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A História do Itamaraty Executivo

O N° 14, último a ser fabricado antes da compra da Willys pela Ford

INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA

A história do Itamaraty “Executivo”

Em 1967 o mercado mundial de automóveis oferecia apenas 9 limousines como sendo produtos originais de fábrica (Mercedes-Benz 600 Pullman, Daimler Majestic, Rolls-Royce Phanton V, Vanden Plas Princess, Zil 1116, Valiant Limousine, Nissan Prince Royal e Cadillac Fletwood 75) e entre estes 9 fabricantes estava a Willys-Overland do Brasil com o EXECUTIVO.

Até hoje persistem várias “histórias”, nem sempre verdadeiras, a respeito deste automóvel. São poucos os trabalhos de pesquisa que mostram um pouco mais do que a simples descrição deste que é um dos poucos clássicos da indústria automobilística nacional.

O projeto de se construir uma limousine nasceu na administração do então presidente da Willys-Overland do Brasil Sr. William Max Pearce, um americano que iniciou sua carreira como piloto do Sr. Edgar Kaiser (filho do magnata do ramo da metalurgia Henry Kaiser, fundador da indústria de automóveis Kaiser-Frazer) e que aceitou o desafio de trabalhar no Brasil, a partir de 1955 onde ocupou os cargos de diretor industrial e diretor administrativo, até chegar à presidência da empresa onde permaneceu até sua transferência para a Ford em 1967.

A estratégia de marketing da Willys

O senhor Pearce tinha uma visão muito especial de como promover os produtos da Willys. Bom exemplo disso é o lançamento do novo Aero-Willys 2.600 que aconteceu no Salão de Paris de 1962, pois, se o automóvel fosse lançado no Brasil, não seria alcançada a repercussão necessária para promover aquele que foi um dos maiores projetos automobilísticos já realizados no Brasil.

A limousine também era uma boa idéia de marketing, pois foi intencionalmente construída em número limitado e com o objetivo de dar ainda mais prestígio à marca. Parte deste marketing incluía a entrega, durante o V Salão do Automóvel, de um modelo com características únicas para o uso exclusivo do Presidente da República. Os outros exemplares serviriam a governadores, ministros e possivelmente alguns empresários.

Propaganda de lançamento

A imprensa especializada já vinha antecipando a existência do projeto e um dos fatores que criaram grande expectativa era a crença de que o automóvel a ser oferecido para a Presidência da República seria equipado com vidros à prova de balas e com carroçaria blindada. Tudo isso ajudou a dar mais notoriedade à limousine.

Finalmente o lançamento oficial se deu no V Salão do Automóvel que se realizou no pavilhão do Ibirapuera (em São Paulo) entre 25 de novembro e 12 de dezembro de 1966 com a entrega do modelo Especial (E-340 chassi 05) ao então Presidente da República, o Marechal Castello Branco. Na verdade, este modelo não era blindado, mas possuía alguns equipamentos a mais do que os outros, tais como o rádio transmissor (colocado no porta-malas, com uma bateria suplementar), suportes para os pequenos mastros para as bandeiras nos pára-lamas dianteiros, brasões da República nas colunas da capota e no centro do banco, plataformas escamoteáveis e alças externas para uso dos seguranças além de uma televisão e de um velocímetro no console central do habitáculo traseiro. Somente este veículo, de toda a série, usava o brasão da República nas colunas traseiras e entre os bancos dos passageiros.

Naquele salão a Willys estava instalada num “stand” de 1.700 metros quadrados, bem no centro do pavilhão de exposições e levou para mostrar ao público 23 automóveis entre os quais chamavam a atenção o Executivo presidencial, um Executivo Standard, um Willys Fórmula 3, um protótipo com motor entre eixos e um Willys-Knight 1928 (que participou do filme “Meu pé de laranja lima”) entre outros automóveis e utilitários, além dos outros produtos que também fabricava, tais como motores marítimos, conjuntos geradores, etc..

O “Executivo” em novas mãos

Alguns dos “Executivos” saíram da fábrica muito tempo após seu lançamento e isto se deveu não à falta de sucesso mas, sim, pelo fato de que logo após o V Salão, em abril de 1967, já se anunciava que a Ford Motor Company dos Estados Unidos já havia comprado todas as ações da Willys que pertenciam à Kaiser Jeep Corporation (35.75%) nos Estados Unidos e as ações da Régie Nationale des Usines Renault (12%) na França e, consequentemente, havia se tornado dona da Willys no Brasil.

