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18 de novembro de 2009: Cinquentenário da inauguração da Fábrica Anchieta da Volkswagen

Construção da Ala I

Pois é, a fábrica começou a ser construída em 1956, e suas áreas foram sendo utilizadas a medida que as obras progrediam. Uma construção de dez mil e duzentos metros quadrados num terreno 1.851.935 metros quadrados.

Este projeto foi impulsionado pelos planos inicialmente traçados por Getúlio Vargas, mentor dos planos de instalação de uma indústria automotiva brasileira, interrompidos por seu suicídio em 1954.

No dia 30 de outubro de 1953 Getúlio Vargas, tendo o Almirante Lúcio Meira, membro da Comissão de Desenvolvimento Industrial da Presidência da República, a seu lado. Ambos observam automóveis Volkswagen que serviriam de modelo para a Indústria Nacional

Juscelino Kubitscheck tocou estes planos para frente com redobrado vigor ao implantar em 1956 o Grupo Executivo da Indústria Automobilística – GEIA.

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Montagem de veículos na Rua do Manifesto, Ipiranga

A Volkswagen estava estabelecida provisoriamente num galpão da Rua do Manifesto no Bairro do Ipiranga desde março de 1953. Em 1956 a linha de montagem foi transferida para uma ala pronta da nova fábrica.

Em 1957, Fuscas ainda montados a partir de CKD’s descem a rampa do viaduto da Ala II

E as máquinas estavam se aquecendo para o lançamento do primeiro veículo Volkswagen brasileiro que foi uma Kombi, no dia 2 de setembro de 1957.

Kombi 00001 – uma foto que marcou época

Em termos de marcos histórico da trajetória da Fábrica Anchieta seguiu-se a fabricação do primeiro “Volkswagen de Passageiros” no dia 3 de janeiro de 1959. A produção de Fuscas e Kombis corria em paralelo na época.

Fabricação de carrocerias de Fusca e Kombi na Fábrica Anchieta

Mas a fábrica apesar de pronta não havia sido inaugurada… Depois de resolvidos os problemas de agenda chegou o dia da Inauguração, 19 de novembro de 1959. A inauguração contou com a presença de pessoas ilustres, dentre outros, o presidente Juscelino Kubitscheck, o governador de São Paulo Carvalho Pinto e do lado da Volkswagen seu presidente Mundial Heinrich Nordhoff e o Presidente da Volkswagen do Brasil Friedrich Schultz-Wenk.

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No dia da inauguração, no banco de trás JK e Carvalho Pinto, na frente Schultz-Wenk, dirigindo, e Nordhoff. Um segundo Volkswagen Cabriolé participou da inauguração…

A Fábrica Anchieta conheceu dias de glória no auge da produção de Fuscas quando milhares de carros eram produzidos diariamente antes do advento dos robôs de produção.

Em 1970 a linha de montagem do Fusca já tinha alcançado proporções significativas

Hoje em dia a Fábrica Anchieta está altamente automatizada e tem ótimas perspectivas de futuro dado aos planos que a Volkswagen Mundial tem para esta unidade. Desde seu início esta unidade foi quebrando barreiras, como a produção do milionésimo Fusca em 1970, em 1979 um fusca atingiu a contagem de cinco milhões de carros VW fabricados e em 1983 a cada 70 segundos um veículo saía das linhas de montagem…

Em 1982, uma foto da Avenida 23 de maio, em São Paulo, mostra que a maioria dos carros que aparecem era Volkswagen, fabricados a Fábrica Anchieta

Enviamos à Volkswagen do Brasil os parabéns pelo cinqüentenário desta fábrica que sempre renova seu pioneirismo no contexto automotivo nacional e dentro da organização Volkswagen mundial.

Recebi do Volkswagenmaniaco Rogério Caldas de Oliveira uma crônica que conta a sua experiência, ainda como adolescente, na Fábrica Anchieta da Volkswagen do Brasil. Ele conta como viu e descobriu a Fábrica Anchieta a bordo de uma bicicleta nos idos de 1986… A cinqüentenária Fábrica vista através dos olhos eu um jovem de 14 anos, algo diferente que o Rogério brinda aos amantes da Volkswagen.

A cidade Volkswagen Anchieta

Fábrica Volkswagen Anchieta. Cruzamento da Ala III, à esquerda e Ala IV, à direita.

Sou Rogério, eletricitário, tenho 37 anos e resido em São Paulo, Capital. Sobrinho de 5 tios que trabalharam na fábrica da VW Anchieta, conhecida como Fábrica I, sendo que um destes tios conseguiu intermediar um trabalho em uma Empresa terceirizada que prestava serviços nesta unidade!

