas. Quando os clubes se mostrarem úteis socialmente, sem grupelhos, competições internas, parar de correr atrás do próprio rabo, o movimento se expandirá.

A primeira viagem de Fordinhos, de São Paulo a Brasília. 1984

Verifiquei isto com a AVA-JF, associação surgida por divergência conceitual num clube em Juiz de Fora. Criaram-na, foram à sociedade, são úteis, fazem encontros, geram recursos, distribuem a entidades necessitadas. Moral da história, ficaram maiores que o clube de origem, e são vistos como socialmente úteis.
Creio seja o caminho.

Anísio Campos – Designer automotivo – Rio de Janeiro, RJ

Nasser, o que você considera principal, nos desenhos mais bonitos dos automóveis, a seu gosto? Como nosso mestre, profissional, interprete livremente seu ponto de vista. O “porque”; se é a escultura, o desenho, a interferência cultural dos países, o atual crescimento dos meios eletrônicos, as escolas do “Industrial Design”, enfim, tudo aquilo que todos nós conscientemente percebemos como avanço, como poder!

ROBERTO NASSER – Querido Anísio, permita-me a digressão para poupá-lo de uma resposta primária ante o mestre.
Após tanto tempo acompanhando a indústria e sua história; de sermos o quinto produtor do mundo; de conseguirmos fazer os automóveis mais resistentes do planeta; o que lamento é não termos um projeto nacional, adaptado aos nossos buracos, aos 90% de vias sem pavimentação. Somos o país ideal para o pequeno carro de tração traseira, do utilitário barato com tração total. Mas, no entanto, deixamos escapar a oportunidade de aproveitar aquele talento da adequação de carros estrangeiros, e nos tornamos os melhores adaptadores de projetos estrangeiros. Não existe um metro de estrada de terra nos países que nos enviam seus projetos. Mas aqui, os há, aos milhões. Perdemos a capacidade de influir, de fazer, e nos tornamos bons adequadores.
Lembro-me de uma frase do Lúcio Costa, o culto e humanista traçador da urbis brasiliense: “o Brasil não tem vocação para a mediocridade”. Frase boa, forte, e uma cobrança a todos nós para influirmos nas multi que nos trazem seus projetos e nos empurram goela abaixo – com algum tempero nacional, é verdade.
E porque os estrangeiros copiam os seus projetos, tão avançados, e aqui eles não se viabilizam?

Dib Franciss – Músico. Presidente do Clube do Fordeco de Brasília – Brasília, DF

Querido Nasser, você é para o nosso meio um dos maiores orgulhos. Além de ser um profundo conhecedor de carros antigos, você foi o visionário que fincou as bases do antigomobilismo no nosso país. Tenho o privilégio de tê-lo como amigo de longas e sempre animadas prosas. A você devo inclusive o fato de estar nesse hobby tão apaixonante. Bem, depois desse “salamaleque” quero colocar a minha questão, que penso ser das mais atuais e importantes.

Nós sabemos que os DETRANs do Brasil inteiro vêm dificultando mais e mais a vida de nós colecionadores. Tornou-se em verdadeira proeza fazer uma simples transferência de um veículo comprado em outro estado para o estado onde moramos. Os DETRANs se baseiam em exigências surreais, e por conta do despreparo (e em alguns casos da má-fé) de alguns funcionários, comprar o carro dos sonhos e transferi-lo para seu estado tem sido um verdadeiro pesadelo para todos nós. Minha pergunta é se você tem conseguido dialogar com o DENATRAN a fim de mediar algum tipo de solução para essas situações? Há alguma resolução em andamento visando nos proteger dessa “alcatéia do mal”?

ROBERTO NASSER – Este fórum está mais para reunião da aliança Líbano-Brasil. Tem Zarur, Dib, Nasser…
Brimo, é o país da dificuldade para enaltecer falsas autoridades, prestigiar pequenos feudos, incensar enclaves. E, em alguns casos, simplesmente cobrar mais do contribuinte.
Creio, problemas existem porque nós, contribuintes/consumidores, preferimos pagar a multa não cometida, a correção do certo, a taxa não devida, até para nos livrar rapidamente do desgaste. E, claro, a incompetência de alguns Detrans, tão abrasiva, forçam o contribuinte a perder tempo, paciência e capital para resolver casos que não deveriam ter existido.