Desta forma, entende-se que não havia, então, maior interesse por parte do novo acionista em continuar a promover o modelo de prestígio da Willys. Aliado a isto, o lançamento do Galaxie no mesmo V Salão do Automóvel teria atraído toda a atenção da Ford ao novo modelo e queria mostrar ao consumidor brasileiro uma nova concepção de automóvel de luxo que, sem dúvida, era mais avançada do que a oferecida pela Willys naquele momento. Isto explica o fato de alguns Executivos terem sido vendidos muito tempo depois de seu lançamento, já que, segundo alguns relatos, o Executivo Standard número 14 teria sido o último fabricado antes da venda da Willys e que teria ficado “escondido” na fábrica por alguns anos até ser finalmente vendido a um particular.

O futuro frente à nova concorrência

O Executivo assim como o Itamaraty e o Aero não poderiam ser comparados com o Galaxie por serem projetos totalmente diferentes inclusive na tecnologia empregada. Pode-se então entender a venda da Willys por parte da Kaiser, pois este grupo controlador, naquele momento, mantinha interesses na área automobilística somente na Argentina através da IKA – Indústrias Kaiser Argentina e no Brasil através da Willys. Investimentos numa eventual atualização tecnológica custariam milhões de dólares sem que se tivesse certeza do retorno, ao competir em pouquíssimo tempo, com produtos mais modernos das 3 grandes empresas automobilísticas americanas que estavam trazendo para o Brasil modelos tais como o já citado Galaxie, o Opala e o Dodge Dart.

Com relação a custos, para que possamos ter uma idéia, o Executivo especial custava o equivalente a aproximadamente 4 Volkswagens sedan ou seja Cr$ 27.003 enquanto um Itamaraty custava Cr$ 13.947 e um Galaxie Cr$ 21.909.

Os “Executivos”, seus números e características

Executivo em exposição em Águas de Lindóia - SP, em 2013
Executivo em exposição em Águas de Lindóia – SP, em 2013

No total foram fabricadas 27 limousines sendo 2 protótipos, 19 do modelo “Standard” e 6 do modelo “Especial”. Sua carroçaria foi desenvolvida em conjunto com a Karmann-Ghia, sendo que alguns exemplares têm gravado numa pequena placa nas soleiras das portas traseiras os dizeres “carroçaria Karmann-Guia”. A modificação consistiu na inserção de mais alguns centímetros entre as portas e também entre a porta traseira e o porta-malas. Importante notar que parte deste ganho de dimensões foi obtido devido à limitação de espaço para o motorista, já que o banco dianteiro não permite regulagens.

O modelo “Standard”, que era tecnicamente conhecido como série 6-1152 S-340, era uma versão com diversas características exclusivas, porém menos luxuoso que o modelo “Especial”, que era da série 7-1153 E-340.

A grande diferença entre o “Executivo” e o Itamaraty estava no habitáculo para os passageiros, pois havia, na versão “Standard”, espaço para 5 pessoas sendo 3 no banco propriamente dito e 2 nos banquinhos escamoteáveis situados nas laterais da parte central do automóvel, vidro elétrico separando o motorista, rádio com 4 faixas de ondas, toca-fitas de cartucho Clarion Car Stereo, apoio móvel para os pés, detalhes de acabamento em jacarandá-da-Bahia maciços, vidro tipo “ray-ban” no pára-brisas e no vidro traseiro, ar condicionado e uma plaquinha em prata indicando que o veículo havia sido “Fabricado especialmente para…”.

A linha completa da Willys Overland em 1967, com o Executivo em destaque

A versão “Especial” tinha todos estes requintes, mas com capacidade para 4 passageiros. O banco era separado por um console fixo que possuía um gravador Sony, um barbeador Remington Roll-a-Matic, um toca-fitas de cartucho Clarion Car Stereo, espaço para guardar as fitas cartucho, além dos controles de luzes internas, separador de vidro entre as cabines e acendedor de cigarros. Interessante notar que o padrão do estofamento foi inspirado no que fora usado no Itamaraty 66 sendo então composto de grandes quadrados delineados por costura e com botões nas extremidades.

Os interiores eram sempre em couro, na sua maioria, da cor havana na parte dos passageiros e preto na parte do motorista. Entretanto existe um exemplar com havana nas duas cabines. O estofamento era oferecido nas cores havana, preto, cinza e branco (!). O interior do modelo standard seguiu a padronagem dos Itamaratys com costuras verticais.

Os automóveis saíram de fábrica geralmente na cor preta pois se conhecem apenas três exemplares de outra cor sendo dois azuis marinho (um deles foi de uso da Willys e posteriormente pintado de preto pela própria fábrica) e um verde cujo atual proprietário pintou de preto. Dos automóveis atualmente conhecidos apenas 1 não é preto.