Começo minha história em 10/11/1986, quando iniciei meu primeiro trabalho na VW, como contínuo, no setor 1367, denominado Departamento de Obras e Manutenção, onde esta Gerência também respondia pela Manutenção Predial, Zeladoria e Jardinagem. Fui apresentado á secretária de origem alemã, muito eficiente (Naquela época, a secretária já tinha um papel muito além do que fazer cartas e atender telefone) Seria hoje, uma assistência de gerência. Isto eu posso dizer, que funcionava por toda a fábrica, nos diversos setores.

A fábrica era composta por 22 Alas, sendo que todas eram indicadas por algarismos romanos, onde os prédios, em regra geral, eram construídos em forma retangular. Já os prédios mais novos seguiam uma arquitetura mais atual. Os mais antigos, seguiam um padrão de época, originário da VW alemã!
Para aprender a localização dos setores, existia um padrão, ou seja, cada setor era indicado na Ala, e os lados correspondentes da Ala, eram denominados através de pontos cardeais, com nomes da região, que o lado direcionava. Exemplo: Sul, São Paulo. Norte, Santos. Leste, Santo Amaro. Oeste, Anchieta. Assim, fui descobrindo isto a caminhar na Cidade VW!

As ruas eram pavimentadas, com calçadas, e demarcação para pedestres, e em pontos críticos, existiam até semáforos! Muito bem sinalizadas, tanto para o pedestres como para os veículos que lá circulavam! Existiam algumas árvores, e acho que algumas foram preservadas desde a construção da fábrica! Agora, os jardins eram um exemplo de paisagismo!

Em pouco tempo eu andava por todos os lados da Fábrica! Logo, para ganhar mais agilidade, recebi uma bicicleta! Facilitou muito minha vida, pois entregava as CI´s ( Comunicações Internas, que eram datilografadas, pois os computadores eram aplicados somente em serviços restritos, como CPD) nos setores! Faço analogia ao mensageiro de guerra! Já o Gromow, fez uma analogia, que não tinha passado por minha cabeça, ou seja, eu era o que hoje chamamos de email!!!

Entre uma correspondência e outra, também ia ao banco (Banco Nacional, o qual ajudou muito na carreira do Ayrton Senna), tirava cópias, pois naquela época, havia uma central de cópias em cada Ala com um número significativo de escritórios! Também levava solicitações de impressos gráficos, pois também existia uma gráfica na fábrica, porém sediada em um endereço único, Ala XIII, lado Santos!
Na cidade Anchieta, assim se pode dizer, existiam em pontos determinados, pequenas lanchonetes. Todas tinham o mesmo padrão de vendas de mercadorias, sendo os melhores fornecedores do mercado! Estas lanchonetes eram vinculadas ao setor de Alimentação, que também gerenciava os restaurantes, distribuídos em locais estratégicos pela fábrica! Falando de restaurantes, a refeição era uma delícia, refrigerante de máquina a vontade e os pãezinhos da padaria própria! Não existia melhor em lugar algum! O que também chamava a atenção era o uniforme dos funcionários deste setor, todos branquinhos, como uma farda médica militar, com o logo VW, estampado no bolso! Um sonho!!!
Outro local que me chamou muita atenção foi o Centro de formação para menores, onde se aplicava instrução de mecânica e elétrica para autos, semelhante ao que podemos chamar de Senai. Sempre passava pelos treinandos, observando sua aplicação e dedicação ao curso, sempre acompanhados por um instrutor muito bem capacitado!

Andando pelas Ruas e Alas, passava pela Ala XIV, onde existia a montagem final, que era outro sonho! Linha da Kombi, Santana, onde admirava toda aquela aplicação e concentração dos montadores, sempre atentos na montagem dos veículos! Nesta Ala, os veículos, após os testes finais, saiam diretamente para o pátio! Passava um bloco de veículos, exemplo, Santanas e logo atrás, uma Kombi para passageiros! Está Kombi, trazia os motoristas de volta para a Ala, para recomeçar todo o processo de envio de veículos para o pátio! Este processo era executado por vários comboios. Para um jovem de 14 anos, isto era o máximo!

Por falar em Kombi, este era o VW que mais se via pelas Ruas internas da fábrica, sendo o modelo para Passageiros, o Furgão ou Pick-up. Elas executavam todo tipo de transporte interno e na maioria dos modelos, eram sem placas de licenciamento. Estas Kombis possuíam uma placa com o nome e número do setor correspondente ao veículo! Já a segurança Patrimonial e Corpo de Bombeiros, tinham os veículos emplacados e o sistema de segurança, semelhante ao que temos no lado de fora da fábrica, ou seja, patrulhamento entre as Ruas, ocorrências nos setores, de qualquer origem, são atendidas pela segurança e os Bombeiros, o que não podia ser diferente, ou seja, sempre atentos, monitorando todo o complexo. Lembro-me perfeitamente de uma Kombi com escada tipo Magirus, nas proporções do veículo, pertencente ao Corpo de Bombeiros. Na época a sua origem não me chamou a atenção, mas hoje, com o conhecimento que vamos adquirindo, acredito que esta Kombi era da Alemanha, pois vi modelos semelhantes em livros com fotos dos anos 80 referente à VW Alemã! Também havia uma Kombi, com a carroceria à frente da cabine, sendo a cabine, acima do motor! Muita legal e chama a atenção de qualquer visitante! Hoje, através do Gromow, pude descobrir o verdadeiro nome desta Kombi, que em alemão, chama-se Pritschen Wagen! Uma raridade!
Como a Kombi era soberana nas Ruas da VW, o que não poderia deixar de ser, outro modelo comum pelas Ruas da fábrica, era o Santana e o Santana Quantum, modelos exclusivos para Gerentes e Diretores, sua maioria modelos completos como o CD e subseqüentemente o GLS!

