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Auto Sentido

Auto Sentido
Romantismo puro em três atos

*Portuga Tavares

Prólogo: Gerundiando a vida
Asfalto e companhia

Se puder escolher minha aposentadoria, tudo o que quero é estar ao lado de uma bela e inteligente mulher e dentro de umMotorhome. Viajando por uma estrada, conhecendo tudo que puder, trafegando pelas estradas, almoçando com caminhoneiros, abastecendo em postos simples, fotografando tudo. Conhecendo novas pessoas, “acampando” em cidades pelo interior, descendo a praia no alto verão, andando pelas montanhas no inverno. Ou seja, ter casa em todos os lugares, sem precisar pagar IPTU a todos os municípios.
Esqueci de dizer, mas, no meu Motorhome, terá uma moto atrás, para quando estiver “morando” numa cidade, puder passear com mais agilidade. A vontade de ter umMotorhome é única e exclusivamente a herança de uma paixão que tenho: automóveis.

Os únicos detentores dos meus sonhos de consumo são os carros. Não sonho com mansões, nem com festas, nem com uma vida mirabolante e agitada. Sonho apenas com alguns carros antigos. Gosto de V8 e já comecei a consumir – vide meu Landau – gosto do cheiro da gasolina, gosto dos carros, mas acompanhado dos meus amigos; Qual seria a graça da vida com o assento do passageiro vazio?

Primeiro Ato: Vida Útil
“Recordações vivas”

O melhor de certos carros nem é o fato deles nos transportar de um canto ao outro, facilitar o trabalho e levar coisas. Bacana mesmo é o punhado de recordações que eles despertam. Os passeios felizes, uma viagem cheia de aventuras, brincadeiras ao volante, alta velocidade, a paquera com o carro desfilando rente à calçada, sem esquecer, é claro, do beijo de despedida em frente à casa da namorada. Nós nos lembramos disso com carinho. Também nos lembramos de coisas menos felizes. Quando começam a freqüentar oficinas e no frio teimam em não pegar, perdem carga elétrica sem motivo aparente, o surgimento de ruídos, a bebedeira desenfreada e fumo constante. Então se atiram na vadiagem que os afasta de nosso coração. É preciso dinheiro e paciência. Mas é muito mais barato e simples do que uma clinica para a recuperação de uma pessoa. Basta uma oficina e um bom “artista”, com suas roupas velhas, fétidas e sujas para reanimá-lo, e passar a ser o carro de final de semana, que ostentamos com orgulho. Há quem os chamem de “enfeites de garagem”, mas quem os conhece sabe do que se tratam: paixões sobre rodas.

Em Mongaguá, vi um Bugue veterano “olhando” demoradamente o mar, faróis redondos com os aros enferrujados, abarcando toda a mágoa de viver ao lado do oceano, ter levado e trazido gente para se divertir, mas que por conta da maresia constante danificou o motor. Com certeza há anos aquele “caiçara de fibra” não molha um pneu na água salgada. Havia, porém, crianças escorregando pela carenagem rachada, e fingindo que o dirigiam em alta velocidade – os netos do dono. Era uma cena bonita, mas ainda preferia ver aquele Bugue, ostentando um amarelo chamativo, correndo pela areia aos “cavalos-de-pau”.

Conheço um piloto que com seus amigos construiu seu primeiro carro de corridas num fundo de quintal, com esse carro começou uma carreira que o levou à Fórmula 1- aliás esse carro de cor rubra levou dois pilotos à Fórmula 1. O carrinho chamava-se Patinho Feio – os construtores o acharam feio, mas eu discordo – e foi abandonado por alguns anos. Virou galinheiro, mas hoje o Patinho Feio voltou à vida, e eventualmente às pistas. Os carros são tão belos quanto suas histórias. Não importa o nome: carros históricos são sempre belos.

Segundo Ato: Amigo Que Acompanha
“Idas e vidas”

Dizem que O cachorro é o melhor amigo do homem, mas, na verdade eu acho que é o contrário. Para mim o homem é o melhor amigo do cachorro, porque o melhor amigo do homem é o carro. O carro sim é um companheiro.

O carro acompanha o homem, levando uma grávida ao hospital;
Acompanha o homem na ida à casa da avó;
Acompanha o homem nas visitas aos parentes;
Acompanha o homem na ida à escola;
Acompanha o homem na ida à faculdade;
Acompanha o homem nas idas às baladas;
Acompanha o homem nos passeios com a namorada;
Acompanha o homem na ida à praia;
Acompanha o homem na ida ao interior;
Acompanha o homem na ida ao casamento, o dia mais feliz na vida de uma mulher;
Acompanha o homem na ida da esposa ao hospital para ter um novo Homem;
E finalmente acompanha o homem à ida ao cemitério.

