Conteúdo Roda de Amigos

PAULO AFONSO TREVISAN — O senhor do templo

PAULO AFONSO TREVISAN — O senhor do templo

A tarefa era difícil: encontrar, resgatar e restaurar parte da história do nosso automobilismo, através de seus bólidos. Sempre que possível, fazendo-os rodar com a mesma desenvoltura dos velhos tempos das pistas. Depois, reuni-los para que fossem conhecidos e admirados pelas gerações futuras. Esse gaúcho de 60 anos aceitou esse desafio há cerca de 20, e com seu próprio tempo e recursos criou em Passo Fundo-RS aquele que é considerado hoje pelos aficionados pela velocidade como um genuíno templo: o Museu do Automobilismo Brasileiro. Nosso convidado para esta edição da Roda de Amigos é Paulo Afonso Trevisan.


Bird Clemente – Ex-piloto, palestrante e escritor. São Paulo, SP

Os pilotos e o automobilismo brasileiro se beneficiam muito do teu acervo que contém a história. A hora que o Museu acoplado ao seu hotel estiver funcionando ai em Passo Fundo, quais serão os seus próximos planos? Você tem algum outro projeto ou objetivo na gaveta?… Obrigado por tudo! Bird.

Trevisan, aos 16 anos, durante corrida de kart em Passo Fundo, RS

PAULO TREVISAN – Nessa trajetória de longos anos catando carros de competição e seus pedaços, jamais imaginei no anos 90 a dimensão que tudo isso iria assumir. Não tinha projeto de longo prazo e muito menos pretensão de criar Museu. A convivência nesse período com milhares de pessoas e aficionados, a presença em centenas de eventos me deixou e agrega aprendizado; sem contar na privilegiada convivência com antigos pilotos e pessoas que fizeram nosso automobilismo acontecer. Houve períodos de no mínimo uma guinada semestral, redefinindo o tipo de carro e categoria a ser colecionado, patamar de investimento, o que priorizar nas restaurações, opção entre carro com história nas costas e réplicas, de disponibilizar ou não ao público, etc. Hoje acho que cheguei num formato definitivo para o Museu, e consciente de que para ele se manter interessante e conseguir trazer novamente um visitante terá que ter novidades e trabalhar em cima de eventos trimestrais por 10 dias; e nos demais apenas para convidados especiais agendados. O desafio de montar as ambientações internas até metade de 2012 é muito grande; porque a coisa mais triste num museu (mesmo de carros que a gente gosta) é a banalização, a chatice e a falta de novidade… Aquelas malditas frases “já vi, já fui, já conheço” incomodam. Isso Bird, é o que está na minha mente e de algumas pessoas e profissionais que me acompanham nessa grande tarefa; que demandam muito trabalho e investimento mas que vamos tentar viabilizar.

Flávio Gomes – Jornalista, escritor e piloto. São Paulo, SP

Paulo, a pergunta parece meio mórbida, mas acho que é pertinente. Um dia todos nós iremos acelerar com a turma que já se foi. O que você vai fazer para garantir que esse acervo inacreditável se perpetue, e não tenha o mesmo fim, por exemplo, que acabou tendo o Museu da Ulbra?

Museu de Tecnologia da Ulbra: triste fim!
Museu de Tecnologia da Ulbra: triste fim!

PAULO TREVISAN – A continuidade e preservação do acervo que venho reunindo já me tomou incontáveis horas; por isso tua pergunta é muito pertinente. Além das turbulências externas e até a virulência de desafetos, costumam existir as internas e domésticas por assim dizer; mas que no meu caso estão muito bem administradas. Sei que piloto e antigomobilista geralmente tem seu maior inimigo dentro de casa (a patroa) em função dos gastos. Por isso, Flávio, vou ter que fazer algumas confidências. Consegui ao longo de 3 décadas de casamento, e com uma filha, que elas compreendessem o valor disso que estamos fazendo, que isso pode agregar dores de cabeça, mas também prestigio, imagem e business se bem conduzido. Em 2008 fiquei 45 dias na Europa mostrando os principais museus da área e algumas coleções privadas que tenho acesso para que entendam ainda mais onde estamos inseridos. Sabem que isso não afeta nossas atividades empresariais, e que é melhor ter que não ter. Sabem que existem mais loucos do que eu que gostariam (já aconteceu) de comprar tudo isso, mas nunca fui de vender carro. Essa lógica funciona muito bem na cabeça das mulheres, parece. É óbvio que tem as contrapartidas e pedágios, e não tenho receio ou pudor em dizer isso nessa “Roda de Amigos”. Ah! Elas adoram as carreteras.