Agora outro veículo que algumas vezes transitava pelas Ruas, era o FOX, versão do Voyage brasileiro, o qual era destinado ao mercado americano e canadense. Este veículo me chamou a atenção pela primeira vez, pois existia uma luz no vidro traseiro, que até aquele momento, nunca havia visto em outro veículo, que hoje, chamamos de Break Light, tão comum nos veículos atuais!

Estes Voyages eram usados em teste pela engenharia de Fábrica e quando algum engenheiro utilizava um modelo pelas Ruas internas, não só eu, mas os funcionários em geral, paravam para ver as diferenças do modelo americano para o brasileiro. Visualmente eram percebidas mudanças nas calotas, faróis, indicadores luminosos nas laterais dianteiras e traseiras, Break Light, logo FOX e um adesivo no vidro traseiro , acima dos filamentos térmicos do desembaçador do vidro, com a frase: MADE IN BRAZIL! Também existia uma versão que poucos devem conhecer: era o FOX Wagon, que nada mais era o que veio a ser a nossa famosa Parati. Mas vale lembrar que estes dois veículos possuíam mais de 100 itens de diferença em relação ao modelo Brasileiro, para atender o padrão de exigência dos Estados Unidos e Canadá!

Finalizando, gostaria de fazer um pequeno comentário sobre a VW Caminhões que se situava na Av. Dr. José Fornari, paralela à Via Anchieta, sentido São Paulo! Está fábrica, que utilizava as antigas instalações da Dogde Caminhões em um terreno que pertenceu a Antiga Brasmotor, crescia a cada dia, mantendo um paralelo a VW automóveis, mas gostaria de comentar uma curiosidade sobre estas duas fábricas! Como uma fica paralela a outra, porém dividida pela minha amada Via Anchieta, foi feito um túnel exclusivo para pedestres, por baixo da rodovia, assim ligando as duas fábricas, porém fora da divisa de portões, ou seja, aberto aos demais pedestres! Hoje, como a VW Caminhões se mudou para Resende, RJ e no local da antiga VW caminhões, existe outro grande complexo, sem vínculos com a VW, este túnel ficou praticamente abandonado! O mais curioso é que os milhares de motoristas que passam por esta Rodovia, não imaginam que transpõem este túnel e o legal é que em Janeiro de 2009, fui visitá-lo e até que ele está em pleno funcionamento, porém sem a utilização que ele proporcionava aos funcionários da VW nos anos dourados!

Rogerio ao lado do sobrinho

Em 1988, o contrato da Empresa que eu trabalhava não foi renovado e tive que me despedir da Fábrica Anchieta! Foi muito triste, pois eu amava tudo aquilo! Mas não me revoltei e entendi que era um funcionário terceirizado e não um funcionário VW e prometi que a paixão pela VW não ia acabar e não acabou! Desde meu primeiro veículo até hoje, só possuí VW´s! Possuo um acervo de revistas e livros, que considero bastante rico e importante sobre a história da VW! Tenho uma respeitável coleção de miniaturas de VW´s e Porsches, em várias escalas! Possuo o Azulão, um VW Sedan 1969, que simboliza toda a paixão que tenho pela VW Brasil e pela Unidade Anchieta! No dia 23 de Dezembro de 2009, o Azulão faz 40 anos de vida e vou levá-lo até a Portaria de VW Anchieta e tirar uma foto comemorativa, juntamente com os 50 anos da VW Anchieta! Ele merece este presente! A VW merece este presente! Espero que não chova, pois o Azulão, há muitos anos, não pega uma gota de chuva!

VW Anchieta! Fábrica I! Parabéns pelos seus 50 anos de vida e tenho o máximo orgulho de ter lhe conhecido, respeitado como um grande local de trabalho e de ter construído o melhor carro do Mundo! Vocês, equipe VW, fizeram aqui no Brasil, a concretização da missão para o qual o Käfer foi construído!!! Colocar o povo Brasileiro sobre rodas, iguais às que transportaram o povo Alemão!

 

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Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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