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O despertar de uma paixão

O despertar de uma paixão

*Carlos Zarur

Tudo começou com esta foto. Meu avô visto na janela, me colocou para brincar dentro do Mercury verde, novinho em folha, que meu pai havia comprado e estacionado com orgulho em nossa garagem.

Acho que naquele momento fui mordido pela paixão por essas máquinas que, ainda hoje, carrego no fundo do cérebro, bem perto dos sentidos – do tato, dos cheiros e das visões antológicas.

Nesta foto, batida em 1950, ano de fabricação do carro, eu ainda não havia completado dois anos, estava perto, porém, de entender o significado daquele momento.

Não sinto pelo Mercury o mesmo que senti pelo Fusca abandonado na minha rua, inspiração de crônica publicada neste mesmo espaço. O Fusca era meu – ou eu pensava que era. Já o Mercury, que não povoa minha lembrança racional, é apenas uma foto que me remonta o passado, como um imenso quebra-cabeça.

Se não fosse este retrato, mágico por nos trazer de volta o tempo, talvez eu sequer lembrasse o carrão novo do meu pai. Aquela imagem, no entanto, me fez recordar a minha Rua no Rio. Suas calçadas transformadas em pistas para nossos carrinhos de rolimã. Os velhos oitis e um imaculado céu azul que, junto com a brisa, acolhia nossas pipas coloridas.

Fez-me lembrar as festas de São João, as bombinhas e os busca-pés que comprávamos escondidos para assustar os outros. A Vila, eterno estacionamento do sofrido Fusca abandonado, campo de nossas peladas imortais, onde nossas mães, em comunidade, serviam gostosuras para aplacar nossas fomes gulosas. Trouxe-me recordações de seres imemoriais, como a velha Hermínia que alimentava e cuidava dos gatos que maltratávamos nas horas vagas, entre as brincadeiras.

Lembrei-me também dos gloriosos dias em que a rua se enchia de carrões. Virava, por sua proximidade com o Jóquei Clube do Rio, estacionamento privilegiado, para homens e mulheres elegantes que iam assistir ao Grande Prêmio Brasil. Nós, moleques escolados, alugávamos a vaga em frente à garagem de nossas casas e tomávamos conta dos carros. Ganhávamos moedas que gastávamos, comprando chicletes e outras guloseimas na padaria do português, em frente à Praça Santos Dumont.

Não posso falar racionalmente daquele exato momento congelado pela Contax de meu pai, (herdada por mim e agora pelo meu filho Fernando – jornalista e fotógrafo. Site:http://www.flickr.com/photos/fernandozarur/), mas posso sentir sua magia. É como um sonho que se materializasse em minha alma.

Escutei algumas histórias sobre o Mercury verde. Para mim, até hoje, todos os “Mercurys” são verdes. Quando subíamos a serra para Petrópolis, contava minha mãe, eu sempre enjoava. Era a velha estrada cheia de curvas e pesados veículos fumegando, com suas bocas abertas no calor carioca. Houve então uma decisão de família: comecei a viajar, na companhia de minha tia Dedê, nos modernos ônibus da Cometa ou no trenzinho, inaugurado por Dom Pedro II, que subia a serra serpenteando entre montanhas e bananeiras. O trem de Petrópolis não existe mais – nossos governantes mataram os trens no Brasil.

No próximo final de semana estarei, mais uma vez, em Araxá. Vou ver a bela exposição de carros antigos e ficar hospedado no lendário Grande Hotel do Barreiro, construído pelo Governador Benedito Valadares e inaugurado, em 1944, pelo Presidente Getúlio Vargas. Ambiente perfeito para apreciarmos as preciosidades que colecionamos. Vou ficar de olho para ver se encontro exposto um Mercury 1950 verde – como já disse: todos os “Mércurys” são verdes, ou melhor: deveriam ser. Com bancos macios e seu lendário motor Ford V8.

*Carlos Zarur é Jornalista, Sócio do VCC-Brasília, proprietário de um Karmann Ghia Conversível 1970 e um Ford 1929, dentre outros.

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