Tomando por base um caso ocorrido com você, destratado no Detran/DF porque lhe exigiam número de chassi para um Ford A, de 1929, fiz uma pesquisa e apresentei proposta ao Denatran para que comunicasse ser ilegal a exigência de número de chassis em veículos produzidos anteriormente a setembro de 1969.

Como no Brasil autoridade não erra, e como se adora um grupo de trabalho e estudos, o pedido está num departamento destes. Mas não há dúvidas, sairá.

É sem base legal a exigência do número de chassis nos veículos anteriores ‘a data citada anteriormente. Funcionário do Detran que se atrever, pode ser paciente de um mandado de segurança para o não-cumprimento, e a pedido de punição funcional.
Volto ao conceito anterior: só teremos direitos reconhecidos quando soubermos brigar por eles.

Felipe Nicoliello – Presidente do Puma Clube de São Paulo – São Paulo, SP

Nasser, hoje você é referência para história do automóvel no Brasil. Como nasceu a paixão? Quantos anos você levou para desvendar toda história do FNM Onça e o que lhe dirigiu a esse caminho? Também gostaria de saber sua emoção ao retirar e receber o Willys Capeta do Museu de Caçapava.

No alto, o Willys Capeta ao ser resgatado. Abaixo, o Democrata

ROBERTO NASSER – Felipe, saudações felinas.
Não sei se você se lembra da frase de uma petroleira – creio, tenha sido a Atlantic – há umas décadas: “quem não é o maior, tem que ser o melhor”. Acredito tenha sido a paixão por salvar nacionais e a irritante insistência em não acreditar em negativas, que me instou a perseverar cansativamente atrás do Onça. Demorei 12 anos de pesquisa e, no período, consegui entrevistar o Hamilcar Barone, engenheiro chefe da Fábrica Nacional de Motores, o Anísio Campos, partícipe das linhas, o Francisco Vaida, mago moldador de chapas, construtor da carroceria; um engenheiro da FNM; e muitos mais. Tinha uma história sólida, documentada, mas faltava o principal, a referência física e fática, o Onça.

Subitamente o Mingo Junior, cavalheirescamente passou-me a indicação do automóvel, e em pouco tempo consegui negociá-lo – comprei em parcelas como todo bom negócio com antigos – e procedi a consertos e correções. Claro, tive o cuidado de pedir ao especialista em fibra de vidro que deixasse todas as imperfeições originais. Foi uma das boas conquistas. Outra, foi exumar a história do Democrata, localizar o empreendedor, montar um livro – e ao final, ganhar um exemplar. Fato muito curioso, o Corvair Club dos EUA e o Karl Ludwigsen, acreditado o maior historiador automobilístico, me pediram textos sobre o Democrata e sua formulação básica, inspirada no Chevrolet Corvair.

O Capeta – e os outros Willys descuidados no Museu de Caçapava – provocou uma emoção especial. Depois de 11 anos de vai-e-vem, com o apoio da Ford, dona dos automóveis, com seus advogados, e do Batalhão Militar de Caçapava, pronto para resolver o caso em caso de constrangimento. Nada disto foi necessário, pois a herdeira houve-se com sua boa educação de berço.

Mas o ato de conseguir tirá-los de lá, onde o meio ambiente úmido, e os constantes furtos em pouco tempo os dizimariam em sucata, como ocorreu com um Ford Maverick, foi um resgate, uma ressurreição. O Og Pozolli foi comigo, avalizar o recebimento. Ficamos emocionados. Afinal, convivêramos com o Roberto Lee – o Og é o último remanescente dos três ou quatro mosqueteiros que abriram o caminho da preservação dos automóveis antigos. O sentimento era comum: aquele esforço não se resumia a salvar quatro unidades, uma das quais exclusiva. Era mais. Era uma reverencia póstuma ao Lee, impedir que, pelo menos, um pedacinho do seu sonho tivesse continuidade. Bem expressa no bilhete deixado, antes de ser assassinado: “o Museu deve sobreviver a mim”“. Lamentavelmente isto não ocorreu.
Antigomobilismo é uma emoção.

Organização, texto introdutório e edição: Fernando Barenco

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