A Associação Cultural do Museu do Automobilismo Brasileiro, dona da grande maioria dos carros, é preparada contra questões que afligiram e ou afligem outros museus de carros no Brasil; ou pelo menos se faz todo o esforço nisso; e aqui confesso que ninguém está livre de acusações por maldade e isso é proporcional a sua dimensão. O Estatuto Social da entidade é absolutamente claro que na falta deste titular, agrega uma série de entraves contra riscos de desmantelamento. Por isso a implantação do novo prédio do Museu, num projeto que só serve para isso mesmo, e que vai propiciar ganhos e maior ocupação ao futuro Prix Hotel é um handicap ainda maior dentro dessa estratégia de mantê-lo intacto e crescente.

Eurico Estima – engenheiro, diretor do Classic Car Club – RS, clube que incentiva os carros antigos a irem para a estrada, através de rallies de regularidade. Porto Alegre, RS

Prezado Trevisan: Vou fugir um pouco do script e não te fazer uma pergunta, mas um desafio. – Apesar de suas fragilidades, a Lei de Incentivo à Cultura propiciou a divulgação de muitos livros com fotos e histórias do automobilismo brasileiro, entretanto a filmografia é praticamente inexistente. Nosso acesso às antigas provas resume-se a pesquisas em sites ou no Youtube. Minha sugestão seria a de, iniciando pela história das Carreteras, compilares os filmes de teu acervo, quando possível com o áudio de época acrescido com uma narração atual. Imagens poderiam ser congeladas em determinado carro e mostrar a imagem de como hoje ele está em teu museu, contando detalhes de sua restauração. A segunda parte do filme poderia apresentar as técnicas de preparação da época, onde o que faltava em tecnologia era suprido com criatividade.

Da esquerda para a direita: Monoposto Ford T, Biposto Ford e Boni Especial

PAULO TREVISAN – Filmes de corridas no Brasil garimpo há uns 20 anos, e com frequência nos surpreendemos ainda com novidades. Mas tem um lado calhorda e de falta de sensibilidade no uso desse material precioso, e por isso quem tem material nobre acaba se retraindo, e alguns querendo fazer média nas costas dos outros. Estou há meses com filmes originais do nosso Chico Feoli (antiga Cambial), mas cheio de medo de fazer a conversão digital por ser escaldado por desvios de cópias no passado, inclusive de laboratórios conceituados. Você sabe que tenho o maior arquivo desses filmes no Brasil, basta dizer que 90% das imagens usadas nos 10 programas do Speed Channel são daqui. Nessa experiência confirmei a trabalheira que isso dá, ainda mais numa produção com tempo exíguo. Quando a Apple lançou os primeiros computadores G5 eu fiz a 1ª compra no Rio Grande do Sul para uma agência local que automaticamente virou produtora. Trabalhamos 2 anos e sobrou alguns filmezinhos básicos. Só que começaram a fazer tantas produções comerciais que fiquei a ver navios. Pelo menos digitalizei um imenso volume em VHS e selecionei 11 mil frames para fotos. Tem muito material no Youtube que se originou de cópias piratas daqui. E vai fazer o que? Todo esse material está caindo em domínio público e ficando desconectado em atratividade. Aí entra a questão delicada se o Museu deve ou não possuir material inédito. É uma visão egoísta ou estratégica? O custo de telecinagem não é barato e temos feito eventuais parcerias sérias, como foi no da Corrida de São Gonçalo de 1907. Mas no geral é complicado. O que existe é uma verdadeira e esburacada colcha de retalhos. Já aprendi que dá um trabalho gigantesco compilar e ordenar; só que um dia, concordo, terá que ser feito. Considerando que o impacto num visitante de museu de carros de competição depende uns 50% de som e imagens, aí está mais um desafio a ser enfrentado no futuro.

