Conteúdo Crônicas... e outros textos

Emprestar não presta

Emprestar não presta

*Lacerda Junior

Pidão e Toinho eram amigos desde crianças, cresceram no mesmo bairro, estudaram na mesma escola e até namoraram a mesma garota. A amizade dos dois era tão forte que Pidão já não conseguia ver as coisas de Toinho como pertencentes à outra pessoa, já as considerava suas também.

Nos tempos de escola Pidão não se envergonhava de pegar com Toinho tudo o que desejava, era bola emprestada, tênis, material escolar e até mesmo material de uso pessoal, como escova de dentes, sabonete, toalha, geralmente levados por Toinho por ocasião das aulas de educação física.

Os dois amigos foram crescendo e Toinho se incomodava cada vez mais com aquela situação, pois sempre que emprestava algo a Pidão o objeto emprestado vinha danificado, sujo, e às vezes nem vinha mais, porém tinha medo de dizer não, temendo que a negação de algo viesse a comprometer a amizade de tantos anos.

O pai de Toinho sempre soube de sua fascinação por carros antigos, e quando o garoto completou 18 anos deu de presente para ele um Chevrolet Chevette vermelho. A alegria de Toinho era tão grande que ele nem conseguia acreditar que aquela relíquia era sua, o modelo era igualzinho a um dos carros antigos de uma coleção de miniaturas que ele mantinha desde criança.

Um dia Toinho estava lustrando sua “máquina” quando de repente chegou seu grande amigo Pidão:

— Toinho meu velho! Como vai?

O coração de Toinho começou a bater forte, pois sabia que toda vez que Pidão chegava com aquela empolgação queria pedir algo.

— Tudo bem Pidão! E você?

— Eu tô mais ou menos… sabe o que é meu brother, é que eu consegui chegar naquela menina que mudou pra cá há pouco tempo e convidei ela pra dá uma voltas, só que cê sabe que eu só tenho aquela bike e não vai pegar bem, ai eu pensei se……. Dá pra me emprestar seu carro hoje à noite? Amanhã cedinho te devolvo.

O coração de Toinho bateu mais forte ainda, sua vontade era dizer não, mas aquele medo de perder a amizade o oprimiu novamente e ele respondeu:

— Tudo bem! Pode pegar – Falou Toinho com voz trêmula.

Pidão não perdeu tempo, pegou a chave, entrou no Chevettão e foi embora. Toinho guardou os objetos que ele estava utilizando, foi para dentro de sua casa e logo depois deitou-se e foi dormir. Às 3 horas da madrugada alguém tocou a campainha da casa de Toinho, ele acordou meio desnorteado e percebeu que a luz de um giroflex refletia em sua janela, ao abrir a porta se deparou com dois policiais da companhia de trânsito que confirmaram seu nome e perguntaram se ele era proprietário de um veículo Chevette vermelho.

— Sou sim! O que aconteceu? – Perguntou Toinho

— Seu veículo se envolveu em um acidente de trânsito, colidiu frontalmente com um poste, a garota que estava no banco do passageiro morreu e o motorista se evadiu do local. – Respondeu um dos policiais.

— Hein!! – Exclamou Toinho assustado.

— Além disso observamos que no interior do veículo haviam várias latas de cerveja. Como o veículo é de sua propriedade, necessitamos que você nos acompanhe até a delegacia. – Complementou o policial

Toinho foi levado algemado até a delegacia e após prestar esclarecimentos, foi liberado e respondeu em liberdade, porém ao final do processo foi condenado a prestar serviços sociais, teve a habilitação cassada e seu “Chevette dos sonhos” foi removido ao galpão da companhia de trânsito, já que não teve dinheiro para liberá-lo.

Toda vez que Toinho olhava para um carro antigo lembrava de seu Chevettão e se arrependia por não ter tido coragem de dizer NÃO. Ao final ficou sem o carrão, sem habilitação e sem o amigão, que nunca mais voltou nem para dar satisfação.

O texto acima é apenas uma obra de ficção, mas queremos chamar a reflexão sobre um assunto importante. Segundo dados obtidos no site do DETRAN/SE, até o dia 24 de outubro foram registradas 2.317 ocorrências de acidentes de trânsito, sendo que em 1.778 delas o condutor não era o proprietário do veículo. Devemos ter o máximo de cuidado ao ceder um veículo a terceiros, pois qualquer incidente ocorrido com o mesmo será atribuída à responsabilidade ao proprietário legal, ainda que o proprietário não seja o condutor no momento do incidente.

* Lacerda Junior – É Sergipano nascido em Aracaju, graduado na área educacional. Profissionalmente atuou como professor na rede pública de ensino do estado de Sergipe e atualmente escreve sobre educação e segurança no trânsito defendendo a integração Trânsito- Escola, pois acredita que o problema do trânsito só se resolve com educação.

Comentários do Facebook

Adicionar Comentário

Clique aqui para postar um comentário

Novidades dos Classificados

%d blogueiros gostam disto: