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Fusquinha

Leandro Arantes e seu Fusca participando de uma exposição num shopping de Belo Horizonte

Fusquinha

*Leandro Guimarães Arantes

Eu, meu pai, minha mãe e o FUSCA! Esta é a definição de família que conheço desde 05 de setembro de 1982, pois foi nesta data que eu cheguei ao mundo, o dia de meu nascimento. Nasci, sem saber de nada e para chegar a casa com segurança, fui à total proteção do colo de minha mãe, com a direção segura de meu pai, dentro do Fusquinha. Como disse, não sabia de nada, e nem imaginava onde estava entrando, porém o Fusquinha, mesmo sem “falar” nada, tinha a certeza que ganhará um parceiro para toda vida, ou melhor, sabia que o legado seria mantido. Vou explicar esta história, afinal nasci em 1982 e meu pai adquiriu o fusca em 1970, logo, eu não vi e vivi 12 anos de histórias gloriosas deste veículo, antes de meu nascimento.

Com 1 ano e o Fusquinha, começando uma parceria para toda a vida…”.

Era o ano de 1970, o ano do tricampeonato mundial de futebol, a última copa de Pelé, tempos difíceis da ditadura e o ano em que meus pais se casaram após 10 anos de namoro. Meu pai, um importante advogado e promotor de justiça encontrou em minha mãe a parceira ideal para construir sua vida familiar. Porem, minha mãe teve de “aprender” e entender que pai tinha uma outra enorme paixão: carros! E ele passeava com o carro de meu avô, dirigia o carro do irmão, olhava com entusiasmo o carro do tio, mas nada de ter o próprio carro. Quando viu o fusca 1970, motor 1300, tigrão, pois diziam que o carro tinha mais HP, logo, “andava como um tigre.” Imediatamente, ele foi comprar um Fusca, mas, o preço estava alto e o sonho “esfriou”. O casamento estava indo muito bem, o emprego melhor ainda, mas como era difícil adquirir este primeiro veículo…

Meu pai então passa a trabalhar como advogado do BDMG e logo recebe uma notícia: o Fusca que pertencia ao chefe dele tinha sido roubado e o seguro repassou ao chefe lesado um fusca de modelo mais simples, branquinho, estofamento caramelo, “sem graça”. O chefe ficou irritado e desolado, pois seu fusca roubado era um verde majestoso, de estofamento vermelho e repleto de acessórios. Com raiva da seguradora e da VW, o chefe de meu pai rejeitou este carrinho “feio e sem graça”(palavras do chefe), resolveu por deixar o carro na garagem, sob cavaletes e com capa, totalmente zero km. No outro dia , este chefe optou por comprar um Galaxie (carro de chefe). Mas para comprar um Galaxie, mesmo sendo chefe, ele precisaria de uns “trocadinhos” que obtivesse vendendo o rejeitado fusquinha branco. A notícia se espalha pelo BDMG, mas ninguém quer aquele Fusquinha “sem graça”, tudo bem, é zero km, mas é branco, é comum e o interior nem é vermelho…

Rejeitado por todos, meu pai é designado a levar um relatório na casa de seu chefe, chegando lá, como por “mágica”, um forte vento faz a capa que protegia o fusquinha rejeitado, se levantar um pouco, deixando seus belos faróis olho de boi à mostra. Foi um amor à primeira vista, o olhar de meu pai sintonizava perfeitamente como aqueles belos faróis. Da rejeição a um amor eterno, naquele momento meu pai achou o FUSCA, o seu primeiro carro, o carro que seria o segundo pilar de sua família, depois de minha mãe. E naquele momento o FUSCA achou seu dono, sua casa e sua garagem que é a mesma nos últimos 44 anos.

A festa então iniciou, foram viagens por todas as partes do país, de norte a sul. Momentos marcantes e felizes, histórias gloriosas. O FUSCA ganhou diversos companheiros ao seu lado, Fiat 147, Oggi, Santana, Parati, Polo, Escort, todos passaram e o FUSCA sempre ficou. Pois já frisei no início, o FUSCA é família, é o meu irmão mais velho!

Com o passar dos anos, pai, mãe e eu, formamos no FUSCA um “quarteto fantástico”, com histórias muito divertidas, como as tardes onde eu, com 2, 3, 4 anos, íamos tomar sorvete e meu pai levava uma garrafa de 2 litros de agua para eu lavar as mãos antes de entrar no carro, pois FUSCA e sorvete não combinam!
O tempo, severo como ele só, passa rápido e lá estou eu, com 18 anos, meu pai ao lado, os dois dentro do FUSCA, em busca de minha primeira carteira nacional de habilitação. Pois é, foi esta dupla responsável por me ensinarem a dirigir, o FUSCA e meu pai.

Então agora eu sou habilitado, 18, 19, 20 anos e é só farra, com namoradas (o FUSCA viu muitas, modéstia à parte) festinhas, noites, madrugadas… Bons tempos!
Momentos tristes? Claro que tivemos dentro do FUSCA, faz parte sim da vida, até no derradeiro final da vida de meu pai, ele me pediu: “Cuide bem de sua mãe e …. dele!”
Recordo-me de momentos bonitos, quando pelos anos passados, perguntavam à meu pai:
“Por que você não vende este carro nunca?”
E ele respondia: “Pois foi o FUSCA que buscou meu filho quando nasceu!”
Momentos simples, porém marcantes.

Hoje, quis o destino deixar o carro nas mãos e nos nomes de minha mãe e no meu. Nada mais justo e honroso, pois minha mãe deve ser lembrada como a mulher que sempre o apoiou e valorizou este FUSCA, uma mulher fantástica, que agora me acompanha em tudo junto com o FUSCA.

E eu? Bom, estou por aí né, vivendo em prol deste meu “irmão”, 12 anos mais velho que eu, acompanhando ele em eventos badalados, diversas homenagens, exposições em shoppings. De longe, às vezes, sentado em um banquinho e vendo as pessoas passarem observando, admirando o FUSCA, como a “celebridade” que só ele é, fico neste meu momento de contemplação solitária, pensando na história de tudo que este carrinho já fez por nós, lembrando de meu pai e seguindo nesta estrada da vida, óbvio, sempre, de FUSCA.

fusquinhaleo

 

*Leandro Guimarães Arantes – Nascido em Belo Horizonte. Foi jogador e treinador de futsal, coordenador de clube, com passagens pelo Sesc Futsal e Oasis Clube, além de ser criador de um famoso time de Futsal do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, o Sport Dynamo Football. Dentro do esporte foi campeão mineiro de clubes pela Fecemg em 2008 e mais de 20 títulos conquistados. Atualmente estuda Psicologia.


 

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