Luiz Salomão – Designer de profissão e jornalista multimídia por opção, apaixonado por automobilísmo. São Paulo, SP

Paulo, o seu conhecimento por carreteras é imenso e comprovado na prática. As recuperações de histórias que fizestes são extraordinárias. Mas gostaríamos de saber um pouco mais sobre a influência dos “hermanos” em sua paixão pelas baratas que levantavam poeira no nosso sul do país, pelos idos 50…60…e o seu relacionamento com uma lenda, Juan Manuel Fangio!

Carretera Chevrolet 1939, de Fangio

PAULO TREVISAN – As carreteras foram muito marcantes aqui no sul como todos sabem. Apesar de ter assistido minha primeira corrida em 1963, e vindo morar em Passo Fundo, conheci e convivi com vários filhos de pilotos.  Você acredita que nesse período a gente até escutava corridas de carretera na Argentina pelo rádio? Assim como se recebia muitos “arhentinos” no hotel da familia; e por isso o ouvido sempre foi afinado com o falar deles. Tenho verdadeira paixão e me aprofundei muito naquele automobilismo, e lastimo não ter conhecido o Fangio, piloto e pessoa extraordinária. Só faltaria entrar ajoelhado no Museu em Balcarce; e se a gente conseguisse absorver uns 10% da energia e clima interno daquele museu e trazer para cá, meu Deus! A grande maioria dos museus de carro europeus não propicia aquela relação homem/máquina que lá se encontra. Automobilismo heróico que ceifou centena de vidas. Saloma, precisava ver a atenção que o Fangio dava em Buenos Aires para nossos pilotos de carreteras, inclusive os de Passo Fundo e acompanhantes! E quantas vezes prestigiou e veio correr no Brasil. Mas e os irmãos Galvez, Emiliozzi e tantos outros? E o nosso Orlando Menegaz que enfrentou duas vezes o Juan Galvez e uma o Oscar Galvez no autódromo de Piriápolis com sua carretera “empanada” de pista; e chegou a andar na frente desses monstros do automobilismo. E o saudoso Orlando no seu estilo achava a coisa mais normal do mundo quando eu o questionava sobre isso. Você sabia que apesar dos argentinos fazerem grandes raids e corridas longas com as carreteras, eles levam em muita consideração a corrida G.P. Getulio Vargas em junho/41 ganha no Brasil? Foi a única prova de carretera do Fangio no Brasil e ele ganhou. Fizeram previamente todo o circuito reconhecendo o terreno, o que os brasileiro achavam uma besteira! Deu no que deu. Mas eles não sabem ou não divulgam que os pilotos gaúchos não foram nessa prova com suas carreteras porque a enchente em Porto Alegre foi devastadora e ficaram aqui para uma corrida no Circuito do Crystal para arrecadar fundos para os flagelados. Desculpe a “gauchada”; mas foi uma lástima não ter havido esse confronto.

Jan Balder – Ex-piloto

Paulo Trevisan dispensa comentários pelo que faz incansavelmente pelo resgate da história do automobilismo e com certeza merece uma estátua. Minha pergunta: Qual a previsão do novo complexo – hotel + museu na sua Passo Fundo?