Os “Executivos” e seus proprietários

Dos 27 automóveis produzidos, 22 tiveram até agora seus primeiros proprietários identificados. Hoje só se conhecem 19 “sobreviventes” que estão, na sua maioria, na mão de colecionadores. Em alguns casos foram modificadas algumas características originais colocando-se, por exemplo, teto solar, calotas e sobre aros diferentes, detalhes de anos anteriores, espelhos retrovisor no lado direito, brasões da República afixados nas colunas traseiras além de modificações no padrão do estofamento entre outras mudanças.

É sabido que os automóveis não seguiram um padrão pois eram fabricados um a um. Todavia, existem certas características de fabricação da Willys que identificam claramente se as modificações foram executadas pelos atuais proprietários desobedecendo-se a originalidade de fábrica e até de época.

É interessante notar que alguns automóveis saíram de fábrica com detalhes que lhes conferiam exclusividade, como o grande teto solar do “Especial” número 5 que pertenceu ao Governo do Estado de São Paulo.

A ordem de fabricação não respeitou a ordem numérica dos chassis e um dos últimos a saírem da fábrica (Ford-Willys) foi o “Standard” número 16 que foi vendido para a prefeitura da cidade gaúcha de Pelotas em julho de 1969. Era um modelo realmente simples pois não tinha o nome Itamaraty nem o detalhe prateado no capô. Tinha a grade dianteira do Itamaraty 68 e o console do habitáculo dos passageiros era inteiriço pois não possuia rádio. Este automóvel agora se parece com os outros porque o atual proprietário fez modificações a fim de igualá-lo aos demais. Percebe-se, que a fábrica aceitava modificações pois o automóvel seguinte, de número 18, saiu da fábrica em agosto de 1969 sem as modificações por que passou o número 16.

Exemplar do Museu do Automóvel de Brasília, um dos remanescentes do Ministério das Relações Exteriores

Poucos destes automóveis foram vendidos para particulares já que 2 foram para a Presidência da República (S-4 – confirmar – e E-5), 6 para governos estaduais (S-10 Bahia, S-15 Mato Grosso, E-2 Minas Gerais, E-3 Guanabara – a confirmar -, E-4 São Paulo e E-6 Rio Grande do Sul), 3 para o Ministério das Relações Exteriores (S-6, S-8, S-13), 1 para o Ministério da Aeronautica (S-11), 1 para o Tribunal de Justiça do Paraná (S-1) e 1 para a Prefeitura de Pelotas (S-16). Dos demais que se tem notícia, 3 foram vendidos para empresas e 5 para pessoas físicas.

Dos vendidos para o governo, apenas 2 permanecem com ele que são o do Ministério da Aeronáutica (S-11) que está exposto ao lado do avião Viscount da Presidência da República no Museu Aeroespacial do Campo dos Afonsos (RJ) e o do governo do Mato Grosso (S-15) que, numa atitude louvável, tombou o automóvel que agora é parte integrante do patrimônio histórico do Palácio Paiaguás, sede do governo do Mato Grosso.

Algumas passagens com os Itamaratys Executivos

Muitos fatos interessantes ocorreram com os “Executivos”, mas um é especial e aconteceu com o “Executivo” do Governo do Estado de São Paulo (E-4) quando do governo Abreu Sodré. Certa noite, em meados de 1968, o automóvel foi metralhado no bairro do Pacaembú com o governador à bordo; o mesmo só não se feriu pois estava recostado no banco traseiro com os pés apoiados na banqueta retrátil. Mesma sorte não teve o motorista que foi ferido nas pernas. Consta que, durante a reforma, o atual proprietário teria encontrado uma das balas alojada no interior de uma das portas. • Com exceção do Rolls-Royce da Presidência da República (que foi comprado e não doado pela rainha da Inglaterra), nenhum outro automóvel serviu a tantos presidentes e autoridades estrangeiras quanto os “Executivos”. Para se ter uma idéia, só o presidencial (E-5) serviu a 7 presidentes da República e teve sua última grande aparição pública quando da posse do presidente Collor quando foi usado para levar sua esposa à cerimônia. • Entre os passageiros mais ilustres que se serviram dos “Executivo” podemos citar a rainha Elisabeth II da Inglaterra, o Príncipe Akihito e a Princesa Michiko do Japão, a Primeira Ministra da Índia, Indira Ghandi entre outros em visitas que fizeram ao Brasil. • Com todo este passado, é inegável que o “Executivo” seja não só um clássico, mas um dos automóveis mais interessantes já fabricados no Brasil e que tem lugar assegurado na história de nosso país.


Texto e fotos: José Antonio Penteado Vignoli

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