Posso afirmar com pura verdade, que muitas mulheres também o tem como melhor amigo, e claro, companheiro.

Terceiro Ato: Homem Máquina
“Será que somos ciborgues?”

Um amigo médico disse-me: “Você precisa fazer um check-up, para saber se você tem alguma doença!”; Respodi: “Oras bolas; Sinto-me bem; Para quê preciso saber se tenho alguma doença? Se eu fosse um carro não precisaria ir a um mecânico para saber se tenho algum problema!…” Mas lembrei que às vezes um carro está normal e justamente porquê não fez uma revisão. Pode parar sem aviso prévio!

É engraçado pensar que no fundo somos máquinas e com a idade nossos órgãos – ou seriam peças? – sofrem com o tempo e uso. Aos poucos nossos corações ficam mais fracos, tais quais as bombas de combustível; Nossas veias tornam-se ineficientes e igualmente acontecem com as mangueiras. Nossas juntas rangem, assim como acontece com as buchas da suspensão.

Fiquei com isso na cabeça até chegar a um pensamento: as doenças acontecem com homens e máquinas e nem sempre têm outros nomes – ressecamentos, trincas, má lubrificação, fadiga…

A vantagem é que o carro moribundo pode reviver nas mãos de um “artista”. O ser humano pode, no máximo, esperar que algum médico ou biólogo ache a cura. E me ocorre que a diferença entre essas ciências é muito simples: a mecânica é infinitamente mais evoluída que a medicina. A ressureição, por exemplo, é um sonho impossível para os homens de jaleco branco. Mas os de jaleco sujo de graxa já sabem como fazê-la há muito tempo. Há milhares de anos, a ciência que trata de seres humanos é coisa risível, perto daquela outra, apenas centenária, que cuida de automóveis.

Sabe-se que o primeiro transplante de coração entre pessoas, com sucesso, em 1967. Entre os veículos de quatro rodas? Impossível dizer. Mas use a razão. Valiosos como eram os pioneiros, todas as partes deveriam ser reaproveitadas e, desde então, um carro batido, se não tiver conserto, vai continuar a viver sobre as rodas de outro. Os eventuais defensores da medicina podem argumentar que o transplante está muito normal hoje em dia. Muita gente comete excessos por causa disso – comem mal, bebem mal, fumam demais – e esperam peças de reposição. No caso de acessórios a medicina já chegou perto das autopeças com silicones e todo tipo de embelezamento, mas quando será que o “tuning” deixará de ser o único no mercado medicinal a disposição nas prateleiras? Espero, sinceramente, ir um dia a uma clínica poder comprar corações, pulmões e tripas novas, e quem sabe até estocar num cantinho da garagem.

Sim, mas transplantes têm limite. Palavra que a mecânica desconhece. Se restar alguma vaga impressão de chassi, resta a esperança de reviver a glória do primeiro quilômetro rodado. Vantagem da automecânica é tanta que até a clonagem é perfeitamente domada. Um artesão caprichoso usa uma foto, uma simples fotografia, nada de complicados exames de DNA para reproduzir um pára-choques tido como morto. Um bom mecânico pode trazer um Bugatti de volta à vida. Mas como tudo na vida isso também pode ser usado para o mal. Quem dera que o “homo sapiens” fosse tão “sapien” a ponto de usar a “sapiência” apenas para o bem, e assim perceberia o quanto seria lucrativo a TODOS!

Se isso não é a prova final da superioridade da mecânica, outra coisa não é. Vá você consertar um joelho! A conta não fica por menos de qualquer coisa entre “muito” e “vou ter que vender a casa da praia”. Compare com o preço de uma dobradiça quebrada. A ressurreição completa de um carro, embora mais demorada, com certeza, é mais agradável de ver do que um eletro-choque. A mecânica é muito mais amiga do bolso. A outra técnica ainda vai evoluir até o ponto de baratear os custos, tornar uma ponte de safena tão acessível quanto um punhado de balas num botequim. Mas até lá a mecânica estará imbatível. Moral da história: não se deixe enganar pela graxa nas paredes, pelo pôster de mulher pelada ou pelo palavreado. A oficina é muito melhor do que um hospital.
PS: Dedicado aos amigos que escutam “música” saindo do escapamento, beberam quando criança água de radiador, e nas veias têm ferrugem. Motivos de sobra para viver com um pé no acelerador!

*Portuga Tavares é editor de texto do programa Auto Esporte, da Rede Globo, colaborador em em diversas publicações especializadas em automóveis, entre elas a revista Quatro Rodas e co-autor do livro “Almanaque do Fusca”, da Editora Ediouro.

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