PAULO TREVISAN – Dispenso gentilmente a estátua, e só a tua amizade e reconhecimento já vale. Quando iniciei a obra do Prix Hotel mentalizei conclusão para dezembro/2011, pela larga experiência em ritmo de obra e fluxo financeiro necessário. Mas eu nunca tinha implantado redes complexas de sprinklers, redes de ar condicionado, geradores, lavanderia industrial; enfim tudo o que cerca um empreendimento complexo e inovador desses. Concluí a última e 14ª laje agora, e esses sistemas e acabamentos já estão vindo de baixo para cima. Mantenho aquele prazo de conclusão, mas não para a operacionalidade que só deverá acontecer lá por junho de 2012 porque a montagem final das unidades não pode coincidir com a parte bruta. O Museu, que foi uma decisão e projeto posterior, está com as fundações concluídas e pretendo concluir junto. Terá uma área disponível de 4000 m2 (o atual é de 1800) em 5 andares. É um projeto do criativo arquiteto Isac Chedid e com uma volumetria muito interessante; sendo obra bem fechada e de baixo custo. Mora em Caxias do Sul, usa piercing e tatuagens e chegou de uma prova ciclística de 1600km na Itália em agosto. Neste fim de semana está me provocando para mais um monte de idéias internas. Sei que entre suas concepções e os engenheiros do escritório responsável pelo cálculo estrutural tem divergências pelo grande número de paredes inclinadas; mas eles que se entendam. O objetivo é desligar o visitante do mundo externo e focar e direcionar a iluminação para aquilo que efetivamente interessa dos carros e pilotos. Tenho pleno conhecimento do que acontece e se privilegia no 1º mundo. Tens a percepção do esforço que isso me exige e até o comprometimento de outros investimentos que decidi suspender em função disso! E como você sabe, Jan, não tenho uma montadora ou patrocinador permanente atrás de mim. Sempre caminhei e caminho com minhas próprias pernas, trabalhando no atacado e não no varejinho. Voltando… No térreo teremos um amplo café com mini shop e grande espaço para os eventos trimestrais extras. Hotel é hotel e museu é museu, e afastando aspectos temáticos que poderiam tornar apelativo e brega. Já tenho suíte reservada para você e conversaremos com a Turarte em cima de possibilidades de roteiros turísticos que já estão sendo trabalhadas e com parcerias e atividades em autódromos. Aguarde.

Flávio Pinheiro – Militar da reserva, consultor, profissional da indústria offshore e administrador do site www.nobresdogrid.com.br

Hoje existe uma associação, sem fins lucrativos (a Associação Cultural Museu do Automobilismo Brasileiro). Contudo, restaurações, pesquisas, viagens, aquisições demandam não apenas dinheiro, mas tempo e dedicação, além do fato de, no início, não haver a associação. Como e quem custeou antes da associação e hoje, com ela, como é custeado o trabalho que vem sendo executado?

No acervo, automóveis das mais diversas épocas. Ao fundo, o Fúria BMW

PAULO TREVISAN – Na minha exitosa trajetória profissional, da qual muito me orgulho, sempre tive uma verdadeira obsessão por organização.Há um ano examinando software para gestão hoteleira por exemplo, das 8 opções analisadas nenhuma chegou ao patamar das minhas exigências, mesmo os mais utilizados no mercado. Imposto de Renda declaro há 41 anos e tudo encadernado na sequência de funções crescentes: Unibanco, INSS-Fiscalização, Assessoria Econômica na Assembléia Legislativa-RS, CEDIC, Fecotrigo. Diretor de grandes empresas e dono de consultoria por 12 anos especializada em diagnóstico e viabilização financeira. Com esse passado e perfil como eu iria atender às solicitações de uma coleção de carros crescente ao final dos anos 80? Declarando todas as aquisições e custos de restauro na pessoa física. Na criação planejada da Associação Cultural Museu do Automobilismo Brasileiro no inicio de 2002, entidade civil sem fins lucrativos e com mínimo de 9 pessoas como determina a lei, houve a doação da maior parte do acervo e um aporte de recursos da pessoa física para atender os custos operacionais do ano. Em todos os exercícios seguintes se repetiu essa correta operacionalidade. A cada ano são incorporadas à entidade as aquisições e todos os custos relativos bancados pela minha pessoa (que dispõe de origem e declara rigorosamente todos esses recursos) e tudo consubstanciado e contabilizado; e até descrito em atas que possibilitam um histórico do avanço das atividades. Não vou negar que essa tesão e vulto de investimento surgiu a partir de uma reavaliação de vida perto dos 50 anos, e reconhecendo que abri mão excessivamente no meu passado de muitos luxos e até de ter participado de mais competições. Foram décadas priorizando o lado business e só eu sei disso. Voltando… A entidade não possui conta bancária, salvo vinculada para atender um aporte de captação eventual, e caixa muito restrito. Não tem funcionários a ela vinculados e nem bens imóveis; só os carros. Tenho uma gratidão muito grande com a empresa MAHLE pelas doações de carros e componentes mecânicos. Em anos mais recentes alguns pilotos doaram carros e ou entregaram a preços simbólicos também. O meu tempo, dedicação e trabalho nos carros (sim já trabalhei milhares de horas e dedico 2 a 3 horas todos os dias) não contam e só me alegram. É por essas e outras que costumo dizer que a Associação Cultural é uma entidade que busca sempre a blindagem contra encrencas; e isso é importante numa fase onde tantas pessoas estão deixando seus carros em comodato, ou doando equipamentos e troféus que fizeram parte das suas vidas e geralmente da sua fase mais bonita. Mesmo sendo sujeitos à trovoadas e ou eventualmente ter que dar explicações sobre a origem e porte do acervo, temos a obrigação de ser confiáveis,e de saber dizer para onde estamos caminhando.

