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Antigomobilismo, independente de modismos

Ladeira e seu Phaeton 1928 participante da “Primeira viagem de Fordinho São Paulo-Brasilia”, cuja placa comemorativa aparece na frente do carro

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Antigomobilismo, independente de modismos

Quem hoje curte automóveis antigos e busca algo interessante para comprar, em geral fica espantado com os valores praticados. É fácil encontrar alguns modelos custando mais caro que alguns zero quilômetro de luxo. É o preço que se paga pela moda! Isso mesmo, automóvel antigo está atualmente “na crista da onda” e reúne a cada dia um número maior de adeptos.

Mas nem sempre foi assim: nos anos 1980 os automóveis “velhos”, não tinham o menor valor e a maioria dos modelos — principalmente os nacionais das duas décadas anteriores — eram apenas trambolhos sem nenhum valor comercial. Somente os possuíam os mais pobres. Eram comprados não por opção, mas pela falta dela.

Foi justamente nesta época que o antigomobilismo deu seus primeiros passos. Fase em que começaram a ser fundados os primeiros clubes de autos antigos e a surgir nomes de pessoas do naipe de Roberto Lee, Roberto Nasser, Og Pozzoli, entre outros. Gente pioneira, que soube reconhecer o valor de automóveis que eram simplesmente abandonados pelas ruas, ou vendidos a peso nos ferros-velhos, mas que mereciam ter seu lugar na história.

Fomos conversar com um desses desbravadores. O contador Pedro Ladeira nasceu em Barbacena-MG e lá vive até hoje. Desde sempre apaixonado por automóveis e mantém hoje uma eclética coleção com 14 exemplares dos mais variados modelos e anos, nacionais e americanos.
— Já cheguei a ter 30, divididos em dois galpões. Agora decidi conservar somente os que cabem neste espaço. — nos contou ele, nessa reportegem realizada em sua garagem para lá de bem organizada.

O FNM JK 1962: prêmio em Águas de Lindóia-SP

Sua coleção começou com um FNM 2000 JK 1962 comprado em 1966 e que durante muitos anos foi seu automóvel de uso diário. Em 1982, foi inteiramente restaurado e hoje tem sempre destaque nos encontros de que participa, tendo sido inclusive premiado em Águas de Lindóia em 2009.

Em 1983, Ladeira comprou aquele que é o carro de maior valor histórico de seu acervo. O Ford A Phaeton 1928 participou da histórica “Primeira viagem de Fordinho São Paulo-Brasilia”, que reuniu cerca de 50 exemplares do modelo numa aventura que durou 4 dias e aconteceu em 1985. O objetivo era chamar a atenção das autoridades para a necessidade da criação de uma legislação específica para veículos históricos. Liderada por Roberto Nasser, esta viagem foi o embrião da portaria da Placa Preta e é considerada por muitos o ponta-pé inicial do movimento antigomobilista no Brasil.
— Faço parte do Clube do Fordinho de São Paulo e já viajei muito com esse carro: Brasília duas vezes, Curitiba, Porto Seguro, encontro do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele nunca me deixou na mão. — nos contou Ladeira.

DKW Jipe. No detalhe a plaqueta de identificação

Aliás, ele é adepto da filosofia de que carro antigo tem rodar. Sempre que possível vai rodando, não importando a distância. De sua atual coleção, o único que não faz longas viagens é o Candango 1958.
— É um carro muito “travado” por causa da tração 4X4 e por isso só faço com ele viagens de no máximo 150 quilômetros. Mais do que isso fica muito cansativo.
Eleito o melhor utilitário nacional em Araxá 2006, é na verdade um erro chamá-lo de Candango, já que trata-se de um exemplar do ano de lançamento, quando o modelo ainda era denominado pela Vemag de DKW Jipe (com “i” mesmo), nome esse que em seguida teve que mudado, já que a Willys reclamou seus direitos pela exclusividade do nome Jeep. Com chassi número 154, o pertencente a Pedro é talvez o mais antigo em funcionamento.

Ainda da linha DKW-Vemag, Ladeira nos mostrou com orgulho seu Fissore 1964. Comprado em Vitória-ES em 1995, o carro é inteiramente original de fábrica, tendo recebido somente uma pintura nova.
— Carro antigo tem que ser mantido em perfeitas condições mecânicas. — afirmou Ladeira, enquanto girava a chave na ignição sem precisar sequer pisar no acelerador. Pegou de primeira!

DKW Fissore 1964 e Renault 1093, a versão esportiva do Gordini

Outro xodó da coleção é o Renault 1093. Para os menos avisados, trata-se de um Gordini. Mas não! Essa versão esportiva, saia de fábrica com sutis diferenças em relação ao modelo do qual se originou: rodas tala-larga, volante esportivo e painel com conta-giros e velocímetro que marca 180 km/h (mais irreal, impossível!). Mecanicamente tem o mesmo motor de 845 cm3 de cilindrada, porém com carburador de corpo duplo e outros melhoramentos para “apimentar” sua performance. Foi produzido somente em duas cores: vermelha e dourada.

Studebaker: aparência original, com mecânica moderna

Além desses, Pedro Ladeira tem atualmente em seu galpão um Chevrolet De Luxe Conversível 1951, um FNM 2150 1972, um Alfa Romeo 2300 1983 —de uso diário — e uma pick-up Sudebaker 1950, sendo esse o único veiculo modificado em sua coleção. O utilitário americano tem motor MWM a diesel, câmbio de 5 marchas, direção hidráulica e chassi ultra moderno.
— É uma pick-up street, com aparência de fábrica. Resolvi modificar porque preciso dela para rebocar a carreta. Mas mantenho guardados todos os componentes. Se precisar, ela volta a ficar 100% original.

Os demais automóveis encontram-se em restauração, distribuídos em oficinas de Barbacena, São João Del Rei e Juiz de Fora. A grande expectativa do colecionador no momento é o termino da restauração de um Buick Special Sedanet 1950, modelo que, segundo ele, é o único do Brasil.

Um dos fundadores da Sociedade do Carro Antigo de Barbacena, ainda na década de 1980, Pedro Ladeira falou sobre o excesso de encontros de automóveis antigos atualmente. Ele acredita que os antigomibilistas não estão tendo tempo hábil e nem mesmo condições financeiras para participar de tantos eventos simultâneos. E isso acaba trazendo o enfraquecimento dos encontros, que perdem a representatividade. Ele defende a união dos clubes em prol da regionalização dos encontros e também a criação de mais eventos monomarcas, a exemplo do Blue Clound, que reúne anualmente os proprietários da marca DKW.

Texto e Fotos: Fernando Barenco

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