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Acelerando Emoções

Acelerando Emoções
O hodômetro da vida

*Portuga Tavares

Ainda me lembro da época que era jovem, zero quilometro. Minha vida estava começando e em breve deixaria de ser do pátio da concessionária para ser e conhecer o mundo, ou parte dele.

Meu primeiro proprietário foi um homem, um indivíduo comum da classe média brasileira. Assim que cheguei a minha nova casa toda família desceu até a garagem para me ver. O filho queria me guiar, a filha pedia para que eu a levasse na escola e a esposa estava doida para contar como eu era às amigas do salão de beleza, que morreriam de inveja. Meu proprietário queria me estacionar na vaga mais visível do clube, de preferência ao lado do carro de um colega que tinha um igualzinho mas com um ano de defasagem.

É bem verdade que naquela garagem tinha um carro velho, mas ninguém dava atenção a ele, tanto que ele só andava de vez em quando. Me sentia superior, afinal de contas eu era o zero quilometro da família.

Os anos passaram e com 50.000 km já não era mais a novidade, então o filho já podia me dirigir, aliás, ele aprendeu a dirigir comigo. A filha já não fazia mais tanta questão que eu a levasse na escola, deixei de ser assunto da esposa no salão de cabeleireiro. Eu era a porcaria de carro do marido. Precisava ser trocado com urgência. Eu não ficava mais estacionado na vaga de destaque, afinal de contas o colega já tinha comprado um carro mais novo e com desenho moderno. Só sei que trazia comigo alguns arranhões.

Voltei então à mesma concessionária e não gostei do que vi: minha família saiu de lá com outro carro. Não demorou muito e fui apresentado ao meu segundo dono, um homem casado, com filhos e uma carreira promissora, ele se encantou por mim. Segundo ele: “- Agora sim poderia passear com a família em um carro melhor e mais confortável”. Seu pequeno filho, mesmo não alcançando os pedais, sentava ao volante, como que quisesse me guiar. A filha se acomodava no banco traseiro e dormia nas viagens.

Mas o tempo continuou passando e o asfalto sob meus pneus também. Estou com 75.000 km, tenho alguns barulhos e rangidos. Já não tenho tanto valor quanto antes. Então meu proprietário decide me trocar por um modelo zero quilometro.

Esse é o momento em que conheço meu terceiro dono, um jovem casado. Ele precisa de mim para trabalhar e levar a esposa em passeios, modestos e econômicos, quase sempre na casa do sogro. De certa forma, sou motivo de alegria. Outro dia disseram: “- Até que enfim ele trocou aquele carro velho e surrado por um que vai menos dor de cabeça” e ouvia do meu proprietário “Mas eu gostava tanto daquele outro carro”.

Meu painel não me deixa mentir: estou com 100.000 km, não há mais quem me livre da oficina. Eu mesmo não entendo, uma hora estou bem e logo depois preciso de reparos. Isso é motivo suficiente para todos incentivarem minha troca.

Todo pé inchado encontra um sapato rasgado, toda panela velha encaixa numa tampa torta e da mesma maneira um rapaz com poucos trocados compra um carro surrado – praticamente um casamento perfeito – e foi assim que me tornei a sensação do momento: “um carro desses num preço tão baixo, é uma pechincha, só precisa arrumar umas coisinhas”. Claro que o orçamento é apertado, meu dono atual é um estudante, os consertos ficam pra depois, viram gambiarras, mas mesmo assim essa é a melhor fase da minha vida.

Passo boa parte da semana descansando num cantinho da garagem, só pingando óleo. Na sexta-feira vou ao posto e sou abastecido e ganho uma ducha, fico limpo, de lá vou à rua da faculdade, depois na calada da noite vou aos lugares mais badalados, onde tem muita gente jovem. Na volta, mesmo mal conduzido aposto uma corrida com outro carro, nem sempre ganho, deixo os amigos do meu proprietário em suas casas e por último sua namorada. Na verdade, fico um bom tempo em frente a sua casa, e eles, em meus bancos reclináveis se divertem.

Já estou com 170.000 km, meu desenho a muitos anos está longe de ser arrojado. Tudo que dizem ao meu proprietário é que já passou da hora de me trocar. Ele reluta, mas acaba cedendo. Dou muita manutenção, não sou bonito e muito menos confortável. Fui colocado em uma loja, nada comparado à concessionária que antes freqüentei. Fiquei lá por muito tempo, até que um senhor se tornou meu quinto dono.

No começo não gostei muito dele, esse cara só me levava para lugares onde era o único carro feio, algumas vezes quebrei de propósito só pra não ir nesses lugares passar vergonha.

Em pouco tempo haviam me desmontado inteiro, achei que meu destino seria um daqueles ferros velhos, mas me surpreendi ao receber peças novas. O tempo passou e antes de perceber o que estava acontecendo notei que tinha ficado tão bonito quanto antes. Nada de gambiarras e remendos, finalmente fiquei livre de ferrugem, amassados e barulhos, minha pintura estava reluzente, cada detalhezinho ficou como antes. Era ótimo – sinceramente nem recordava como era estar assim – todos me querem, mas meu dono não me vende por nada.

Hoje freqüento um monte de lugares, ando com outros da minha idade. Um dia desses vi um rosto familiar. Era um homem que estava com seu filho e juro que ouvi ele dizer: “Sabe que quando eu era da sua idade o vovô comprou um carro igualzinho a esse? Foi o primeiro carro que eu dirigi!” – Achei comovente e devo admitir que uma gota saiu do esguicho e respingou no pára-brisa, mas resolvi limpar antes que alguém percebesse…

*Portuga Tavares é editor de texto do programa Auto Esporte, da Rede Globo, colaborador em em diversas publicações especializadas em automóveis, entre elas a revista Quatro Rodas e co-autor do livro “Almanaque do Fusca”, da Editora Ediouro. É colunista do Portal Maxicar

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