Romeu Nardini – Comerciante, apaixonado por automóveis, grande entusiasta dos carros antigos e diretor do Clube MP Lafer – Brasil.  São Paulo, SP

Trevisan, acompanho seus projetos desde que nos conhecemos por ocasião do evento “Clássicos de Competição” em 2007, em Interlagos. De lá pra cá, vi chegarem novas atrações para o Museu, verdadeiras jóias do automobilismo brasileiro, alem de saber da ampliação e crescimento do seu projeto, se tornando um complexo templo para o automobilismo de competição.
Então, gostaria que você falasse um pouco sobre esse projeto e se você pode nos adiantar alguma nova atração ou novo ” brinquedinho” que poderá ser visto futuramente no Museu do Automobilismo Brasileiro.

PAULO TREVISAN – Que pena o evento Clássicos de Competição não ter tido continuidade, porque oferecia um formato multi evento e contatos ótimos. Fui aprendendo ao longo dos anos que um só carro por mais maravilhoso que seja não sustenta sozinho o nível de interesse do visitante. Tem peças como o Maverick Berta Hollywood que já fez muitos barbados derramarem lágrimas e outras situações inusitadas, e claro uma Maserati 4CLT 48 que ganhou a inauguração de Silverstone que mexe com os corações; ainda mais imaginando o quanto valeria um carro desses. Mas fui chegando a conclusão que o conjunto é o mais importante, e o foco e coerência do acervo. Outro aspecto fundamental é a sequência e forma de expor, a iluminação e as ambientações e que no meu pavilhão improvisado e atulhado já não temos condições de oferecer. O castigo para nós que temos a pretensão de oferecer um museu e afirmando ser “brasileiro” e não do Paulo ou de Passo Fundo, é ter que investir tanto ou até mais que o valor do acervo em instalações próprias para não ficar refém. Precisa peito e abrir mão até de sonhos de consumo como disse recentemente dentro do Museu num evento para 150 pessoas ao criarmos um núcleo de Rallye e assinar termo de criação de um Museu do Radialismo e Jornalismo Esportivo regional. A nível externo a coisa mais importante e que nos dá respeito é que os carros são restaurados para andar na pista, de onde tiro um dos maiores prazeres pessoais. Sei que passei de 100 carros de competição, e a chegada de mais um monoposto de Maserati 4CM 1938 (já encarroçada pelo Toni Bianco) que localizei em Fortaleza-CE, me possibilita uma dupla de puro sangue extraordinária, e respeitável em qualquer lugar desse mundo histórico. Este ano estamos trabalhando em paralelo nos fórmulas e concluímos os F2 Muffatão e Heve, FChevrolet da Equipe Texaco e da RS Competições que estão zerados e, concluindo em 10 dias outro Kaimann FFiat. Às vezes o ritmo da restauração manda na gente e não o contrário. Eu gostaria de te surpreender nesse conjunto quando nos visitares.

Nelson Cintra – Ex-piloto. Restaurador e preparador de automóveis. Petrópolis, RJ

Caro amigo Paulo, gostaria de saber como você, uma pessoa cheia de compromissos, tem tempo para se dedicar ao seu Museu. Eu já estive por lá e sei que uma coisa do primeiro mundo, e sei também que você não recebe recursos do poder público. Museu no Brasil é um caso sério! Veja o caso do nosso amigo Nasser, em Brasília…

As famosas carreteras, tão populares no passado, principalmente no sul do país

 PAULO TREVISAN – A administração do meu tempo e disponibilidade para os carros é uma ginástica constante. Isso implica na gente passar ano após ano juntando pedaços e restaurando sem parar e chegar no atual estágio, aí já vão 20 anos. Gosto disso e pretendo fazer isso o resto da minha vida. Como você sabe, fazer carrinho bonitinho é fácil mas deixá-lo em condições de pista é o difícil e mais caro. E cada vez que se desloca os carros para um evento, carrega e descarrega, ou anda em autódromos acontecem danos e ficam heranças. Na parte mecânica algumas quebras até são positivas porque mostram os pontos fracos e nos ajudam a melhorar o veículo. Ao longo dos anos fomos aprendendo muito, desenvolvendo macetes e montando uma teia de serviços terceirizados por aqui; mas para isso se precisa e conta muito a cultura sobre esses carros e as competições de época. Que coisa horrível uma restauração ou réplica que não respeita características originais, com babados que inexistiam. Implantar museu de carros no Brasil e com vida longa é um caso sério como você diz, gera reações negativas em algumas pessoas, e exige uma pertinácia e dedicação sem limites. Existe ciumeira e a grande maioria olha os carros para achar defeitos e não para elogiar como sabemos, mas essa é a realidade. Não dá para depender da boa vontade de terceiros e se precisa abrir mão de muitas coisas pessoais e até de uma vida mais amena.

Renato Bellote – Colunista e fotógrafo especializado em automóveis. Mantenedor do site “Garagem do Bellote”. São Paulo, SP

Antes de tudo quero parabenizá-lo pela iniciativa de criação do museu, começando pela garimpagem e paciência de sobra para encontrar os ícones automotivos do passado. Qual foi o item da coleção mais difícil de achar e/ou restaurar?

PAULO TREVISAN – De vez em quando estou dentro do Museu, e desligando as luzes após receber um grupo de visitantes por exemplo, me deparo com todos esses carros e tanta história junta que nem acredito como consegui chegar até aqui. Tem carros que eu poderia falar horas sobre sua história; e outros o mesmo tempo para falar da aquisição e restauro. Quanta informação ou dica errada, mas quantas surpresas de peças sobreviventes. O Casari A1 que fotografei com uma Rio400 em Curitiba em 1970 e no Tarumã em 1971 e cujas fotos guardei e mostrei ao Norman numa visita a meu convite aqui em Passo Fundo, foi um situação dessas. Recomendou que o detentor dos restos do carro me destinasse as sobras (chassis sem suspensões e só a frente), mas se temos as fixações dianteira e a famosa medida 230 do entre eixos não nos ajuda? E a frente não nos estabelece escalas e as linhas restantes? Claro que sim e ainda mais adquirindo o cambio ZF original com a ajuda do Paulo Lomba. Com referenciais e bom material de consulta dá para chegar lá. Na carretera Ford nº 4 do Vitório Andreatta demorei uns 8 anos para adquirir a sucata, e apenas 8 meses para deixá-la 100%. A carretera nº 9 era ferrugem pura que até ferro velho renegara. Na montagem da Maserati 4CLT foram mais de 5 anos, buscando conhecimento, gabarito e acessórios na Europa, trabalhando e soldando alumínio; sem o genial Toni Bianco ao lado e parceiro há mais de 6 anos. O Fúria BMW estava completamente descaracterizado, assim como o protótipo Polar. Eram restos e ambos exigiram fabricação e remontagem completa de suspensões e os acertos devem continuar. São muitas situações que nos obrigaram a perder o medo, e ter que agarrar o touro pelas guampas e derrubar. Tem situações desanimadoras, mas na soma isso nos gratifica.

Vicente Von Der Schulenburg (Muca) – Empresário. Pesquisador e apaixonado por temas ligados a automóveis e automobilismo. Rio de Janeiro – RJ

Trevisan, tive o prazer de conhecê-lo em Araxá este ano (2010) e fiquei muito feliz com seu efusivo cumprimento. Realmente fui eu que salvei o, hoje seu, Karmann-Ghia Dacon.
Só conheço o seu acervo por fotos. Vi que cobre épocas distintas do automobilismo brasileiro. Existe um objetivo final? Tipo uma data de corte para aquisição de novas peças? Como se dá sua relação com equipes brasileiras atuais, das mais diversas categorias, que em poucos anos farão parte da nossa história? Estas equipes alguma vez manifestaram interesse em colaborar com o seu acervo, para que no futuro possamos ver estes carros expostos?

Em primeiro plano, o Karmann Ghia-Porsche

PAULO TREVISAN – Nosso encontro foi efusivo e linkado no importantíssimo Karmann Ghia Porsche Dacon, porque sabemos do significado dos nossos atos de salvar e preservá-lo. Com o passar dos anos e a coleção ganhando corpo, fui estabelecendo alguns critérios primordiais.O primeiro é de que todos os carros andassem se possível, e que a abordagem fosse centrada no automobilismo brasileiro interno. Depois concluí que tinha que ter representantes de todas as principais categorias e suas décadas; e que tão importante como os carros eram os arquivos de fotos/filmes e documentos de época. E assim vamos evoluindo, sem ter um objetivo e ponto final previsto.Você tocou num aspecto muito importante da nossas relação com as equipes atuais. Já estive com carros meus novos disputando Endurance e de maneira geral acompanho os bastidores. Mas parece que o descaso continua o mesmo de sempre em relação a preservação dos carros. Dá a impressão que muitos nem sabem que estão fazendo história. A maioria não dando a mínima ou quem sabe nos achando exóticos por tocar essa frente. Geralmente quando os pilotos amadurecem, e mais recentemente se dando conta desse movimento incrível (sites e blogs especializados) de resgate do automobilismo, participam e contribuem com suas histórias. Já tive muita decepção neste quesito, mas acho que já foi pior, e o fato de termos uma vitrina tem provocado um movimento espontâneo em anos recentes, com doações e cedências em comodato. Imagine o que está sendo sucateado neste momento de Stock Car do modelo anterior. Ninguém se lembra ou oferece, com exceção do Zeca Giaffone que nos entregou um chassis zero em 2007. Para ter mais resultados eu teria que ir para cima, ser convincente com as equipes e seus pilotos, mas nem sempre a gente está com disposição e tempo para isso.

Ricardo Oppi – Restaurador de automóveis. São Paulo, SP

Trevisan, sempre que concluo a restauração de um automóvel fico com uma ótima sensação, misto de dever cumprido com a certeza de que estou contribuindo com a preservação de um patrimônio, que carrega consigo histórias pessoais.
Fico imaginando, qual é a sua sensação em poder resgatar e manter veículos de competição, muitos deles pilotados por gente famosa, campeões nas pistas e que fazem parte da história de vida não só das pessoas diretamente envolvidas com eles, mas também daquelas que fizeram parte de sua torcida.

Maverick Berta

PAULO TREVISAN – Essa feliz sensação na restauração de um carro é tanto maior quanto maior for sua importância ou significado. Também proporcional ao desafio enfrentado e à qualidade do resultado final. Me dei conta disso muitos anos atrás, e concluí que a primeira alegria é quando a gente localiza e adquire. Depois as intermediárias quando se acham componentes, etapas são vencidas e o veículo começa a se mostrar. E claro a finalização, e andar com o mesmo. Me lembro quando conseguimos acertar o Maverick Berta Hollywood no autódromo de Guaporé, e aquele bichão acelerando e aceitando desaforos acima da minha coragem; que sensação espetacular! Que chão tem esse carro. E nesses momentos sempre penso muito naqueles pilotaços que ocuparam aquele lugar. Do Luizinho acelerando tudo em direção à curva do laço no Tarumã! E o caso da Maserati 4CLT 48 com que Villoresi ganhou 4 provas européias em 1948 e inclusive a inauguração do autódromo de Silverstone! Nesse monoposto Nuvolari andou 20 voltas! A gente, como se diz, tem que se beliscar para ver se é verdade. Você tocou, Oppi, num ponto muito impactante para mim e aqueles que tem a oportunidade de andar nesses carros. Essas reflexões devem ser feitas. Imagina quantos detonaram seu patrimônio correndo com eles, e principalmente botando a vida em risco. Quanto mais se pesquisa sobre a trajetória de cada carro e se descobre situações passadas, mais se curte o mesmo. E que no futuro as novas gerações tenham esse mesmo sentimento.

Organização, texto introdutório e edição: Fernando Barenco

 

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